Viajar sem sair do lugar

D.R.

O Âmbito Cultural e o Magazine de Âmbito Cultural do El Corte Inglês têm como objectivo principal cumprir a vontade do seu fundador, Rámon Areces, concretizada na missão de responsabilidade social associada à divulgação e promoção da cultura, no sentido de contribuir para uma sociedade mais esclarecida, mais enriquecida e mais culta.

Neste sentido, o Âmbito Cultural visa a organização de actividades culturais e artísticas, assim como a difusão e promoção dos valores culturais junto dos indivíduos, contribuindo para o seu desenvolvimento e enriquecimento pessoal e cultural.

Todas as atividades do Âmbito Cultural são gratuitas, não apenas por resultarem de uma das expressões de Responsabilidade Social do El Corte Inglês, mas “por acreditarmos que o conhecimento é dos poucos bens que se multiplica com a partilha, tornando simultaneamente mais rico, quem o oferece e quem o recebe”. 

Foi neste feliz contexto que embarquei por “mares nunca dantes navegados”, não solitariamente mas tendo ao leme Maria João Lopo de Carvalho. Com ela seguimos a inolvidável e solitária viagem, que a autora realizou em 2015, seguindo a rota de Luís de Camões na sua “peregrinação” pelo Oriente.

«Impossível não ser tocada pela valentia e pela coragem dos portugueses ao ousarem sempre mais. E por isso e com isso atrevi-me, no dia seguinte, a fazer a travessia de barco. O mais temível era o vento. O vento a levantar o mar.

Não eram os ventos passados que agora me afligiam, eram os ventos futuros, cruzar o cabo por mar. Agora ou nunca!

O veleiro, tripulado por três portugueses e um sul-africano, partiu de St. Simon, tornando-se cada vez mais pequeno, à medida que o mar se agigantava.

Navega-se. Apagam-se as casas penduradas sobre o oceano, acrescenta-se rocha até só haver rocha, terra, altura. E naquela escarpa rebentando de espuma vejo, em sulcos fundos, o gigante de nuvens convertido em pedra: Adamastor!

As ondas e o mar desordenado depressa me fizeram prever a aproximação de tormentas.

Dobrar o medo, vencer o Adamastor, e ser ainda mais portuguesa. E foi isso que fiz.

Cantei o Hino Nacional no exato ponto de viragem e sei, tenho a certeza, de que Luís Vaz de Camões me protegeu navegando naquele mesmo barco.

Não tenho palavras, ou melhor, não as encontro certeiras para descrever o que senti: cruzar com acesa memória o Cabo da Boa Esperança é ser mais alto, é ser maior do que o mundo…mas ainda não é bem isso. É mais.

Fecho os olhos e até a luz líquida me comove de lembranças: içar velas, estudar as estrelas, vencer as fráguas, avaliar os ventos, descobrir as correntes, dar nós. Partir e chegar».

Dobrámos o Cabo das Tormentas, passámos pela Ilha de Moçambique, Mombaça, Melinde, Mascate, Ormuz, Ilha da Taprobana, Malaca, seguindo-se as Ilhas Molucas e Macau.

“As armas e os barões assinalados,
que da ocidental praia Lusitana,
por mares nunca dantes navegados,
passaram ainda além da Taprobana”

Ao longo de dois meses, Maria João Lopo de Carvalho percorreu sozinha os locais por onde andou Camões antes de escrever “Os Lusíadas”. Visitou 16 cidades, 20 aeroportos, tirou milhares de fotografias, contactou in loco todas as gentes daquele mundo e regressou plena de satisfação, alegria e satisfeita por ter realizado um sonho megalómano

«Com 53 anos dobrou o medo, foi a primeira grande viagem que fez sozinha. Chamaram-lhe o interrail do meio século, porém, Maria João considera-a “a sua epopeia ”».Oitava crónica: Mekong e 

«No romance que estou a escrever, a minha viagem com Luís Vaz cruza o tempo e o espaço. Cruza o mar e o céu através da voz das cinco mulheres que Luís Vaz terá amado: Violante, Catarina, Francisca, Bárbara, Dinamene. Será o século XXI próximo do século XVI, pelo menos no amor? Quem vou conhecer, com quem vou falar? Quantos barcos e aviões vou perder? Em que portos vou perder-me? Vou ter paciência para mim mesma, com os meus medos e as minhas angústias?»

