MASF assinalou com várias atividades o Dia Nacional dos Bens Culturais da Igreja

Foto: MASF

O Museu de Arte Sacra do Funchal (MASF), assinalou o Dia Nacional dos Bens Culturais da Igreja que é também dia de São Lucas, patrono dos artistas, a 18 de outubro, com diversas atividades.

O dia terminou com uma conferência de Martinho Mendes sobre “Jarras e Flores na Arte Flamenga”, bem como com Conversa em torno do processo criativo do escultor José Manuel Gomes a propósito da exposição Vaso de Altar: Flores e liturgia a partir da cerâmica de José Manuel Gomes, que esteve patente naquele.

Antes do início destas atividades, o Jornal da Madeira esteve à conversa com os dois intervenientes nas mesmas, a começar por Martinho Mendes que nos elucidou que esta conferência se inseria no encerramento da exposição e ao mesmo tempo foi “por onde tudo começou”.

Explicando melhor, adiantou que a conferência iria “falar da base que deu lastro à organização da exposição, que é precisamente a perceção de que a representação da natureza, seja através das paisagens, das plantas, dos frutos, dos animais de um modo geral, são formas de, por um lado, celebrar uma conceção de divinização e de religiosidade na natureza, lembrando que Deus cria e anima todas as coisas  e por outro, mostrar que a aproximação humana às plantas, foi uma forma também de conferir dignidade e solenidade aos momentos festivos”.

De resto, foi esse o motivo pelo qual a exposição teve a relação com a liturgia”, já que a mesma permitiu “pensar de que forma as flores são usadas na liturgia e como a liturgia vai orientar depois essa utilização floral”.

Na conferência, continuou, iria ainda abordar as “representações das plantas na própria arte, sendo que essa arte – trípticos, pinturas – estariam à volta de objetos como esculturas, castiçai, etc., numa conceção de obra de arte global, em que as igrejas eram depois ornamentadas”.

Por outras palavras, “existe aqui uma relação entre a flor, as plantas, a natureza representada na arte em diálogo com a presentificação desses elementos naturais dentro da própria igreja”. De resto, vincou, “é desta alternância entre representação e presentificação” que a conferência iria incidir.

Martinho Mendes falou-nos ainda do que é que carateriza a representação botânica na Arte Flamenga, sublinhando que se trata “de uma representação extremamente simbólica, a representação destes elementos naturais, sejam eles cortados em arranjos florais dentro de jarras ou na natureza, que surgem como uma forma como plantas representadas no chão onde os santos pisam, são plantas que “surgem como uma forma de ajudar a enriquecer a narrativa de uma história”.

Tratam-se reforçou de plantas extremamente simbólicas que vão reforçar determinados atributos e caráter as figuras representadas, nomeadamente a botânica mariana, ou aspetos relacionados com Jesus Cristo, pintadas com um caráter extremamente rigoroso”. De resto, a pintura flamenga, como detalhista que era,
“permite-nos identificar a botânica Europeia”.  É, por isso uma área de estudos interessante, havendo já alguns investigadores que sobre ela se debruçam”.

Por outro lado, há também aqui a tal relação com os vasos, que nos “permite perceber os formatos e as técnicas da cerâmica também na arte e perceber, por exemplo, que uma faiança que surge, por exemplo no tríptico da encarnação, que data dos primeiros anos do século XVI é uma representação da faiança típica italiana que já circulava na zona da Flandres, como os madeirenses tinham representações para o açúcar”.

“É necessário perceber a mobilidade destes produtos e perceber como é que eles eram representados na arte, porque na verdade faziam parte do quotidiano da época a que as pinturas da época muitas vezes ser reportam”.

Visão mais contemporânea

Quanto a José Manuel Gomes, o autor das peças em exposição disse-nos que este projeto começou em 2021 nos Prazeres onde foi feita a primeira exposição sobre vasos de altar.

Esta exposição, explicou “faz uma retrospetiva do que foi esse projeto e ao mesmo tempo o encerramento desse mesmo projeto”

Surge com a intenção de mostrar que, no que diz respeito ao estudo da arte sacra há inúmeras vertentes e dimensões e categorias de objetos artísticos.

O processo criativo é longo, as peças foram desenhadas algumas foram alvo de teste, feitas num processo de execução que facilita a execução já que são feitas com recurso a moldes de gesso, o que abrevia o tempo execução.

Inicialmente, as peças foram “pensadas para a mesma igreja, uma igreja rural o que levou a que o trabalho, em termos de configuração seguisse duas vertentes distintas. Uma mais espiritual, daí que alguns dos vazos foram pensados com essa vertente, uma vertente de contemplação”.

Depois, o facto de ser para uma igreja rural, “levou-me a pensar que as pessoas têm outras sensibilidades à mistura que, se calhar, não se encontravam aqui no Funchal e que estão ligadas às suas vivências ao seu dia a dia”. Por isso mesmo, pensou, “seria interessante trazer essas vivências para a própria igreja e para as peças”.

Acontece que não foi possível fazer a exposição no local para onde estava projetada, o que levou José Manuel Gomes a ter de fazer uma seleção para o altar da igreja, que era o que estava pensado e a alargar a sua visão sobre a temática e a produzir outras peças”.

Escultor de formação e docente de cerâmica durante muitos anos, José Manuel Gomes, aproveitou então para “estas referências para uma época mais contemporânea”.

É por isso, explica, “que quando olhamos para os vasos, sobretudo quem está a pensar na imagem clássica, fica surpreendido porque se tratam de vasos que rompem com essa visão tradicional”.

Quanto ao processo criativo, “implica experimentar coisas, umas viáveis outras menos viáveis e depois fazer uma seleção final”. Se esta agradou ao artista, a resposta é que “o criador fica sempre um pouco insatisfeito. Andei à procura  do vaso ideal , mas cheguei à conclusão que isso não existe, depois de não sei quantos vasos ainda ando à procura” disse.