Pe. Nélio Pita: A Igreja na Europa é chamada a abrir as suas estruturas em benefício de quem precisa

Foto: Duarte Gomes

O Padre Nélio Pita, sacerdote natural do Estreito de Câmara de Lobos, é Assistente Geral da Congregação da Missão, em Roma. No passado mês de julho, esteve na Diocese do Funchal para orientar o retiro do clero no Terreiro da Luta. O Jornal da Madeira conversou com este sacerdote madeirense sobre os desafios da missão evangelizadora da Igreja, particularmente no continente Europeu.

Jornal da Madeira – Qual é a missão que está a realizar na atualidade?

Padre Nélio Pita – Eu faço parte da equipa de assistentes do Superior Geral da Congregação da Missão, padre Tomaz Mavric. Somos cinco. Cada um de nós está mais associado à zona da Ásia, outro da África, outro da América do Sul, outro da América do Norte e outro da Europa. Eu estou mais ligado ao continente europeu e ao mesmo tempo aos países de língua portuguesa. Faço o acompanhamento das três províncias que temos no Brasil: Fortaleza, Curitiba e Rio de Janeiro; acompanho a província de Moçambique e a missão que estamos a iniciar em Angola. Além disso, para além das duas províncias de Espanha e a de Áustria e Alemanha, estou também responsável da província do México e Costa Rica.

Jornal da Madeira – Qual é a atividade do Assistente do Superior Geral?

Padre Nélio Pita – Como assistente, o nosso trabalho é acompanhar as diversas áreas geográficas e ajudar a tomar decisões para o bem da província e das comunidades que nós servimos em terras de missão. É um trabalho desafiante porque, em primeiro lugar, obriga-nos a falar diferentes línguas: além do português, o espanhol, o italiano, mas fundamentalmente o inglês e o espanhol, porque são as línguas mais faladas. Obriga-nos, e faço-o com gosto, a conhecer, não de uma forma apenas teórica, no papel, mas in loco, as províncias. Algumas situações são motivo de alegria, de entusiasmo: os primeiros passos de uma comunidade, uma escola que se inaugura, a mobilização para recolha de fundos para uma causa de natureza social. Outras situações são mais preocupantes, situações que suscitam maior atenção da equipa que está em Roma. Temos esse papel, o dever, de vigiar para que, por exemplo, na área económica, os fundos sejam bem aplicados e, na dimensão moral e espiritual, os membros missionários tenham vidas exemplares e por diante… Em traços gerais divido o meu tempo entre Roma e as visitas às comunidades espalhadas pelo mundo.

Jornal da Madeira – Tendo a oportunidade de passar por diferentes realidades e localidades, como vê a Congregação da Missão?

Padre Nélio Pita – Em primeiro lugar, vejo-a como uma grande família. Quando eu chego a um determinado lugar, a Moçambique ou México, apesar de ser uma cultura completamente diferente e de estar a contactar pela primeira vez com muitos dos missionários, sinto que é como se já nos conhecêssemos há muito tempo, pois há algo de sagrado que nos une, partilhamos um carisma, temos a mesma missão, ajudamo-nos mutuamente para concretizar um projeto que, acreditamos, é obra de Deus. O sentido de pertença a esta família torna-nos muito próximos, de alguma forma cúmplices, na construção de um bem maior. Isso é muito bonito.

Percebo que a Congregação da Missão, à semelhança do que acontece com outras instituições na Igreja, partilha das alegrias e das preocupações próprias deste tempo. Por um lado, há momentos de entusiasmo porque falar de Deus é motivo de alegria, alegria também pelo crescimento que observamos, à maneira da semente que começa a germinar, o bem que se consubstancia numa obra, numa pessoa, numa comunidade. Mas, por outro, em simultâneo, persiste um sentimento de desencanto, de cansaço, talvez por causa do inevitável decrescimento do número de efetivos, do crescente vazio nas nossas assembleias; talvez ainda por causa de uma certa desconfiança que se insinua constantemente na relação entre um homem da Igreja, um padre em especial, e a sociedade em geral. E isso tem consequência nas vocações. Dificilmente alguém ingressa numa instituição cujos membros são publicamente criticados. Há uma distorção na perceção da realidade, tendendo-se a generalizar o que foi feito por alguns. Por isso, na Europa as vocações são muito reduzidas. Os membros apresentam uma faixa etária elevadíssima. Em contrapartida, há vocações, muitas vocações, em países como Vietname, Índia, Indonésia e em alguns de África. Se nós tivéssemos estruturas, em vez de acolhermos cem seminaristas, poderíamos acolher trezentos.