«Aliás, na mochila levo um só livro – Os Lusíadas, o Bilhete de Identidade dos portugueses. Junto-lhe a esperança de descobrir onde mora a Ilha dos Amores e a certeza de que da minha língua vê-se o mar.

Ler Os Lusíadas antes da travessia e fazê-lo agora são duas coisas distintas. Sei de que vento escreveu e de que mar. Sei de que esperança, sei de que calma, de que descoberta, de que conquista e de que vitória.

E sei que Luís Vaz está aqui por mares nunca dantes navegados. O mesmo mar português. O mar das caravelas e das naus que o desafiaram sempre mais.

Depois, já em terra, ouvir as histórias sem rumo que ondulam nas vozes dos lobos-do-mar lusitanos, a sul de África, é poder perceber-lhes o amor e a entrega sem limites.

O mar está-nos inscrito na matriz, e é disto que se trata quando se ouve falar quem traz as marés no olhar e na voz».

Fiquei presa à memória bonita daquelas antigas praças lusitanas. Índia era Portugal. Ainda é. Deixo para trás Damão no rebuliço de uma agitação febril e Diu na pacatez de um imenso areal de curvas suaves e falésias debruadas a ponto luz.

E sigo para Goa. Dizem-me que em cada pedra vou encontrar uma estrofe… «Quem viu Goa não precisa de ver Lisboa”, lá diz o provérbio goês. Chegar à Ilha de Goa é uma espécie de chegar a casa. Um deslumbre. Goa é tecida de contrastes, enchemos os olhos do verde fresco, verde brilho, verde esplendor e verde acinzentado, verdes que nos acordam e nos dão a perceber de que matéria é tecida a natureza em toda a sua exuberância e variedade. Mais além são os azuis que nos convocam a lembrança da nossa terra e que existem, juro-vos, em todas as matizes que é possível conceber, do azul desbotado ao azul petróleo, do azul líquido ao azul-turquesa mais do que perfeito. E depois há o branco. Dizem-me: são 200 igrejas com a nossa assinatura. Vejo-as de uma brancura imaculada a irromperem altivas e no meio do mato. E sei: estou em casa.

Do verde ao branco, do branco ao azul do mar, das cores aos cheiros: o perfume das especiarias, do sândalo, da cânfora, a brisa de sal e terra húmida, a essência da pimenta, do cravo e da canela, do incenso. E há as sedas, os panos finos, os saris, os santos, as cruzes, os alpendres e varandins, os olhares, os sabores apurados. O picante. Goa é isto, um baú cercado de sentidos».

«De tanto ter massacrado quem devia e quem não devia com perguntas sobre o século XVI e sobre os portugueses e sobre o poeta, ganhei um epíteto curioso:

— Então esta é que é a Senhora do Luís de Camões? Muito prazer em conhecê-la.

Apeteceu-me responder que do que mais gostei foi do artigo definido “a” — não existe nenhuma outra, portanto!»

«Despedi-me de Goa com o pôr-do-sol mais bonito que vi. Despedi-me deste dia na capela da Senhora do Monte. Fica no alto do outeiro, o ponto mais perto do céu. Moram lá todos os passados que foram escrevendo a nossa Historia. São tantas as almas que lhes perdi a conta. Estamos lá todos — soldados, marinheiros, conquistadores, poetas. Está ali o nosso Portugal em cada novo dia que se apaga.

