Dia Mundial do doente: D. Nuno Brás diz que é preciso estar atento “à lepra do pecado”

Foto: Duarte Gomes

O Bispo do Funchal presidiu na manhã de domingo, dia 11 de fevereiro, na igreja da Nazaré, a uma Eucaristia, organizada pela Pastoral da Saúde, com a qual se assinalou o Dia Mundial do Doente e na qual participaram diversos dirigentes ligados ao sector, nomeadamente o secretário regional e ainda o presidente da Assembleia Legislativa da Madeira.

Na sua homilia, o prelado sublinhou que Deus compadece-se do homem de que nos fala o Evangelho, um pobre homem que sofria de lepra, “como outrora, no Egipto, se tinha compadecido de todo o seu povo, e como se compadece de toda a humanidade, em todos os tempos — como se compadece de nós, que hoje aqui nos reunimos — e que, embora não sofrendo da lepra, sofremos (e como!) da doença do pecado”.

“Ao curar aquele leproso — como sucede, aliás, com os demais milagres realizados — Jesus, para além da cura do mal físico de que o doente padecia, ofereceu-lhe (e a quantos presenciaram o acontecido; e a nós que escutámos o relato evangélico), o anúncio, a proclamação da Boa Nova, destinada a modificar a vida de todos os seres humanos”, vincou D. Nuno Brás.

A cura da doença física, explicou o bispo diocesano, “era sinal da cura daquela outra doença, bem mais mortal, a que muito autores, por isso mesmo, chamaram ‘a lepra do pecado’, uma vez que os efeitos do pecado se assemelham em tantas características aos da lepra física”.

O pecado, prosseguiu, “desfigura-nos, afasta-nos dos outros a quem ofendemos; afasta-nos de todo o criado, que devemos proteger; afasta-nos até de nós mesmos, da nossa vocação, do que somos, do que queremos ser, do que realiza a nossa verdade. Em suma: o pecado afasta-nos da vida, para nos corromper interiormente. Necessitamos que Jesus nos cure!”

Por isso, “ao estender a mão ao leproso e ao tocar-lhe; ao dirigir-lhe a palavra e ao expressar a vontade divina da cura, Jesus oferece a vida nova àquele homem, reintegrando-o não apenas no tecido social, na comunidade humana, como também (e sobretudo) na comunidade dos crentes: “Vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou”. Aquele doente pode, de novo, juntamente com todos os seus irmãos, como comunidade, oferecer a Deus o sacrifício de louvor”.

E se é verdade que “hoje (pelo menos entre nós) poucos são os casos em que uma doença provoca repulsa e exclusão social. Mas recordemos os dias dramáticos, ainda não há muito vividos, quando a Pandemia do Covid-19 nos impediu o acompanhamento humano e espiritual dos doentes”, lembrou.

Citando o Papa e a sua mensagem para o Dia Mundial do Doente lembrou que “Francisco chama, de um modo particular, a nossa atenção para a necessidade de oferecer ao doente a nossa proximidade, impedindo que viva e sinta a solidão (que sempre marca o estado de doença) e a fragilidade que lhe está associada”.

Diz o Papa Francisco: “O primeiro cuidado de que necessitamos na doença é uma proximidade cheia de compaixão e de ternura. Por isso, cuidar do doente significa, antes de mais nada, cuidar das suas relações: com Deus, com os outros (familiares, amigos, profissionais de saúde), com a criação, consigo mesmo”. E continua o Papa: “É possível? Sim, é possível, e todos somos chamados a empenhar-nos para que tal aconteça”.

Com efeito, explanou D. Nuno Brás, “o projecto para a humanidade, como recorda o Santo Padre, não consiste na salvação de homens e mulheres tomados isoladamente, mas na salvação de seres humanos que vivem em povo, em comunhão, em solidariedade uns com os outros”.

