Conto: Falta o burro no presépio!

D.R.

Aproximavam- se as férias de Natal. A pequena escola na vila de Pinhal Velho estava em grande excitação! Preparava- se a festa do último dia de aulas, aberta aos pais e famílias dos alunos…Cada turma da Primária tinha um encargo: o 1º ano, cantava canções alusivas em inglês e português; o 2º ano fazia uma árvore de Natal grande e ‘humana’, pondo todos vestidos de verde e castanho, um grupo sentado no chão, atrás ficava outro grupo de alunos sentado em cadeiras, mais atrás ainda, alguns alunos de pé; o 3º ano representava um auto de Natal e o 4º ano teria a seu cargo a apresentação da festa e entretanto fazia cenários para o auditório, decorações para os corredores e para a entrada da escola.

Na turma da Zita e do Valter, o 3º ano, a jovem professora que já os acompanhava desde o primeiro ano, queria que todos os alunos entrassem, com jeito, ou sem ele, todos tinham que representar, alguns falando, outros atuando apenas como simples figurantes…contudo, quando a professora pedira para cada um trazer algo que os identificasse, por ex. coroas feitas em casa para os Reis, bengalas para os pastores, collants e casacos brancos para as ovelhas, etc …de repente começaram todos a discutir por causa de um problema: ninguém queria fazer de burro… mas era preciso um burro!

‘ E agora? Não temos burro…’- diziam os alunos…’ E se pedíssemos ao tio Zé da Chica para nos emprestar a burra dele?’

Diziam outros. ‘ Nem pensar, sujava tudo e era uma complicação trazê- la para o palco…’ comentavam outros.

Então, para que não houvesse mais disputas, a professora acalmou a turma e propôs reservar dez minutos no final das aulas desse dia para que cada um escrevesse o seu nome num papelinho, o dobrasse e colocasse num saco. Noutro saco a professora iria pôr os nomes das figuras necessárias para montar o presépio…Depois, cada aluno viria tirar um papel de cada saco, aleatoriamente, lia em voz alta o nome e o papel a desempenhar, e todos aceitariam o que lhes coubesse em sorte… e a turma, um tanto apreensiva por causa do burro, lá concordou que seria mais justo assim!

Havia 25 alunos, por isso alguns fariam de Nossa Senhora e S. José; alguém emprestaria um boneco para fazer de Menino; outros fariam de Reis Magos, Estrela, anjos, pastores, carneiros, vaca …e outros teriam simplesmente de segurar uns painéis pintados a imitar palmeiras e outros ainda, ficariam a segurar o cenário envolvente da gruta de Belém …enfim, alguns teriam estes papéis mais modestos na verdade, mas isso não era problema… o verdadeiro problema era mesmo encontrar alguém que não se importasse de fazer de burro…porque ninguém queria esse papel!!!

‘Eu, burro??? ‘ diziam os miúdos, contrafeitos. É que a fama de burro não era coisa muito prestigiante numa escola!

E aconteceu que o burro, por sorte, ou por azar, foi recair precisamente no melhor aluno da turma… o Valter, um rapazinho que tinha sempre as melhores notas, mas que talvez por isso mesmo era conhecido por ser demasiado vaidoso do seu saber… Quando ele ouviu o seu nome e o papel que lhe cabia, houve uma gargalhada geral… a professora logo os mandou calar a todos, ao ver o aluno de cara muito vermelha, quase a chorar, sair da sala, sem dizer uma palavra… então despediu- os a todos e resolveu que falariam de novo dos preparativos no dia seguinte! Entretanto, a professora ainda correu até ao portão para falar com o Valter, mas ele já ia longe, a caminho de casa. Ao atravessar o recreio e o átrio da escola, a professora já vinha a arquitetar um plano B… e pensava que na falta de um burro, ela própria, sem dizer nada aos alunos, não teria dúvidas em fazer de burro…seria uma surpresa para eles, seria até divertido, mas sobretudo, sem palavras, seria um modo de lhes ensinar alguma coisa muito importante para a vida… talvez mesmo mais importante que muitas lições de português e aritmética…

Voltando à sala, a professora ficou admirada ao ver Zita à sua espera…

Zita era nova na escola, muito tímida, tinha nítidas dificuldades de aprendizagem, e estava bastante atrasada nas matérias em relação aos outros alunos… às vezes os colegas riam- se um pouco dela, mas a professora falava em particular com cada um e ensinava- os a não troçar da colega… e explicava- lhes que Zita tinha vivido no Canadá, por os pais serem emigrantes, e tinha estudado em francês pelo que o português era mais difícil para ela… mas entretanto, desde que chegara, Zita já tinha feito amizades, por ter muito bom coração. Sempre partilhava as bolinhas de queijo e compota que trazia para merenda a meio da manhã, ao ponto de as dar todas e não comer nenhuma… sem que os colegas dessem conta, mas a professora via…