E dali me fui para a terra mais líquida que conheci: Cochim. Água, água que nos acode por todos os lados. Canais, braços de mar, sulcos, chuva quente. Ali estivemos, ali conquistámos e ali morámos e não me admira. A água que nos conforta e nos fortalece. Tudo é água, caminhos de água calma juncados de violetas e de lírios, de pássaros cor do sol e da argila, de ramos pendurados em ângulos absurdos, de mecanismos de pesca tão ardilosos que me custa imaginar que fomos nós que os trouxemos da China para ali os deixarmos ficar.

O que resta do nosso forte é pouquíssimo. Uma fiada de pedras no subterrâneo do museu indo-português. Mas o que mais me tocou foi a igreja de São Francisco, a mais antiga igreja portuguesa na Índia. Não pela igreja em si, com o nosso traço inconfundível, mas pelo primeiro túmulo de Vasco da Gama. Uma vulgar lápide no chão com uma inscrição sumida pelo tempo. Tão humilde memória a evocar alguém tão grande. É nas coisas simples que reside, de facto, a grandeza. Trouxemos Vasco da Gama para casa, demo-lo aos Jerónimos, mas ali ficou o seu último olhar. E o meu, deixei-o preso na pedra que recorda o início de tudo o que somos. Imenso».

«O delta do rio Mekong é outro Vietname (no tempo de Luís Vaz, ainda não se chamava assim) — é o Vietname da paz, do tempo e do silêncio, é o Vietname dos mercados flutuantes, dos barcos a remos, do verde-margem, da melodia dos pássaros, da pesca, das árvores de frutos debruçadas sobre o leito. O rio atravessa o Vietname, o Camboja, o Laos, a China, a Birmânia e a Tailândia por mais de quatro mil quilómetros, contorcendo-se por canais finos como riscos de lápis num labirinto de água lodosa e escura que se vai transformando numa estrada de luz. Apetece demorar e apetece ficar, tentando esquecer tudo o que antes vi. Não terá sido este o Mekong de Luís Vaz. Sabemos apenas que o poeta, ao regressar de Macau, onde ocupou o cargo de provedor dos defuntos, terá por aqui naufragado no ponto em que o caudal cor de terra se confunde com o mar da China. Dizem que as marés são tão violentas que ainda hoje não há barcos que as cruzem. Salvou Os Lusíadas a nado, de braço erguido, imagem que todos os portugueses guardam, não conseguindo no entanto salvar a sua amada Dinamene, que nestas águas terá sido sepultada».

Alma minha gentil que te partiste,
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no céu eternamente
e viva eu cá na terra sempre triste.”

De regresso a Macau, «Olho à minha volta na cidade antiga e leio, na minha língua portuguesa, nomes de ruas, de edifícios, de poetas, de navegadores. Não vinha a Macau desde 1994. A ruína de São Paulo, a calçada portuguesa, o farol, as igrejas e cafés, os pastéis de nata e a livraria. Tudo resiste.

Desvendei-te e finalmente abracei-te. A tua voz nunca se repete, bem sei. Por isso deixo-te, nos teus versos dispersos, deixo-te a ti, marinheiro e poeta, por aqui, nesta ilha singular em que te tornaste. Ilha e mar – és tu a navegar.

E volto a casa, como tu».

“Esta é a ditosa pátria minha amada,
à qual se o Céu me dá que eu sem perigo
tome, com esta empresa já acabada,
acabe-se esta luz aqui comigo.”

Maria João Lopo de Carvalho licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Foi professora de Português e de Inglês, criou a primeira escola de Inglês para os mais novos e trabalhou como copywriter em publicidade.


Passou ainda pelas áreas de Educação e Cultura da Câmara Municipal de Lisboa. Tem mais de setenta títulos editados, entre romances, livros de crónicas, manuais escolares e livros infanto-juvenis, a maior parte deles no Plano Nacional de Leitura. É presença regular na comunicação social e todos os anos visita escolas do País para incentivar o gosto pela leitura. 

*Até que o Amor me Mate, sobre as sete mulheres que Camões amou, foi o romance que originou esta viagem. Valeu a pena!