Misericórdia: categoria política

Vocação de S. Mateus, Caravaggio

A cidade de Roma guarda incontáveis tesouros artísticos. Um dos quadros que não poderei esquecer é “A vocação de São Mateus”, de Caravaggio. Esta magnífica obra encontra-se na Igreja de São Luís dos Franceses. Esta semana reencontrei este quadro na capa do livro publicado pela editora da Universidade Católica, “A Misericórdia como categoria política”, da autoria de Cristina Sá Carvalho (2024).

Na nota do lançamento do livro que ocorreu no dia 12 de março, véspera do 11.º aniversário da eleição do Papa Francisco, foram colocadas duas questões: “Podem as democracias salvar-se e promover um desenvolvimento integral de pessoas, de organizações e de comunidades? Como podemos aprender a viver juntos no contexto de uma crise tão profunda?”.

A obra parte dos princípios do Papa Francisco para apresentar a misericórdia como estilo de vida para as sociedades democráticas, estabelecendo novos horizontes para a crença na democracia: acolher, acompanhar, proteger, discernir, promover e integrar.

“Podemos tratar esta misericórdia como uma categoria política porque não diz respeito apenas às relações curtas de face a face, ou microrrelações, mas às relações longas ou macrorrelações (…) A misericórdia diz respeito à reconciliação e paz entre fações de um mesmo povo e entre povos enfrentados e não suplanta a justiça, mas a supõe antecipadamente”, escreve a autora (p. 238).

A misericórdia é o “princípio hermenêutico” do pontificado do Papa Francisco, o fio de oro que atravessa os seus documentos e discursos, a maneira de governar a Igreja e, sobretudo, a sua forma de viver (J. Scannone). Escreve o Papa na Bula de proclamação do Jubileu da Misericórdia: “Jesus olhou Mateus com amor misericordioso e escolheu-o: miserando atque elegendo. Sempre me causou impressão esta frase, a ponto de a tomar para meu lema” (Misericordiae Vultus, 2015).

Para Cristina Carvalho, “a mensagem do Papa Francisco para adoção da misericórdia como estilo de vida ensina-nos que governar é ‘discernir as estradas da esperança’, é ‘identificar os percursos concretos para a centralidade do homem” (p. 336).