Frei Hermínio Araújo: Destruir a Casa Comum é um pecado tão grave como outro qualquer

Foto: Duarte Gomes

Nas vésperas de terminar mais uma cimeira sobre as alterações climáticas, a COP28, Frei Hermínio Araújo, religioso franciscano, analisa o papel do Papa na luta por uma ecologia integral e diz que falta «encanto pela vida».

Considera que as mensagens do Papa são para “crentes e para não crentes”, alertando para o impacto negativo de “grupos radicais” no debate sobre as alterações climáticas.

Além disso, diz que continuam a existir muitos individualismos: políticos, económicos, financeiros… e individualismos católicos. “Falta-nos a consciência moral do pecado relacionado com estas matérias. Destruir a Casa Comum é um pecado tão grave como outro qualquer”.

Está a decorrer no Dubai, até 12 de dezembro, a COP28 sobre as alterações climáticas. Tem acompanhado os trabalhos? O que tem achado?

Sim, tenho acompanhado. Tenho sobretudo acompanhado com muita atenção e agrado os esforços que o Papa Francisco tem feito para que esta Conferência seja, como ele mesmo refere, “um ponto de viragem”. Há alguns sinais positivos nesse sentido. Felizmente, a palavra do Papa sobre esta matéria e outras quanto ao Cuidado da Casa Comum, o Planeta Terra, tem sido apreciada por parte de muitos, sobretudo fora da Igreja. Infelizmente, nem sempre isso acontece da mesma forma dentro da Igreja. 

“Francisco de Assis convida-nos a dar um banho de realidade, por exemplo: respirar ao ar livre, escutar um pássaro, admirar uma bela paisagem, caminhar na areia junto ao mar, cheirar as flores num jardim, saborear um fruto… encantar-se com a realidade da vida concreta”

Há um chefe de Estado que não está presente, mas antes mesmo da cimeira começar já tinha dedicado uma encíclica à ecologia integral, em 2015 – a Laudato Si –, e em outubro publicou a exortação apostólica Laudate Deum, sobre a crise climática. Os desafios contidos em ambas estão a ser levados em conta?

Pouco levados em conta! Estes textos de Francisco de Roma são inspirados em Francisco de Assis, o Santo do Cântico das Criaturas, o Santo que elevou a um patamar único as palavras irmão e irmã. Para ele, a fraternidade não é algo abstrato, ou até ideológico, consiste na convivência entre cada ser criado unido ao Ser supremo, Deus. Tudo isto nos leva àquilo que o Papa Francisco procura com estes textos: desencadear em todos um novo encanto pela vida. Há muita falta de encanto pela vida! Francisco de Assis convida-nos a dar um banho de realidade, por exemplo: respirar ao ar livre, escutar um pássaro, admirar uma bela paisagem, caminhar na areia junto ao mar, cheirar as flores num jardim, saborear um fruto… encantar-se com a realidade da vida concreta. Celebrar a alegria de estar juntos: pessoas e todos os demais seres. Temos muito para fazer. Andamos a destruir. É preciso mudar de rumo.

Há sinais de que se quer mesmo mudar?

Alguns, mas não são suficientes. Há muitos individualismos: políticos, económicos, financeiros… e individualismos católicos. Estamos muito centrados nas nossas coisas, na nossa “vidinha”, com pouca capacidade de olhar para o nosso vizinho. Mesmo na Igreja: a nossa paróquia, o nosso movimento, as nossas devoções… sem fazer esforço por cultivar uma visão de conjunto. Precisamos de um novo olhar! São palavras de grande amplitude, as que encontramos nos referidos documentos do Papa Francisco.

Os alertas e desafios que saem destes dois documentos mostram um lado político e ativista do Papa, mas também o ponto de vista de um chefe de Estado que propõe uma mudança cultural e de paradigma económico, inspirado numa espiritualidade franciscana, assente numa vida de simplicidade. Mas também a posição de quem espera que este encontro seja um ponto de viragem, uma ocasião histórica que permita “restaurar a credibilidade política Internacional”, e pede que se assumam de vez compromissos eficazes e duradouros…

Sim, sem dúvida. Aliás, isso está muito explícito nas suas palavras. Por exemplo quando pede que esta COP “manifeste uma vontade política clara e palpável que leve a uma decidida aceleração da transição ecológica através de formas que tenham três caraterísticas: sejam eficientes, vinculantes e facilmente monitorizáveis; e encontrem realização em quatro campos: a eficiência energética, as fontes renováveis, a eliminação dos combustíveis fósseis, a educação para estilos de vida menos dependentes destes últimos”. Algo muito concreto, sublinhe-se.

