A era da incerteza

Quatro árvores | Egon Schiele (1890–1918)

Aprendemos a conviver com a incerteza. A ideia de que conseguimos controlar os acontecimentos da história esvaneceu-se com a pandemia. Sabemos que já não existem soluções predefinidas. “A única coisa que sabemos acerca do futuro é que será totalmente diferente”, dizia Peter Drucker.

A alimentar esta sensação de insegurança global encontram-se os cavalos do apocalipse que infelizmente percorrem o mundo, sem sinal de tréguas. Depois do cavaleiro da pandemia, vieram os cavaleiros da fome (inflação) e o da guerra, a quem foi dado “o poder de retirar a paz da terra e de fazer com que os homens se matassem uns aos outros” (Ap. 6, 4).

A história indica que os momentos de crise e instabilidade são os mais propensos aos radicalismos, visões dogmáticas e promessas de segurança. Como afirma John Dewey, “o amor pela segurança (…) leva ao dogmatismo, à aceitação de crenças sobre a autoridade, à intolerância e ao fanatismo, de um lado, e à dependência irresponsável e preguiça, de outro”.

Mas a incerteza é também um tempo de oportunidades, de abertura ao novo e à criatividade. Na obra “A era da incerteza. Como um grupo de grandes cientistas mudou a nossa forma de ver o mundo” (2022), Tobias Hürter percorre a história desde Marie Curie até Albert Einstein para dizer que a incerteza conduz à busca pelo conhecimento, poder que transforma o mundo.

Para David Justino, a incerteza “cria a tensão indispensável à construção da esperança e da liberdade”. Faz despertar “a inquietude face ao desconhecido, a curiosidade face ao inexplicável, a dúvida e o questionamento do adquirido, do estabelecido” (in Ensaios sobre o dia seguinte, 2023).

É neste quadro que Luís Caeiro considera a incerteza como um “pilar fundamental da democracia”, pois “admite-se a pluralidade, a discussão de ideias, e estimula-se a negociação e os consensos” (in Liderar na era da incerteza, 2022).

Como viver então, na era da incerteza? As palavras do Papa na JMJ2023 em Lisboa podem ajudar. Em vez de fugir das ondas ou a pretender detê-las, aprendamos a agarrá-las e sermos “surfistas do amor”.