Emprestava os seus materiais, quando alguém precisava e por tudo isso era a menina a quem todos recorriam quando em apuros…

Naquela tarde, Zita, com alguma vergonha, quis dizer à professora que não se importava de fazer de burro, até porque sabia que era a pior aluna da turma… e assim, se a professora aceitasse, trocaria o seu lugar pelo papel do Valter, pois talvez ele gostasse mais de fazer de Rei Mago…

A professora abraçou Zita com emoção e ternura, agradeceu- lhe o seu gesto, mas respondeu que não se preocupasse porque voltariam a falar do assunto mais tarde…

E ao chegarem à escola, na manhã seguinte, os alunos encontraram imagens de todas as figuras do presépio coladas nas paredes e um trabalho inesperado para fazerem, no âmbito da Língua Portuguesa. Entretanto, professora não voltou a falar no burro…

Cada aluno, ao longo desse dia, deveria investigar sobre a figura que lhe coubera em sorte, procurando informação na biblioteca da escola, ou mesmo entrevistando professores, ou pais, à entrada e saída da escola. Poderiam acabar os trabalhos em casa e no dia seguinte fariam leitura em voz alta… e acabariam as suas composições com uma frase ‘ … vou fazer de… mas o que eu gostava mesmo era de ser…por esta razão …’ e teriam de explicar a sua preferência.

No dia seguinte, já todos os alunos se preparavam para começar a leitura dos seus trabalhos, mas faltava o Valter… (ele que nunca faltava, nem se atrasava!).

Ao chegar a vez de Zita, uma das últimas a fazer a sua pequena apresentação, e quando esta, um tanto envergonhada começou a ler o seu trabalho, gaguejando um pouco, de repente, ouviu- se bater à porta e Valter apareceu a pedir licença para entrar. Numa voz quase inaudível e visivelmente atrapalhado, pediu desculpa pelo atraso, sentou- se e muito encarnado, começou a tirar as folhas do seu dossier, com as mãos a tremer… então ouviu -se a voz de Zita a ler, em tom hesitante:

‘ …eu pensei melhor e acho que gostaria de trocar com o Valter… eu podia fazer o papel de burro, porque tenho voz forte e sei zurrar e o Valter seria um Rei Mago melhor do que eu, porque ele é muito alto, parece um rei, fala muito bem e eu não …’

Fez- se um grande silêncio na sala… Valter, olhou espantado para Zita! Entretanto, todos os colegas, apesar de tão jovens, perceberam a generosidade de Zita e de repente começaram a bater- lhe palmas…

Enquanto, Zita, muito envergonhada se sentava, chegou a vez de Valter ler o seu trabalho… então ele levantou- se, e igualmente pouco à vontade, disse:

‘ Eu trazia aqui um texto para ler à turma… mas quando o escrevi estava zangado …vou rasgá- lo e deitá- lo fora… eu não queria ser o burro, mas sou burro mesmo…a Zita deu- me agora uma grande lição … e eu peço à nossa professora que a Zita continue a ser Rei Mago, porque ela merece…e eu faço de burro, que é mesmo o que eu preciso … além disso, ontem à noite, a minha mãe mostrou- me um livro onde se via uma pintura de um burro que levava Jesus sentado em cima, a entrar em Jerusalém quando já havia muita gente que O queria matar…acho que se calhar o burro novinho que estava ali no estábulo podia ter sido aquele mesmo burro que muitos anos depois levou Jesus…… porque fui investigar e descobri que os burros vivem muitos anos, no mínimo uns 30 anos…eu afinal acho que posso ser o burro…e estou a pensar que até é uma honra ser o burro do presépio…ele também foi um burro importante!!!

Foi então a vez de a professora se pôr de pé, comovida, e bater palmas ao Valter, abraçando -o a ele e à Zita.

Naquela escola, naquele ano e nos anos seguintes, a história da Zita e do Valter foi muito falada… e quando chegou o dia da festa, a mãe de Zita levou o seu último bebé de poucos meses e colocou- o numa caminha para servir de Menino Jesus… a turma viveu um dos seus melhores momentos naquela ocasião!

E a festa de Natal foi um êxito retumbante…

O tempo foi passando, a amizade entre Zita e Valter cresceu. Valter deu muitas explicações a Zita, na escola Secundária que ambos frequentaram, e ela melhorou o seu rendimento escolar de forma impressionante e ganhou confiança nas suas capacidades… por seu turno, com Zita, Valter aprendeu a reconhecer as qualidades dos outros… aprendeu tanto, tanto…que na adolescência se apaixonou por ela e um dia vieram a casar…

Hoje, já reformada, velha e cansada, quando a professora recorda as suas memórias e os seus queridos alunos, ainda lhe brilham os olhos ao falar daquela célebre festa de Natal em que fazia falta um burro no presépio…