“Falta muito a fazer. Estamos muito longe do desejável. Andamos muito entretidos em “coisas piedosas” de pouca importância. Falta-nos encanto pela vida, por todas as manifestações da vida a partir de Deus”.

Laudato Deum significa ‘Louvai a Deus’, e o Papa explica que o título desta nova exortação foi escolhido precisamente porque, “quando um ser humano pretende tomar o lugar de Deus, torna-se o pior inimigo para si mesmo”. Como religioso, nomeadamente como franciscano, revê-se nesta leitura do mundo e neste alerta do Papa?

Totalmente. Estas palavras evidenciam a tese principal destes textos do Papa. Está em causa uma espiritualidade do louvor, do viver intensamente a vida com todos os seres unidos ao Ser supremo, Deus. Há mais duas afirmações que são centrais para entender esta espiritualidade: “o mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor”; o mundo canta um Amor infinito; como não cuidar dele?”. A atitude de louvor é resposta ao dom de Deus; e isso requer a virtude da humildade. O louvor é a nossa forma de ser.

Os documentos também revelam uma atenção à atualidade, porque identifica os problemas atuais, o que já se fez e o muito que ainda há por fazer…

Sim. São documentos muito realistas, muitos focados no concreto. É a leitura que faço desses textos: a Encíclica Laudato Si, a Exortação Laudate Deum, e o tão significativo Discurso à COP28, de 2 de dezembro. São textos para ler e reler, textos que nos estimulam para fazer o muito que ainda há a fazer.

Esta também é uma questão que implica a ação da Igreja, embora muitos achem, que o Santo Padre se devia preocupar com outras questões. Está a fazer-se o suficiente?

Não. Falta muito a fazer. Estamos muito longe do desejável. Andamos muito entretidos em “coisas piedosas” de pouca importância. Falta-nos encanto pela vida, por todas as manifestações da vida a partir de Deus. Andamos entretidos na nossa “vidinha piedosa”, indiferentes em relação ao dom de todas as formas de vida que Deus confere à nossa responsabilidade, e nós irresponsavelmente destruímos. No discurso à COP28, o Santo Padre formula esta pergunta: «estamos a trabalhar para uma cultura da vida ou da morte?». Esta é uma pergunta decisiva, em termos de civilização. E a Igreja não pode continuar na indiferença.

“É altura de levar a sério os grandes textos bíblicos que fundamentam a ecologia integral”.

Aquela expressão que o Papa repete na exortação, e que surgiu na pandemia, a de que “ninguém se salva sozinho”, também se aplica a esta situação?

Sim. Aliás, no pensamento do Papa, esta expressão está próxima de uma outra, que ele repete muitas vezes: “tudo está interligado”. São convicções, como ele diz. Esta última sintetiza o pensar e o viver de Francisco de Assis. O Papa Francisco insiste que se requer o envolvimento de todos. Julgo que é necessário insistir nisto. Todos não somos muitos! É necessário insistir numa pedagogia de aproximação, de união de visões e grupos demasiado distantes. A defesa da Casa Comum não é uma questão nem de esquerda nem de direita. Também aqui, os extremismos não ajudam.

O Papa pede, como já vimos, que a COP28 seja um “ponto de viragem”. Será pedir demais?

Não. É pedir o necessário. Este deveria ser o pedido cada vez mais generalizado, para que a viragem vá acontecendo cada vez mais, em todos os âmbitos. Penso mais uma vez na Igreja Católica. É altura de mais seriedade quanto a tudo isto. É altura de levar a sério os grandes textos bíblicos que fundamentam a ecologia integral. É altura de levar a sério o melhor da nossa tradição espiritual que é fundamento de uma viragem necessária. O que está em causa é uma questão de vida ou de morte. Falta-nos a consciência moral do pecado relacionado com estas matérias. Destruir a Casa Comum é um pecado tão grave como outro qualquer. E essa consciência, infelizmente, ainda não existe.