A Igreja foi durante muito tempo eurocêntrica, desde o pensamento, a teologia, o ritual. Agora, o centro é, cada vez mais, outro lugar que não o Europeu. São essas comunidades vivas que oferecem nova vida à Igreja. Só para lhe dar um exemplo, fui passar a Páscoa ao norte de Itália, a uma comunidade. Nas celebrações do tríduo pascal, deviam estar uma média de trinta pessoas, quase todas idosas. Recentemente, estive no México, as igrejas estavam cheias, uma liturgia muito mais vivida, mais participativa, em especial, nas comunidades indígenas, onde o ritual inclui algumas danças e muito incenso. Essa é a realidade que nós sentimos, eu como sacerdote na Congregação da Missão, mas que não é um exclusivo da Congregação da Missão. É de toda a Igreja.

“Não podemos privar as comunidades dos sacramentos, só porque quem os administra tem de ser um celibatário. A Igreja pode e deve equacionar uma mudança”.

Jornal da Madeira – Como continuar a evangelizar o continente europeu que possui uma longa e significativa história no anúncio do evangelho?

Padre Nélio Pita – Eu acho que isso é o trabalho que nós todos devemos fazer, isto é, tentar refletir juntos.  Seria completamente imprudente apresentar soluções definitivas. Talvez andemos à procura de uma “fórmula mágica” para rapidamente recuperar os tempos gloriosos em que a população era 100% católica, pelo menos no papel. Curiosamente, outro dia, numa reunião que juntava responsáveis de várias províncias, surgiu a pergunta: “que fazer?”, e dizia-me um padre já mais velho: “Sabe, padre Nélio, há quarenta anos, quando se fazia esta pergunta havia logo trezentas respostas. Hoje, faz-se silêncio”. Porque, de facto, há qualquer coisa que nós não sabemos. Fazemos diagnósticos, mas é mais difícil encontrar o remédio adequado, a estratégia exata. É preciso saber lidar com esta incerteza, sem nos deixar-nos cair numa atitude de angústia existencial, de desespero… Como resolver esta situação? Partindo daquilo que é a minha realidade e aquilo que é o contexto que eu conheço e que eu acompanho, posso deixar algumas pistas:

Primeiro, a Europa tem estruturas. A Europa tem estruturas materiais e tem ainda estruturas humanas. A Europa é chamada a abrir essas estruturas para que outras pessoas delas possam beneficiar. Isto é, esta casa não é a minha casa, não é a casa de um padre em particular. É um bem da Igreja. Eu posso abrir esta casa para que outros irmãos que não têm outras condições em África, na Ásia, possam usufruir desses meios. Também, neste âmbito, as recomendações do Papa Francisco para os migrantes e refugiados –  sintetizadas nos verbos acolher, proteger, integrar e promover –  podem ser assumidas e aplicadas. Nós somos administradores provisórios de bens. Eles podem ser disponibilizados em benefícios de quem precisa, para que sejam um bem e não um mal, na medida em que é uma estrutura que não está ao serviço, devoluta, entregue à degradação. Esta poderá ser uma estratégia. Ao fazer isto, estamos a enriquecer a instituição porque estamos a dar vida nova a um corpo que já estava moribundo.

Dentro da minha instituição há uma política, que eu chamo, de holandesa e a política de uma província em Espanha, que é Saragoça. A província da Holanda teve um papel importante em várias províncias em diversos continentes. Enviaram missionários para todos os cantos. Um país extraordinário que deu missionários generosos e dedicados, mas na década de oitenta, decidiram fechar as casas e aceitar o que parecia inevitável: a extinção. Fecharam as casas, venderam o património, fizeram um lar de terceira idade e esperam morrer. Não querem outros missionários. Esta é a política, digamos assim: “Fechamos, acabamos”. Outras, como a província Saragoça, neste momento, têm dezoito missionários de vários países do mundo. Dizem, “nós estamos a envelhecer, mas temos boas estruturas, vamos convidar aqueles que quiserem” – evidentemente com devida aprovação e discernimento dos responsáveis provinciais – “para que possam estudar aqui e ao mesmo tempo fazer um trabalho”. É o que estão a fazer. Estão a dar vida nova. Esta pode ser uma estratégia.

Por outro lado, no modelo atual da Igreja, o animador é fundamentalmente um clérigo, um celibatário. Tem de ser assim? Eu trabalhei durante vários anos numa paróquia, conheci pessoas que eram verdadeiros exemplos do ponto de vista espiritual, de testemunho de vida cristã, e até conhecimento da doutrina da Igreja em certas áreas. Não teria qualquer problema em dizer que esta pessoa está apta para gerir, não apenas materialmente, mas também é capaz de zelar espiritualmente pelos bens de uma comunidade. Dito de outro modo, podia ser o animador. A atual disciplina pode ser revista. As comunidades não têm de ser reféns de uma estrutura de Igreja que depende, fundamentalmente, daqueles que são os celibatários, os clérigos.

