Vinde e Vede!

D.R.

1 Sm 3,3b-10.19; Sl 40; 1 Cor 6,13c-15a.17-20; Jo 1,35-42

1. O Evangelho deste Domingo II do Tempo Comum (João 1,35-42) faz-nos ver no primeiro plano João e Jesus. Neste Evangelho, ainda que seja dito que João também batize, não aparece com o seu nome habitual de João Batista (Iôánês ho Baptistês), como se lê nos Evangelhos sinóticos. No IV Evangelho, o seu papel fundamental é o de «testemunha». Então, João permanece lá «estacado» (eistêkei), em Bethabara [= «Casa de passagem»], onde se encontra desde João 1,28, imóvel e sereno e atento. O lugar em que permanece parado, define-o e define-nos: é um umbral ou limiar. Todo o umbral ou limiar é um lugar de passagem. Estamos de passagem. João ocupa, portanto, o seu lugar estreito e aberto entre o des-lugar e a casa, o deserto e a Terra Prometida, entre o Antigo e o Novo Testamento. João coloca-se estrategicamente do outro lado do Jordão, onde um dia o povo do Êxodo parou também, para preparar a entrada na Terra Prometida, atravessando o Jordão (Josué 3). É desse lugar de passagem, mas em que está parado como um guarda ou sentinela vigilante, que João vê bem (emblépô) Jesus a passar (peripatoûnti). Perfil exato: Jesus a passar: Ele é o caminho (João 14,6); João não é o caminho: está parado. E logo João aponta Jesus como o Cordeiro de Deus. Aponta-o e apresenta-o aos seus discípulos e a nós, e põe-nos em movimento atrás d’Ele. Riquíssima apresentação de Jesus. Na verdade, Cordeiro diz-se na língua aramaica, língua comum então falada, talya’. Mas talya’ significa, não só «cordeiro», mas também «servo», «filho» e «pão». Aí está traçada, com uma pincelada de mestre, a identidade de Jesus: Cordeiro, Servo, Filho e Pão de Deus.

2. Seja qual for o perfil adotado, deparamo-nos sempre com a verdadeira identidade de Jesus, na sua verdade e simplicidade. O «Cordeiro» é manso e dócil, e Jesus não vem ter connosco com um fulgor que cega ou um poder que esmaga. Vem como quem ama e serve com radical humildade e mansidão. Entenda-se bem ainda que este Cordeiro é de Deus, pertence a Deus, é Deus o seu pastor (cf. Salmo 22).

3. E aí vamos nós a segui-l’O, agora, no Caminho. Ele é o caminho. Sem caminho, temos de ficar parados. Jesus pergunta: «O que procurais?» (João 1,38). Jesus não faz uma afirmação, mas uma pergunta. Não começa uma aula, mas um colóquio vital. Reconhece neles e em nós homens à procura, que ainda não sabem dizer o que procuram, mas desejam saborear o pão que só Jesus pode dar na sua Casa. «Onde moras?», é, portanto, a questão que os move e nos move (João 1,38). E a resposta-convite de Jesus: «Vinde e vede» (João 1,39) aviva e sacia a nossa sede. Uma vez mais, Jesus não nos entrega um livro ou um guião com doutrinas e preceitos para nós estudarmos e sabermos, mas chama-nos a viver uma relação pessoal de comunhão com Ele. Assim, também eles, e nós com eles, não podemos manter-nos a uma distância de segurança, não comprometidos, como meros turistas ou simples espectadores. A indicação da hora [quatro horas da tarde] pelo narrador pode querer dizer-nos que, para aqueles dois que o seguiram, e para nós também, aquela hora foi e será sempre uma hora decisiva, de tal modo que nos ficou para sempre gravada na memória. Fomos e vimos quem era (ideîn), e morámos com Ele um dia (João 1,39), simbolismo para indicar de agora em diante, sempre. Percebemos logo que era aquela a nossa Casa. Por isso, André, um de nós, o Prôtóklêtos Andréas, o «primeiro chamado», como o qualifica ainda hoje a Tradição Oriental, foi logo procurar, encontrar (o uso do verbo grego eurískô supõe um encontro depois de uma busca; não um encontro por acaso) e chamar, «primeiro chamante», o seu irmão Simão, e trouxe-o de casa para a Casa, para Jesus (João 1,40-42). O resto é com Jesus. «Olhando-o por dentro (emblépô autô), Jesus disse: “Tu és Simão, o filho de João; serás chamado Kêphâs, que se traduz Pedro”» (João 1,42). Depois é Filipe que é chamado por Jesus, sem introdução ou explicação (João 1,43). E Filipe conduz a Jesus Natanael, também sem qualquer explicação ou demonstração convincente. O importante não são as explicações que possamos dar, as dúvidas que possamos tirar. Jesus não nos deu apontamentos nem sumários nem resumos. Importante mesmo é o encontro com Jesus.

4. É importante precisar que a explicação e a demonstração são frágeis face à experiência que implica a vida. Na verdade, a eficácia do testemunho acontece, não quando a testemunha incita o destinatário a inclinar-se ou a render-se perante as provas, mas quando o incita a fazer, por sua vez, a experiência, levando-o a implicar a própria vida. A experiência da testemunha é sempre mais forte e mais radical do que as provas que eventualmente queira dar. É por isso que Filipe fala de Jesus a Natanael, mas face às objeções deste, não lhe dissipa as dúvidas (João 1,45-46), mas diz-lhe simplesmente: «Vem e vê!» (João 1,46).

