Parar

Foto: P. Giselo Andrade

O pintor francês Paul Cézanne dedicou cerca de trinta pinturas à imponente “Montagne Sainte-Victoire” (no sul da França). Diante da montanha, o pintor deve fazer silêncio e colocar-se à escuta, explicou Cézanne: “Toda a sua vontade deve silenciar. Ele deve deixar que todas as vozes de preconceito caiam em silêncio dentro dele – esquecer, esquecer, fazer silêncio, ser um eco perfeito. Então toda a paisagem aparecerá em sua placa sensível à luz”, escreveu.

O retiro do clero começou na segunda-feira à noite, 19 de fevereiro, entre as montanhas de São Vicente e a vastidão do mar. Também aqui, a imponência da natureza manifesta a nossa pequenez e pede recolhimento e silêncio.

Enquanto me deslocava para o local do retiro, acompanhava pela rádio os acontecimentos do momento: o protesto dos polícias no Capitólio e a opinião de comentadores sobre o grande debate político que iria ter lugar nessa noite. Como poderia afastar-me da atualidade informativa?

Começou o retiro. O telemóvel continuava acessível. Bastavam poucos toques no ecrã para ficar a par de tudo. E agora?

Agora é tempo de parar e fazer silêncio! “Tu, porém, quando orardes, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai” (Mc 6, 6).

Na Mensagem para esta Quaresma, o Papa escreveu “É tempo de agir e, na Quaresma, agir é também parar: parar em oração, para acolher a Palavra de Deus, e parar como o Samaritano em presença do irmão ferido”.

O que significa parar e fazer silêncio no contexto de uma sociedade onde “parar é morrer”? A paragem que o retiro nos impõe apresenta-nos o caminho oposto à lógica contemporânea, onde o importante é produzir e possuir.

Pelo contrário, parar, tem a ver com inutilidade, improdutividade e invisibilidade. “Vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”, escreve S. Paulo (Cl 3, 3). Parar, é o caminho descendente de esvaziamento de si mesmo diante da montanha grandiosa do amor de Deus, manifestada na obediência da Cruz. Parar é, assim, responder ao apelo de Isaías: “Vinde, subamos à montanha do Senhor” (Is 2, 3). Pois, não basta olhar à distância. É preciso “subir com Cristo à cruz”.