Missa do Galo: “Demos glória a Deus imploremos para todos o dom da paz” – D. Nuno Brás

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal presidiu ao fim da noite de domingo, dia 24 de dezembro, à Missa do Galo, na Sé do Funchal. Uma Eucaristia em que D. Nuno Brás exortou os cristãos de toda a diocese a dar glória a Deus e a implorar para todos o dom da Paz.

No início da celebração, D. Nuno Brás convidou a assembleia a “exultar de alegria, porque o Menino Nasceu para nós, porque hoje o salvador nasce para nós” e  “deixemos que no nosso coração, tantas vezes duro, se converta, acolha esta feliz notícia de que o Salvador nasceu e que com Ele, toda a terra exulta e os anjos cantam de alegria”.

Na homilia, centrada na oração, o prelado explicou que tudo em volta do nacimento do Menino foi isso mesmo: exultação e sobretudo oração. Nossa Senhora, São José, os anjos e os pastores rezavam ao Menino. Estes últimos, “pobres homens que vigiavam e guardavam o rebanho, e que ficaram, diz S. Lucas, envolvidos pela glória e pela luz divina (Lc 2,9)”.

“A oração daqueles homens começa por ser a oração de quem é surpreendido por Deus para, depois, se deixarem envolver pela glória divina. A surpresa da luz dá lugar à escuta da mensagem, e esta fá-los partir ao encontro de Jesus: “Os pastores disseram entre si: ‘Vamos a Belém a ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer” (Lc 2,15), vincou o prelado, para logo acrescentar que “a escuta transforma-se na oração do coração convertido, transfigurado; na oração do que põe os pés ao caminho; na oração do que se deixa atrair pelo Deus feito homem e parte, apressado, para ver, para contemplar a maravilha do sucedido”.

Os próprios pastores, continuou D. Nuno Brás, “chegando ao Presépio, partilham com Maria e José o significado do nascimento de Jesus, e conduzem todos à oração: “Contaram o que lhes fora dito a respeito do Menino, e todos os que os ouviam ficaram maravilhados com as palavras dos pastores” (Lc 2,18). Quase parecem os discípulos de Emaús que, regressando a Jerusalém, “contaram os acontecimentos do caminho e como o haviam reconhecido na fracção do pão” (Lc 24,35)”.

Depois, “o próprio S. Lucas nos diz ainda que os pastores «regressaram, glorificando e louvando a Deus, por tudo o que tinham visto e ouvido» (Lc 2,20). No contacto com o Presépio, aqueles pobres homens, de surpresos e incrédulos, viram-se transformados em verdadeiros anjos, anunciadores da Boa Nova, profetas do Deus Menino que tinham encontrado no Presépio”.

Por isso, constatou o bispo diocesano, “não nos espantemos que a sua oração se tenha transformado em festa, e se tenha tornado contagiante — e que, ainda hoje, a sua oração ressoe nos nossos Presépios, nos nossos cânticos, na Festa”. 

“A oração de Maria e José; a oração dos Anjos; a oração dos pastores: a sua oração espalhou-se pelo mundo inteiro e por todos os tempos e por todos os cristãos.”

Ainda hoje, 2023 anos depois, “ela invade aldeias e cidades; chega às famílias e ao coração de todos. Chega até nós”, frisou D. Nuno Brás para logo pedir que a “façamos nossa, cantando o cântico daquela noite fria, a primeira noite de Natal, quando o Evangelho, a visão de Deus em carne humana, a todos começou a oferecer a esperança que desabrocha em caridade. Demos, também nós, glória a Deus, enquanto para a terra imploramos para todos o dom da paz”.

De referir que esta Eucaristia foi concelebrada por vários sacerdotes e que os dois diáconos, Tiago e Diogo, recentemente ordenados por D. Nuno Brás também ocuparam os seus lugares nesta celebração, que contou ainda com a presença dos seminaristas da diocese. A mesma foi animada liturgicamente pelo coro Solidéu e amigos.

Leia na íntegra a homilia do Bispo diocesano:

SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR

Missa da Noite

Sé, 24 dezembro 2023

“Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens”

Em Belém de Judá, naquela noite de Natal, tudo era oração, louvor de Deus. Mesmo que não o soubessem, estavam a viver o dia “d”, aquele momento em que a contagem do tempo deixava o “antes” para se tornar em “depois”. A esmagadora maioria ignorava-o. E, no entanto, no segredo da noite, cumpriam-se as profecias; realizava-se a esperança; a velha promessa de Isaías assumia, por fim, um rosto humano: “Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado”.

Deste modo, tudo acabou por adquirir um toque de louvor a Deus, de oração. Porque quando Deus entra na história dos homens, tudo se renova e ganha um definitivo sabor divino. S. Paulo dizia-o dum modo magistral: “Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos” (Tt 2,11). Olhemos, também nós, para alguns dos protagonistas do Presépio, e procuremos surpreender a sua oração.

1. Em primeiro lugar, a oração de Maria e de José. Deus faz-se homem e requer a sua colaboração. Nascidos no meio do povo da Promessa, também eles esperavam o Messias. Mas jamais teriam esperado ou desejado que o cumprimento da Promessa os envolvesse dum modo tão directo, tão imediato. E, no entanto, ali estava, diante dos seus olhos, Ele, a Promessa concretizada e cumprida: o Filho de Deus, o Emanuel, o Deus connosco!

