Conto: A última oportunidade

D.R.

Amílcar era um autodidata! Filho de pescadores, nascido e criado à beira- mar e em terra de pescadores, mas dotado de alma de poeta, grande sensibilidade e uma voz extraordinária, cedo enveredara pelo teatro amador e decidira ser ator a sério! Não fora uma vida nada fácil, nem uma decisão aplaudida pela família …

Naquela tarde quente e seca, Amílcar chegou a casa, suado, triste e desanimado. Mais uma porta se lhe fechava de novo!

‘Desculpa lá, ó Amílcar, mas a produção não te pode contratar, precisamos de outro tipo de atores para esta telenovela…’

Ninguém o chamava há mais de um ano e as desculpas eram sempre muitas, mas ele bem sabia que o problema era a idade! Estava velho! E contudo, quando se olhava ao espelho, ouvia uma voz interior que lhe dizia: ’Sim, estás velho de aparência, mas não tão velho que não possas ainda trabalhar e usar a tua voz para levar a beleza da poesia e do teatro a muito público … ‘ e pensava, tristemente: ‘Se ao menos me dessem uma última oportunidade …’

O teatro da cidade também não tinha verbas do pelouro da cultura para montar uma peça a sério, alguma obra de grandes escritores como as que já representara há muitos anos atrás, com outros atores bem conhecidos… agora, de vez em quando, lá subia à cena um monólogo, mas não passava disso e os eleitos eram sempre atores bem mais jovens …sim, ele bem percebia que era preciso saber sair de cena e dar lugar aos novos…

Mas em casa do Amílcar o dinheiro estava a acabar e já era difícil pagar renda, comida, água, gás, luz e medicamentos. Custódia, sua mulher, alguns anos mais velha do que ele, depois de uma vida de duro trabalho nas fábricas de conservas, estava a perder a mobilidade, arrastava- se com dificuldade, apoiada em duas velhas bengalas…por isso, cada vez se tornava mais premente a compra de uma cadeira de rodas! Mas, e o dinheiro para tal? Os três filhos, por seu turno, vendo- se com dificuldades em singrar na vida, tinham decidido partir para fora, em busca de melhor futuro…Amílcar sentia – se amargurado… não queria pedir – lhes dinheiro emprestado, nem a eles, nem a ninguém, mas já falava à sua Custódia em deixarem aquele segundo andar, donde ela já nem conseguia sair por causa das escadas, e mudarem- se para um quarto apenas, numa casa térrea… E Amílcar dava consigo a pensar que talvez nada mais lhe restasse senão oferecer- se para fazer entregas de pizzas ao domicílio…

Custódia, pacientemente, ouvia os seus desabafos, mas sempre tentava animá-lo com alguma palavra de esperança, confiante de que ainda lhe dariam uma última oportunidade de trabalho! Enquanto isso, fazia os preparativos do magro jantar, ou tricotava casaquinhos de bebé, muito perfeitos, que o marido deixava na loja da esquina para venderem à consignação.

Até que chegou o festival de Outono, e um amigo de Amílcar, conhecendo a sua precária situação, foi falar com a comissão organizadora e sugeriu- lhes que chamassem o Amílcar e lhe dessem uma última oportunidade de ganhar uns dinheiritos. A ideia desta vez era fazer um espetáculo com declamação e música da banda municipal numa das igrejas da cidade ribeirinha, para celebrarem o aniversário do navegador Corte- Real ali nascido…e simultaneamente evocar Fernando Pessoa através de poemas do seu heterónimo Álvaro Campos, que Pessoa ali fizera ‘nascer’ naquela data.

‘-Por que não chamar o Amílcar? Ainda havia quem se lembrasse da sua magnífica dicção e linda voz…contratá-lo para um único espetáculo não sairia assim tão caro aos cofres da Câmara…’

Além disso, coitado do homem já estava velho…

Amílcar, ao contrário de Custódia, não era homem de fé, mas ultimamente dava consigo a dizer à mulher que pedisse aos seus Amigos do Céu, um emprego para ele, pois a vida deles estava a ficar muito difícil…e Custódia pedia em silêncio, mas pedia insistentemente e há muito tempo!

Amílcar foi então chamado à Câmara e depois de uma entrevista a vários candidatos, foi ele o escolhido para o papel de apresentador e declamador das poesias que entendesse, com liberdade total para escolher, desde que pudesse estabelecer alguma relação com as músicas que a orquestra da terra iria tocar…confiavam nele!

Amílcar entusiasmou- se com o desafio.

Foi ouvir a orquestra de crianças e adultos e encantou- se…Durante duas semanas frequentou a biblioteca, embrenhou -se na poesia de Fernando Pessoa e escolheu algumas, falou com o maestro sobre a melhor forma de as encadear com diferentes músicas que ele próprio sugeriu, assistiu aos ensaios e afincadamente preparou a sua apresentação. Mostrou-a à comissão organizadora e o plano foi recebido com grande expectativa.

Custódia, que era uma mulher simples e de poucos estudos, sorria, feliz, ao ver o marido tão entusiasmado com aquela oportunidade de voltar ao palco…e todas as noites o ouvia treinar e memorizar, embevecida, como se fosse a primeira vez, admirando o seu inegável talento de ator e declamador!

Ao fim de dois meses de ensaios, aproximava- se a data da festa. As autoridades mais importantes da terra e representantes das escolas e outras instituições, bem como as famílias dos intervenientes, todos tinham reservado bilhetes para a tarde desse espetáculo. Ninguém queria faltar!

Sabia-se que viriam grupos de pessoas de fora e muitos estrangeiros ali residentes também tinham já adquirido bilhete.

