Padre Bernardino Andrade

Foto: Chapel of Penha de França - Roman Catholic Church with English Service in Madeira.

Era fácil sentir simpatia pelo Pe. Bernardino Andrade. Cada encontro era marcado pela partilha de experiências de vida, relatados com uma capacidade comunicativa invulgar. Dedicava uma atenção calorosa à pessoa que tinha diante de si. À volta de uma chávena de café brotavam, como cerejas, histórias de África, onde viveu 9 anos, e episódios dos Estados Unidos da América, onde dedicou a maior parte do seu ministério sacerdotal, 42 anos. 

Falava sobre a indiferença que nos torna incapazes de olhar para os pobres. Um dia, numa tarde quente de agosto, viu um homem deitado numa rua movimentada do Funchal, coberto com um pesado casaco. As pessoas passavam e nem olhavam, “parecia mais um pedaço de lixo”. Ninguém afirmou, “esse homem é meu irmão, o que posso fazer por ele?”. Ao abordar este episódio na coluna “Do meu coração para o seu coração”, do boletim semanal da missa em inglês da capela da Penha de França, escreveu “Aprendi há muito tempo que o oposto do amor não é o ódio. O oposto do amor é a indiferença. O Papa Francisco chama isso de ‘Terrorismo da Indiferença’”. 

Entrou no Seminário Menor do Funchal aos 12 anos, depois da pergunta da sua irmã Agostinha: “Bernardino, não gostarias de ser padre?”. A 12 de junho de 1965 foi ordenado padre na Diocese de Quelimane, Moçambique. Celebrou a Missa Nova na Ponta do Sol, no dia 4 de julho do mesmo ano. “O sacerdócio é um mistério que Deus me tem revelado lentamente através do meu ministério, especialmente através dos sacramentos e através do meu relacionamento com os mais pobres dos pobres. Não sei se tenho sido um bom padre, mas o que sei é que tenho sido um padre muito feliz”.

Numa entrevista ao jornal Areópago (2004), o Pe. Bernardino afirmou: “É necessário esta relação de pessoa a pessoa e com a opção fundamental pelos mais pobres. Isto será o nosso trabalho. A passagem de Lucas 4, 16: ‘Eu vim para trazer uma boa notícia aos pobres’, isto não é opcional”. 

Sentirei falta das conversas com o Pe. Bernardino e da sua amizade. Sentirei falta das suas intervenções nas reuniões mensais dos padres do arciprestado do Funchal. Quem será agora a voz dos pobres? 

No dia da sua morte, 18 de janeiro, pensei nas palavras do Evangelho de S. Mateus: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo” (Mt 25, 34).

Sou grato a Deus por nos ter dado um sacerdote à imagem de Cristo, Bom Pastor.