Certamente, pensavam que era demasiado peso para os seus ombros frágeis, humanos. Apenas a fé e a sua força (Aquele Menino diria tempos depois: “Se tivésseis fé semelhante a um grão de mostarda, diríeis a esta montanha: ‘move-te e vai para o mar’, e ela obedecer-vos-ia”) — apenas a fé, com a sua força, os alimentava neste momento. 

Como seria a sua oração, o seu estar diante de Deus? Surpresa… espanto… consciência da sua pequenez e fragilidade… súplica para poderem desempenhar bem a missão que Deus lhes confiava…  louvor a Deus que fez neles grandes coisas… 

Ali, naquele momento único, Maria terá, certamente, resumido toda a sua anterior vida de oração: da interrogação que dirigiu ao Anjo no momento da Anunciação (Lc 1,34: “Como é que vai ser isso, se eu não conheço homem?”); à total disponibilidade para cumprir a vontade divina: “Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). 

E ali, pelo seu coração de Mãe, terá, uma vez mais, passado o louvor, a exultação de quando, dias atrás, tinha encontrado Isabel: “A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu salvador, porque o Todo-Poderoso fez em mim grandes coisas”. 

S. Lucas irá mesmo referir-se à oração da Virgem: “Maria conservava cuidadosamente todos estes acontecimentos e meditava-os em seu coração” (Lc 2,18-19). Maria rezava os acontecimentos!

José é o homem contemplativo, que olha, embevecido, para o Menino. É o homem capaz de se deixar moldar (interiormente e no seu agir quotidiano) por quanto o Senhor lhe diz e pede: “José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu em casa sua mulher” (Mt 1,24) — diz S. Mateus. A sua oração é pois feita de escuta, acolhimento e de acção que é consequência do encontro com Deus: “Levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe e, de noite, partiu para o Egipto” (Mt 2,14).

A tradição oriental diz-nos que ele era, também, aquele que se interroga: como era possível todas estas maravilhas na vida dum pobre carpinteiro? Como seria ele capaz de se desempenhar da missão de ser pai para o Salvador?

2. Também os Anjos rezam. S. Lucas diz-nos que eles são portadores da glória de Deus e da sua luz (Lc 2,9). A sua oração tranquiliza o temor dos pastores: “Não temais” (2,10), mas logo se transforma em feliz anúncio do acontecido: “Nasceu o Salvador”.

S. Lucas refere-se à “multidão do exército celeste”, como que a dizer que todos os anjos de Deus largaram o que estavam a fazer, para concentrarem todos o seu louvor naquele lugar e naquele momento em que Deus se fez homem. Cantam como que o resumo da oração cristã: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens que Ele ama” (Lc 2,14).

3. Encontramos ainda a oração dos pastores — pobres homens que vigiavam e guardavam o rebanho, e que ficaram, diz S. Lucas, envolvidos pela glória e pela luz divina (Lc 2,9).

A oração daqueles homens começa por ser a oração de quem é surpreendido por Deus para, depois, se deixarem envolver pela glória divina. A surpresa da luz dá lugar à escuta da mensagem, e esta fá-los partir ao encontro de Jesus: “Os pastores disseram entre si: ‘Vamos a Belém a ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer” (Lc 2,15). A escuta transforma-se na oração do coração convertido, transfigurado; na oração do que põe os pés ao caminho; na oração do que se deixa atrair pelo Deus feito homem e parte, apressado, para ver, para contemplar a maravilha do sucedido.

Os próprios pastores, chegando ao Presépio, partilham com Maria e José o significado do nascimento de Jesus, e conduzem todos à oração: “Contaram o que lhes fora dito a respeito do Menino, e todos os que os ouviam ficaram maravilhados com as palavras dos pastores” (Lc 2,18). Quase parecem os discípulos de Emaús que, regressando a Jerusalém, “contaram os acontecimentos do caminho e como o haviam reconhecido na fracção do pão” (Lc 24,35)

Depois, o próprio S. Lucas nos diz ainda que os pastores “regressaram, glorificando e louvando a Deus, por tudo o que tinham visto e ouvido” (Lc 2,20). No contacto com o Presépio, aqueles pobres homens, de surpresos e incrédulos, viram-se transformados em verdadeiros anjos, anunciadores da Boa Nova, profetas do Deus Menino que tinham encontrado no Presépio.

Por isso, não nos espantemos que a sua oração se tenha transformado em festa, e se tenha tornado contagiante — e que, ainda hoje, a sua oração ressoe nos nossos Presépios, nos nossos cânticos, na Festa. 

A oração de Maria e José; a oração dos Anjos; a oração dos pastores: a sua oração espalhou-se pelo mundo inteiro e por todos os tempos cristãos. Ainda hoje, 2023 anos depois, ela invade aldeias e cidades; chega às famílias e ao coração de todos. Chega até nós. 

Façamo-la nossa, cantando o cântico daquela noite fria, a primeira noite de Natal, quando o Evangelho, a visão de Deus em carne humana, a todos começou a oferecer a esperança que desabrocha em caridade. Demos, também nós, glória a Deus, enquanto para a terra imploramos para todos o dom da paz.