Não podemos privar as comunidades dos sacramentos, só porque quem os administra tem de ser um celibatário. A Igreja pode e deve equacionar uma mudança. Aliás, durante séculos, como é sabido, os ministros da Igreja eram casados e não foi, por isso, menos Igreja. Isso não significa que todos têm de casar. Há lugar para ambas as condições. Cada um deve assumir a vocação para a qual foi chamado. Os membros dos Institutos de Vida Consagrada, por exemplo, como aquela a que pertenço, manteriam o celibato obrigatório.

“[O Padre] está chamado a ser uma espécie de topógrafo do sagrado, a ser um mistagogo, um peregrino que acompanha outros peregrinos na incessante demanda de um território mais pacífico, mais justo, mais fraterno”.

Jornal da Madeira – No retiro que realizou aos sacerdotes da Diocese do Funchal, no passado mês de julho, que mensagem quis transmitir? 

Padre Nélio Pita – O tema geral foi o seguimento de Jesus. Nós todos somos seguidores de Jesus pelo batismo, mas entre os batizados, há um grupo, digamos assim, que foi chamado, para uma proximidade maior com Jesus, foram escolhidos para uma entrega maior. São aqueles que Jesus chama, os apóstolos, e esses são, em primeiro lugar, convidados a estar com Jesus. O primeiro dever do discípulo é estar com ele, deixar-se formar por ele, tornar-se semelhante a ele. Isto apela para a dimensão de orante, de estudo, meditação da palavra, para a dimensão da contemplação. Depois, participar na missão que é a missão de Cristo, não é a minha missão. Identificado com Cristo, sou continuador da sua missão. E finalmente, seguir Jesus implica disponibilidade para oferecer a vida, para sacrificar a vida. Estar com ele, não apenas nos momentos alegres, mas também nas tribulações. Não abandonar a barca nos momentos de tribulação, como aqueles que nós estamos a viver agora. Atualmente, a Igreja, de alguma forma, vive uma fase de tribulação e oxalá que essa tribulação seja purificadora também para a igreja.

Jornal da Madeira – No seguimento da mensagem do retiro, que sacerdote para o tempo presente? Qual a missão do sacerdote?

Padre Nélio Pita – Que seja, em primeiro lugar, um homem de Deus. Assim como há a expectativa que um padeiro possa dar o pão e que um médico a cura, quando se aproximam de um padre, as pessoas têm a expectativa que seja um homem capaz de oferecer algo de Deus. Que O torne visível. Que fale de uma eternidade e, por isso mesmo, os ajuda a sonhar e acreditar. Que seja capaz de transmitir uma mensagem que abra os olhos para novas realidades, que dê sentido à vida. Que seja causa de esperança. Que aumente a fé. Que seja exemplo de caridade.

A especialidade do padre não é saber marcas de vinho, nem o campeonato de futebol até à terceira divisão de honra, ainda que tudo isso não seja mau em si e esse conhecimento possa ser uma forma de estabelecer uma relação com terceiros. Mas a especialidade do padre é de outra ordem. Ele está chamado a ser uma espécie de topógrafo do sagrado, a ser um mistagogo, um peregrino que acompanha outros peregrinos na incessante demanda de um território mais pacífico, mais justo, mais fraterno. É aquele que faz a ponte entre a eternidade e a realidade. O sacerdote não pode ser um sujeito “limpo e distante”, como se fosse membro de uma casta superior. Esse é o problema da mentalidade clerical, daqueles que se consideram, talvez inconscientemente, acima dos outros, intocáveis, moralmente superiores… não!  O Padre é aquele que partilha a condição de um povo e, por isso mesmo, é capaz de representar esse povo diante de Deus.

Destaco também a dimensão profética. O sacerdote não pode ser apenas o ritualista, um funcionário do sagrado, que faz o serviço para despachar, como se fosse uma máquina sem alma. Eu sei que essa é uma visão que está entranhada, mas é uma visão muito redutora daquilo que é ser padre. O padre está chamado a ser o profeta, capaz de uma mensagem interpeladora, uma mensagem que, em certas ocasiões, até é contra a corrente, que inquieta, que dói… se não faz isso, quem o fará? Pode exercer essa dimensão de uma forma criativa, ousada, mas sem faltar à caridade e à verdade.