“Diz ainda o Papa Francisco: “Recordemos esta verdade central da nossa vida: viemos ao mundo porque alguém nos acolheu, somos feitos para o amor, somos chamados à comunhão e à fraternidade. Esta dimensão do nosso ser sustém-nos, sobretudo no tempo da doença e da fragilidade, e é a primeira terapia que todos, juntos, devemos adotar para curar as doenças da sociedade em que vivemos”.

Dirigindo-se aos doentes, diz o Santo Padre citado pelo prelado: “A vós, que vos encontrais na doença, passageira ou crónica, quero dizer-vos: não tenhais vergonha do vosso desejo de proximidade e de ternura. Não o escondais e nunca penseis que sois um peso para os outros. A condição de doentes convida-nos a todos a abrandar os ritmos exasperados em que estamos imersos e a reentrar em nós mesmos”.

“Para todos nós, de um modo particular, para nós cristãos, o Papa termina dirigindo um apelo: «Nesta mudança de época que vivemos […], somos chamados a adoptar o olhar compassivo de Jesus. Cuidemos de quem sofre e está sozinho, porventura marginalizado e descartado. Com o amor mútuo que Cristo Senhor nos oferece na oração, especialmente na Eucaristia, tratemos das feridas da solidão e do isolamento. E deste modo cooperamos para contrastar a cultura do individualismo, da indiferença, do descarte, e fazer crescer a cultura da ternura e da compaixão», concluiu.

DIA MUNDIAL DO DOENTE

VI Domingo do Tempo Comum (B)

Paróquia da Nazaré, 11 de fevereiro de 2024

1. Com o avanço dos conhecimentos médicos, a doença da lepra é hoje facilmente curável. Mas, ainda não há muito tempo, tal cura era difícil senão impossível. Por isso — porque se tratava de uma doença altamente contagiosa e mortal — o leproso constituía uma ameaça para a sobrevivência das comunidades. A lepra não era, apenas, um doença dos pobres: também os reis eram contagiados — basta recordar que, entre os primeiros reis de Portugal, três deles (D. Sancho I, D. Afonso II e D. Sancho II) morreram leprosos.

Não espanta, pois, que à doença e a todas as suas consequências, viesse acrescido o isolamento social e, ainda por cima, o entendimento de que se tratava de um castigo divino (uma “impureza”) que, por isso, importava afastar para bem longe: como escutámos na Iª leitura, o leproso era obrigado a viver dum modo a-social (devia usar vestuário andrajoso, cabelo em desalinho, rosto coberto) e gritar: “Impuro, impuro!”, para impedir qualquer contacto social.

Por isso, o comportamento de Jesus para com o leproso que veio ao seu encontro e clamava: “Se quiseres, podes curar-me”, constitui, do ponto de vista humano, uma grave infracção às regras do viver social e do próprio comportamento para com Deus. No entanto, Jesus não hesita: àquele homem que, cheio de fé (quer dizer: entregando-se completamente nas mãos do Senhor) lhe pedia a cura, Jesus estendeu a mão, tocou-lhe e disse: “Quero, fica limpo” (Mc 1,41). 

Não se trata, caros irmãos, de um qualquer gosto adolescente de infringir normas sociais, consideradas injustas; nem de um qualquer gesto revolucionário de subversão da ordem instituída. 

Trata-se, antes e tão simplesmente, de salvar aquele homem que se confiava a Jesus; trata-se, desse modo, de mostrar a todos que, em Jesus, era o próprio Deus que ali se encontrava, cheio de misericórdia, no seio da história, uma vez mais redentor do seu povo. Hoje, Deus compadece-se daquele pobre homem que sofria de lepra, como outrora, no Egipto, se tinha compadecido de todo o seu povo, e como se compadece de toda a humanidade, em todos os tempos — como se compadece de nós, que hoje aqui nos reunimos — e que, embora não sofrendo da lepra, sofremos (e como!) da doença do pecado.

Ao curar aquele leproso — como sucede, aliás, com os demais milagres realizados — Jesus, para além da cura do mal físico de que o doente padecia, ofereceu-lhe (e a quantos presenciaram o acontecido; e a nós que escutámos o relato evangélico), o anúncio, a proclamação da Boa Nova, destinada a modificar a vida de todos os seres humanos.

