Política e futebol

D.R.

Confesso: não sou capaz de suportar os programas de desporto, em que os comentadores analisam cada lance de futebol como se fosse o momento mais importante da história do universo, ou as contratações milionárias do respectivo clube como se delas dependesse o destino da humanidade. Os jogos dos três grandes são “projectados”; a história dos seus embates analisada ao pormenor; as consequências dos resultados imaginadas em todas as suas facetas. Mas, afinal, são apenas 22 jogadores a correr atrás de uma bola, mesmo que galvanizem milhares, movam sentimentos, destruam vidas. Sempre foi assim o ser humano. Sempre necessitou de escapes inúteis por onde canalizar o seu entusiasmo e a sua ira.

O estranho é que, nos últimos tempos, a política seja tratada como o futebol. Sim: a política (aquela realidade que diz respeito ao governo da cidade, ao governo da vida dos cidadãos, aquela realidade onde todos nos encontramos e vivemos, e onde se decide boa parte da nossa vida), a política tenho-a visto tratada do mesmo modo que um jogo de futebol. 

Basta ver como, dias atrás, o debate entre os líderes dos dois principais partidos portugueses foi encarado. Fizeram-se projecções; escutaram-se outros líderes; ouviram-se vizinhos que os viram nascer; apresentou-se o lugar do embate, estudado ao máximo pormenor; e, depois, lá vieram os comentaristas, essa geração de peritos que é capaz de analisar tudo, e que fala sobre tudo sempre com o à-vontade de um sábio doutor. Deram-se notas; estudaram-se consequências…

Fico com a sensação de que, quando se trata a política como o futebol, alguma coisa vai mal… E pode ser verdadeiramente dramático!