Dar graças em ano de guerras com esperança

Padre Aires Gameiro | Foto: Duarte Gomes

O ano de uma dúzia de guerras, massacres e mais de 100 mil mortos ainda será ano de ação de graças? De oração pela paz é; e apesar de tudo também de ação de graças por muitas graças recebidas, a agradecer ao Criador e ao próximo. Em pergunta relâmpago perguntam-me pelo “balanço que faço deste ano tão cheio de graças?”. É verdade, cheio de graças! Gostamos que alguém, mesmo um só que seja, nos leia e nos diga que lhe fez bem o nosso bem. S. João de Deus pedia: “fazei o bem a vós mesmos” (fazendo bem aos outros). Agradeço aos leitores de meus escritos. Tenho uma colega da pena que me repete que temos que agradecer e orar pelos nossos leitores. Orar entra no balanço interior do meu fim de ano. Que bom se lhes faz bem? Obrigado à leitora benévola por me animar a evangelizar e partilhar ao longe a minha escrita, a muitos leitores do Porto, Braga, Proença, Macau, Brasil, sei lá onde mais? Fico muito contente quando me escrevem a dizer que apreciaram o “sentido do texto”, os “textos fantásticos”, o “artigo inspirado”, a “felicidade partilhada”, e ainda que o enviaram “para todos os meus contatos”, etc. 

Recebi de outra leitora atenciosa a questão: “sente-se satisfeito, realizado, feliz pelo que viveu neste ano de 2023?” Claro, sinto-me muito grato, como o registei no meu livrinho “75 Diamantes”, mas deveria agradecer mais; sinto-me satisfeito, mas espero não seja só pelo gosto de escrever, mas ainda pela missão de partilhar o sentido de vida e estimular os leitores a fazer o bem. Sinto-me realizado e feliz, mas sempre imperfeito. Que não seja só pela pequena vaidade e pretensão de mérito, mas por ir renascendo pelo Espírito. Vale-me a desculpa dos os leitores. Vão lendo, e dizem que lhes fez bem e eu devo agradecer e orar por eles. A sua leitura é um presente que eles me oferecem e a quem digo: obrigado. O apreço deles leva-me a continuar a escrever e testemunhar sentido de vida para além do efémero e mundano em que vivemos.

 O balanço deste ano referia-se a três grandes datas celebradas: bodas de diamante de consagração religiosa, 63 de ordenação e 94 de vida. Sobre o meu percurso de vida a leitora é generosa: «membro da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, psicólogo, pastoralista, escritor, conferencista, capelão, ensaísta, conselheiro espiritual, coordenador/ organizador de projetos de reabilitação psicossocial, viajante incansável pelo mundo, autor prolífico de artigos que continua a publicar em diversos órgãos de comunicação…». Os pontinhos são dela. Como não hei de agradecer? E pergunta qual “o segredo para tanto dinamismo e criatividade?” Respondo: então, e eu sei? Mérito, não é só certamente. E um santo seria melhor. São graças. Mas onde chega o dom, o esforço e o gosto? Não sei avaliar. Tudo conta. Mais umas pitadas de orgulho, inspiração e ação de Deus em mim. São pequenas maravilhas unidas pelo fiozinho do sim. Quem dera que este sim fosse semelhante ao da Mãe do Menino Jesus do Natal! Como é que eu poderei discernir? Nem a psicologia toda chega; ajuda a dizer o dizível, e menos, o transcendente divino e indizível. Será o calor de uma luz espiritual que, por graça, não apagamos, e nos cega a luzes mundanas e tapa a boca? S. Paulo ouviu palavras indizíveis no Paraíso e não sabia se foi no corpo ou fora do corpo (cf.2 Cor.12. 3).

Como encara os próximos tempos?” Insiste a mesma leitora. “No dia 1 de junho passado, dizia que era a viver  “no futuro da esperança”, no poema: “Saudade alegre na esperança?” Sim, na esperança, mas tenho que distinguir de que esperança se trata. No poema citado outros versos dizem: «Se a morte levou familiares e amigos//Não desesperar pela separação (…) No espírito e alma, no além, fica união,//Amor-união divina que vence a solidão». E esta perda aconteceu-me nas vésperas do Natal. Contudo, nos próximos tempos: porque não publicar mais outros três livros, como neste ano, dos já quase completos? Duas histórias de Casas de Saúde a que dei algo de mim quando diretor, uma delas, agora, em centenário. Um livro ainda sobre envelhecimento ativo, outro de poemas. E se a esperança terrena efémera não se cumprir? Não têm importância; cumpre-se a eterna em que todo o bem se aperfeiçoa e completa; “envelhecer é morrer a enternecer//mas sem saber como vai ser” (a eternizar-se), como diz outro poema. Quem o poderá dizer// Senão Aquele que depois da morte//Continua vivo e a ser // E a Vida a dar e proclamar!”. Agora vemos como num espelho, imperfeitamente, depois conhecemos como Deus nos conhece (cf.1 Cor. 13,12).

 “Que desejos ou votos deposita no calendário 2024?” Boa questão. Continuarei a ser um “garoto sonhador” de “mil corridas” a “fazer bem, como Alguém ordenou” até passar “ao Sonho do real gozoso que não passa”, diz outro poema que publiquei em livro da Editora Chiado. O que de mais importante desejo depositar nos calendários do futuro em expressão de S. João de Deus (in Cartas), é confiar só em Jesus; e continuar a ser esse “garoto sonhador” que até agora “com doentes, pobres e frágeis se ocupou” e “ouvir: vem, bendito! Na hora de passar ao Reino infinito” onde os Meninos inocentes de Belém massacrados entraram, antes de Jesus, com o seu corpo humano de glória, aí regressar.