A Igreja da Misericórdia, habitualmente fechada por falta de sacerdotes, apesar de tão bonita por dentro, voltava a abrir as suas portas para receber aquele considerável número de visitantes.

Amílcar estava nervoso. Algo lhe dizia no seu íntimo que aquele dia poderia ser diferente… não sabia bem porquê, mas era uma espécie de intuição …

No dia previsto, cedo se aglomeravam pessoas à porta da igreja da Misericórdia. Os cerca de 30 músicos, de diferentes idades e trajando a rigor, de branco e preto, já tinham entrado por uma porta lateral e afinavam os seus instrumentos, enquanto que os técnicos de som já lá se encontravam desde manhã cedo para fazerem as necessárias montagens e treino prévio.

À hora prevista, as portas da igreja foram abertas de par em par, e Amílcar, de calças pretas, camisa branca, e laço preto de ‘smoking’, muito elegante, veio esperar a Presidente da Câmara.

A igreja estava linda, decorada com hortênsias azuis e brancas e com um foco de luz suave amarelada incidindo nos altares laterais, onde se viam várias imagens de santos. Todo o altar-mor de valiosa talha dourada estava iluminado com castiçais e velas. No topo, lá atrás, um Cristo belíssimo em marfim sobre o madeiro negro. Mais ao lado, num outro altar, sob uma ogiva também iluminada, uma imagem da Virgem Maria, decorada com rosas brancas.

Tudo o resto estava na obscuridade.

Então, à hora prevista, já com o público todo sentado e as autoridades ocupando a primeira fila, fez- se silêncio, Amílcar avançou em direção ao público, deu as boas vindas a todos, anunciou a entrada dos músicos e seu maestro, e explicou em que consistia o espetáculo de poesia e música que ia ter lugar, e o porquê das escolhas que se sucederiam, intercaladas e sem pausa até ao intervalo.

No primeiro momento seriam apenas alguns versos do início da Ode Marítima de Álvaro de Campos. E após breves momentos de concentração, com uma voz bonita e poderosa, Amílcar deu mais um passo à frente e começou a declamar:

‘Sozinho, no cais deserto a esta manhã de verão,

Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,

Olho e contenta- me ver,

Pequeno, negro e claro, um paquete entrando…’

Um pouco mais adiante, Amílcar pára, afasta- se lentamente e começa – se a ouvir a ‘Canção do Mar’ , sem a voz de Dulce Pontes e sem Madredeus, mas com o belíssimo acompanhamento de toda a orquestra. Ao terminarem os últimos compassos, ninguém bate palmas, porque Amílcar regressa ao topo das escadas para recitar apenas o final da longa Ode, e diz com comoção:

‘(…) passa, lento vapor, passa e não fiques…

Passa de mim, passa da minha vista, vai-te de dentro do meu coração,

Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus,

Perde- te, segue o teu destino e deixa- me

(…)’

E nesse preciso momento, começa- se a ouvir uma voz cristalina de criança – um dos músicos mais jovens – a cantar a famosa canção ‘Sailing’ ( ‘navegando’ ) de Rod Stewart, de novo acompanhada por toda a orquestra.

Ao terminar, logo regressa Amílcar e com a sua bela voz recorda os versos de ‘Barco Negro’, entoando numa voz encantatória com fundo musical…’ eu sei meu amor, que nem chegaste a partir, pois tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo…’em seguida cala- se e ouve- se apenas toda a orquestra a tocar a melodia até ao fim.

O público escuta atento e encantado. Todos suspensos daquela magia! Quer aplaudir, mas ainda não é o momento, porque ao terminar esta belíssima canção, faz – se um brevíssimo silêncio, logo de imediato quebrado pelos acordes inesperados do ‘Sail away’ de Enya. Entre os estrangeiros ali presentes, alguém conhece bem a canção, começa a cantarolar baixinho … e outros se juntam. E é chegado o momento de fazer um pequeno intervalo. Todos se levantam, entusiasmados, para aplaudir! Ouvem- se vários ‘bravo’! O espetáculo é retomado dez minutos depois, e após mais uns momentos de poesia e música, Amílcar recita ‘ Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal…’ e a orquestra em seguida, a finalizar, oferece um número extra, completamente inesperado: ‘La mer’ de Charles Trenet – uma belíssima canção, famosa e de outros tempos, e convida o público a cantarolar também.

A emoção e alegria estão ao rubro, são visíveis no público e nos músicos, e Amílcar não cabe em si de contentamento.

A Presidente da Câmara fez um discurso final, louvando os responsáveis por aquela tarde memorável e dizendo mesmo que iria sugerir a sua repetição na capital para que muitos outros pudessem usufruir de tanta beleza!

No regresso a casa, depois de muitos elogios, abraços e despedidas, Amílcar caminha a passo apressado para contar à sua mulher o sucesso do espetáculo. De repente, ouve uns passos atrás de si e a voz de alguém que o chama. Voltando- se, vê um casal estrangeiro a sorrir e a Presidente da Câmara.

‘- Amílcar, este casal estrangeiro veio a Portugal de propósito para fazer um filme sobre o nosso país. Querem falar consigo e pedir- lhe que trabalhe com eles para os ajudar a montar um espetáculo semelhante ao de hoje…ficaram encantados! Já lhes dei o seu telefone… mas deixe- me que vos apresente…’

Quando Amílcar entrou em casa, Custódia ansiava por novidades e Amílcar abraçou- a com quanta força tinha, quase incapaz de falar, tamanha a sua emoção …

‘- Custódia, minha querida, tu nem vais acreditar…’