Em Memória agradecida de Consagrados Amigos

Padre Aires Gameiro | Foto: Duarte Gomes

Estamos na Semana de orações pelos Consagrados e em vésperas da festa da Apresentação de Jesus, Dia dos Consagrados, pelo batismo e dos que prometem solenemente seguir a Cristo na vida consagrada. Em dias recentes, tive algumas perdas de presença físicas por morte, os quais agora são presenças vivas pela fé na minha vida, unidos em comunhão de santos. Dois deles eram os padres Pedro Manuel Jorge Ferreira e Bernardino Correia de Andrade; e outro  o Irmão Manuel Joaquim Valente (1930-2024 que foi superior e diretor da Casa de Saúde S. João de Deus, onde sou capelão. O Pe. Pedro era da minha terra; faleceu de repente no dia 15 em Ourém, aos 57 anos, onde era pároco na igreja do Castelo. Com ele agradeci os seus 25 anos de sacerdote em 2017. O padre Bernardino faleceu dia 18 no Hospital Nélio Mendonça, Funchal, aos 86 anos, o Irmão Valente faleceu a 19, em Angra do Heroísmo, Açores, aos 93. Da minha paróquia há uns anos, havia oito sacerdotes; agora somos quatro.  

O padre Bernardino estava já na diocese de Oakland, baía de S. Francisco, Califórnia, na pastoral dos emigrantes, quando me fez chegar um convite para colaborar com ele nas suas atividades pastorais em Newark dessa diocese durante três semanas, de 19.09 a 8.10.1984. Foi uma surpresa que me fez vibrar de contentamento. Pediu a minha colaboração como Irmão de S. João de Deus, sacerdote e psicólogo, para ajudar os emigrantes portugueses de que ele se ocupava em várias comunidades. Penso que a sua experiência de nove anos em Quelimane onde foi ordenado em 1965 o terá posto em contato com os Irmãos da leprosaria de Alto Molocuè onde o superior, Irmão António Matias, com quem troquei impressões há dias, se lembra de uma visita dele a essa leprosaria com o Bispo e onde era capelão o Irmão Pe. José Maria Antunes, grande esmoleiro em favor dos leprosos e suas famílias. Na Califórnia, o Pe. Bernardino era um apaixonado por pobres e doentes e insistia ali comigo para ajudar o mais que pudesse aos que passavam por problemas. Marcava encontros para eu dar ajuda psicológica aos emigrantes nas suas paróquias e à volta, Santa Clara, San José, Tracy, Saint Edward, etc. E para colaborar com ele nas celebrações, confissões e outras reuniões pastorais. Sempre bem-disposto e a dispor bem. Convidava para umas voltas de carro com amigos até Turlock, Instituto de Palo Alto, ao estado da Nevada, a Salinas, para me encontrar com Irmãos de S. João de Deus americanos, e para um dia de barco de um português pela Baía.

 Já lhe tinha entrado no coração a sua paixão para criar a associação “People help People” que mais tarde trouxe para a Madeira e Capela de Penha de França. Quando me convidava para o substituir na celebração das missas em inglês, insistia sempre para que sensibilizasse os participantes para a coleta à porta da Capela para socorrer tantos pobres que a associação ajudava. E pedia-me que escrevesse pequenos artigos para o Newsletter de Penha de França insistindo no tema dos pobres. Assim fiz com muito gosto em que nalguns lembrava outro Pai dos pobres, S. João de Deus (1495-1550), para quem, o ajudar os pobres e doentes era fazer bem a si mesmo. Certamente o Pe. Bernardino vai interceder por aqueles que continuam «Gente ajuda Gente» e os pobres que são socorridos. Não se vai esquecer de todos nós, nem de todos os consagrados no dia 2 de fevereiro. Os consagrados seguem Cristo junto dos pobres.

E, por fim, desejo deixar uma lembrança de um daqueles sacerdotes, Pe. Manuel Nogueira (1927-2003) da minha paróquia e meu companheiro desde a escola primária à ordenação e, de longe, nos seus 30 anos de missionário e enfermeiro a assistir leprosos em Alto Molocuè, doentes mentais e pobres em Nampula para os quais lhe consegui fazer chegar ofertas da Califórnia e Toronto no tempo que estive com o Pe. Bernardino e outros sacerdotes de paróquias do Canadá. Vai ser aberto o seu processo canónico para beatificação pelo Patriarca D. Rui Valério no dia 5 de abril de 2024, no Telhal, Sintra, e, surpresa, o seu irmão Agostinho que assistira à exumação do corpo para a Igreja do Telhal e tinha a expetativa de estar lá no dia cinco, sofre paragem cardíaca repentina no hospital de Leiria no dia 26 e é chamado pelo Pai celeste. Consagração é entrega da própria vida a Deus e aos irmãos. É uma graça, enquanto se ora pelos vivos, fazer a memória espiritual dos outros consagrados e agradecer o dom da sua vida. Como Santo Agostinho escrevia à Senhora Sápida para a consolar nas lágrimas pela morte do seu irmão diácono Timóteo: «não morre aquele (amor)-caridade com que Timóteo amou e continua a amar Sápida. Essa caridade fica depositada no seu tesouro e escondida com Cristo em Deus» (Carta  263,  2).