A cura da doença física era sinal da cura daquela outra doença, bem mais mortal, a que muito autores, por isso mesmo, chamaram “a lepra do pecado”, uma vez que os efeitos do pecado se assemelham em tantas características aos da lepra física.

Com efeito, afastando-nos de Deus, cortando a nossa relação com Ele, o pecado desfigura-nos, afasta-nos dos outros a quem ofendemos; afasta-nos de todo o criado, que devemos proteger; afasta-nos até de nós mesmos, da nossa vocação, do que somos, do que queremos ser, do que realiza a nossa verdade. Em suma: o pecado afasta-nos da vida, para nos corromper interiormente. Necessitamos que Jesus nos cure!

Ao estender a mão ao leproso e ao tocar-lhe; ao dirigir-lhe a palavra e ao expressar a vontade divina da cura, Jesus oferece a vida nova àquele homem, reintegrando-o não apenas no tecido social, na comunidade humana, como também (e sobretudo) na comunidade dos crentes: “Vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou”. Aquele doente pode, de novo, juntamente com todos os seus irmãos, como comunidade, oferecer a Deus o sacrifício de louvor.

2. É verdade que hoje (pelo menos entre nós) poucos são os casos em que uma doença provoca repulsa e exclusão social. Mas recordemos os dias dramáticos, ainda não há muito vividos, quando a Pandemia do Covid-19 nos impediu o acompanhamento humano e espiritual dos doentes.

Na sua mensagem para o Dia Mundial do Doente que estamos a celebrar, o Papa Francisco chama, de um modo particular, a nossa atenção para a necessidade de oferecer ao doente a nossa proximidade, impedindo que viva e sinta a solidão (que sempre marca o estado de doença) e a fragilidade que lhe está associada. 

Diz o Papa Francisco: “O primeiro cuidado de que necessitamos na doença é uma proximidade cheia de compaixão e de ternura. Por isso, cuidar do doente significa, antes de mais nada, cuidar das suas relações: com Deus, com os outros (familiares, amigos, profissionais de saúde), com a criação, consigo mesmo”. E continua o Papa: “É possível? Sim, é possível, e todos somos chamados a empenhar-nos para que tal aconteça”.

Com efeito, o projecto para a humanidade, como recorda o Santo Padre, não consiste na salvação de homens e mulheres tomados isoladamente, mas na salvação de seres humanos que vivem em povo, em comunhão, em solidariedade uns com os outros.

Diz ainda o Papa Francisco: “Recordemos esta verdade central da nossa vida: viemos ao mundo porque alguém nos acolheu, somos feitos para o amor, somos chamados à comunhão e à fraternidade. Esta dimensão do nosso ser sustém-nos, sobretudo no tempo da doença e da fragilidade, e é a primeira terapia que todos, juntos, devemos adotar para curar as doenças da sociedade em que vivemos”.

Dirigindo-se aos doentes, diz o Santo Padre: “A vós, que vos encontrais na doença, passageira ou crónica, quero dizer-vos: não tenhais vergonha do vosso desejo de proximidade e de ternura. Não o escondais e nunca penseis que sois um peso para os outros. A condição de doentes convida-nos a todos a abrandar os ritmos exasperados em que estamos imersos e a reentrar em nós mesmos”.

Para todos nós, de um modo particular, para nós cristãos, o Papa termina dirigindo um apelo: “Nesta mudança de época que vivemos […], somos chamados a adoptar o olhar compassivo de Jesus. Cuidemos de quem sofre e está sozinho, porventura marginalizado e descartado. Com o amor mútuo que Cristo Senhor nos oferece na oração, especialmente na Eucaristia, tratemos das feridas da solidão e do isolamento. E deste modo cooperamos para contrastar a cultura do individualismo, da indiferença, do descarte, e fazer crescer a cultura da ternura e da compaixão”.