Se a igreja não assume esta missão profética, perdemos todos. Perdem, sobretudo, os pobres. Porque a igreja é chamava a ser, também, a voz daqueles que não têm voz neste mundo.

“Se a igreja não assume esta missão profética, perdemos todos. Perdem, sobretudo, os pobres. Porque a igreja é chamava a ser, também, a voz daqueles que não têm voz neste mundo”.

Jornal da Madeira – Como vê o contributo da igreja na ação social concreta, na realidade onde nós nos encontramos?

Padre Nélio Pita – Na Europa, de alguma forma, a ação social está relativamente bem organizada. O Estado garante os cuidados de saúde e de educação (infelizmente, nem sempre de uma forma satisfatória). Nos países de missão, como por exemplo nas Honduras, onde estive, aí é diferente. Em muitas situações, sem a Igreja os pobres estariam entregues ao abandono. É admirável o trabalho de tantos consagrados, religiosas, padres e leigos. A Família Vicentina está no campo, na realidade concreta, através dos seus ramos, em especial, das irmãs vicentinas, as conferências de São Vicente de Paulo, juntamente com Associação Internacional da Caridade e os Padres da Missão. Apenas uns exemplos que conheci recentemente: No México ou nas Honduras. Gerimos refeitórios para os sem-abrigo, escolas, a pequenos centros de saúde, entre outros equipamentos. Temos iniciativas pontuais ou estruturais mais estáveis de apoio aos pobres. Há um grande cuidado com o outro, aquele que está na margem, que não tem as mesmas oportunidades porque nasceu num contexto social desfavorecido. Julgo que isso é verdadeira caridade. Aqui poderia ser diferente. Pecamos porque permanecemos numa dimensão meramente assistencialista, de dar o saco, dar o arroz, dar o pão… O beato Frederico Ozanam, fundador das conferências de S. Vicente de São Paulo, procurava não apenas o mero assistencialismo. Procurava formar as consciências para transformar a sociedade. Formar as pessoas para que elas fossem capazes de assumir comportamentos capazes de alterar aquilo que é uma cultura dominante, uma cultura que, por vezes, mantém as pessoas numa situação de pobreza e de miséria. Nesse aspeto temos muito trabalho a fazer. Infelizmente, como nós sabemos, é muito mais fácil dar o saco de arroz do que dar a cana para a pesca, isto é, do que formar. Até porque as pessoas, muitas vezes, querem as soluções imediatas e não querem grande formação. “Não me tragam essa conversa, o que eu quero é que me tragam comida”. Pecamos também por isso. Penso que damos um contributo no assistencialismo, mas devemos apostar mais na formação, na promoção da pessoa, para que ela possa ser protagonista da sua história, possa sair de uma situação de pobreza, de miséria em que se encontra.

“Penso que damos um contributo no assistencialismo, mas devemos apostar mais na formação, na promoção da pessoa, para que ela possa ser protagonista da sua história, possa sair de uma situação de pobreza, de miséria em que se encontra”.

Jornal da Madeira – Qual deve ser o papel da Igreja diante do agravamento da situação económica de muitas famílias que não têm o suficiente para uma vida digna?

Padre Nélio Pita – A questão é muito complexa. O problema não são só as pessoas que ficam desempregadas, são os que trabalhando, continuam quase miseráveis, mal podem pagar a casa e as despesas básicas. Acho que essa é a principal tragédia. Isto está de tal forma organizado que é escandaloso que uma pessoa que esteja a trabalhar, como por exemplo, na limpeza, ganhe vinte vezes menos que aquele que está no topo da cadeia, quando precisamente a situação da COVID veio dizer que estas pessoas, cuja função é limpar, desempenham um trabalho muito importante para o nosso bem-estar. Porque é que essas pessoas ganham tão pouco? Auferem um ordenado que é, praticamente, para as manter vivas, num modo de vida pobre. Isto não é digno, não é correto, não é justo… O que é que a igreja pode fazer? Evidentemente, pode exercer a sua influência, pode dizer aos empresários de matriz cristã que assumam uma lógica de gestão motivada pelo amor, não pela cobiça, não pela ganância. A Igreja, os próprios batizados podem fazer alguma coisa de concreto para mudar este modelo. A nossa Universidade Católica, por exemplo, pode formar os seus alunos com esta sensibilidade. Esta seria uma boa causa para estes tempos: a comunidade cristã que se reúne para celebrar os sacramentos, também se devia reunir para pensar e decidir como servir os que vivem em situação precária, os pobres, os doentes, os que vivem sozinhos… eles são, como disse S. Vicente de Paulo, «nossos mestres e senhores», aqueles que representam Jesus.