5. Mas voltemos ao chamamento decisivo, aquele que muda o nome, isto é, segundo a mentalidade bíblica, muda ou transforma a pessoa e a sua vida. Diz Jesus: «Tu és Simão, o filho de João; serás chamado Kêphâs, que se traduz Pedro» (João 1,42). O termo hebraico normal para dizer «rocha», «rochedo», «pedra firme» é tsûr ou sela‘, que designa mesmo Deus no AT por 33 vezes. Mas o hebraico também conhece o termo keph, aramaico kêpha’, que designa a rocha, não tanto na sua solidez, mas a rocha escavada, oca, espécie de gruta que serve de lugar de refúgio e acolhimento, onde os pássaros fazem os seus ninhos, os animais guardam as suas crias e os homens se refugiam em caso de guerra: não é sólido, mas dá solidez e proteção a uma vida nova. Este segundo veio de termos, que traduzem a ideia de guardar, proteger, abraçar, envolver, alarga-se num vasto campo onomatopaico: kaph, palma da mão; keph, rochedo esburacado (grutas); kêpha’ (aramaico), rochedo esburacado; kêphãs (grego), rochedo esburacado e acolhedor, nome dado por Jesus a Pedro em João 1,42, única vez nos Evangelhos; kipah, folha de palmeira, que serve para proteger do sol, que diz também a cobertura que os judeus ortodoxos usam na cabeça, para indicar a proteção de Deus; kaphar, cobrir, perdoar; kapporet, cobertura, perdão, que traduz o Propiciatório colocado sobre a Arca da Aliança, verdadeiro trono de Deus, de onde Deus, como o termo sugere, nos é propício, benfazejo, favorável. Sendo de teor onomatopaico, este som existe na composição de vocábulos em todas as línguas.

6. Nasce aqui, portanto, um Simão Pedro novo, casa aberta e acolhedora, atento, próximo, cuidadoso e carinhoso, frágil, com a missão pastoral de alimentar e cuidar de todos os filhos de Deus. Mas, entenda-se sempre bem, a casa é Deus, e são de Deus os filhos que nela são gerados, acolhidos, alimentados.

7. O contraponto musical vem hoje do Primeiro Livro de Samuel 3,3-19, com Deus a chamar uma e outra vez o jovem Samuel, que «ainda não conhecia o Senhor» (1 Samuel 3,7), e Eli, sacerdote do santuário de Silo, a fazer bem o papel de Guia Espiritual. Depois de discernir a Voz de Deus que chamava Samuel, é para Deus que Eli remete Samuel, com a indicação precisa: «Fala, Senhor, que o teu servo escuta» (1 Samuel 3,9). E o texto termina com o belo resumo do narrador: «E Samuel crescia, o Senhor estava com ele, e nenhuma das suas palavras deixou cair por terra» (1 Samuel 3,19). Extraordinário programa de vida para a Igreja inteira e cada cristão em particular.

8. E São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios 6,13-20, traça em contraluz a radiografia da grande cidade de Corinto, capital da província romana da Acaia, com muitas divisões, distrações, idolatrias e imoralidades, coisas em tudo semelhantes ao que se vê hoje nas grandes metrópoles modernas. E aponta aos cristãos de Corinto e de hoje o caminho do Evangelho, dizendo que «o corpo» (tò sôma) não é lixo para dedicar a todo o tipo de imoralidades, como era usual em Corinto. Na verdade, o pensamento grego via o homem em duas partes bem distintas: uma espiritual, a alma (hê psychê), imortal por natureza e por direito, e outra material, o corpo (tò sôma), mortal por natureza e sede de toda a miséria humana.  Ao contrário, o pensamento bíblico não vê o homem como um composto de duas partes, uma má, «o corpo», e outra boa, «a alma». O mundo bíblico vê o homem como um ser unitário e, no seu todo, bom, como resulta da obra criadora de Deus (Génesis 1). E, neste sentido, quando fala de «corpo», não é para dizer uma parte do homem, mas o homem todo. E o mesmo sucede quando emprega o termo «alma». Os dois termos dizem, na Bíblia, a mesma realidade humana no seu todo, e são intercambiáveis. Por isso, S. Paulo pode dizer ao mundo de Corinto que «o nosso corpo é Templo do Espírito Santo» (1 Coríntios 6,19), e que «o corpo é para o Senhor, e o Senhor é para o corpo» (1 Coríntios 6,13). Estes dizeres, de colorido bíblico, são incompreensíveis e considerados como loucura para o pensamento grego.

9. A toada musical que hoje embala a nossa vida está em consonância com a docilidade e o rumo novo, para o Senhor, que devemos empreender. Na verdade, canta assim o Salmo Responsorial de hoje: «Sacrifício e oblação não Te agradaram, mas escavaste-me os ouvidos» (Salmo 40,7), expressão forte que a Carta aos Hebreus cita atualizando assim: «Sacrifício e oblação Tu não quiseste, mas formaste-me um corpo» (Hebreus 10,5). Sim, dá para entender, que o corpo é para oferecer ao bom Deus, num culto novo de todos os dias (cf. Romanos 12,1). Mas, para que a melodia chegue ao coração, também é verdade, como diz o Salmo e nos lembra poeticamente Nelly Sachs, talvez seja necessário escavar bem os ouvidos. Nelly Sachs (1891-1970), de origem judaica, nascida em Berlim, refugiada em Estocolmo a partir de 1940, recebeu o prémio Nobel de literatura em 1966.