De carne e osso

D.R.

Uma das razões que leva tantos cristãos a visitar a Terra Santa é porque aqueles lugares constituem o chamado “5º evangelho”. Ao longo de 2000 anos, toda aquela geografia se viu transformada, em grande parte pelo próprio fluxo de cristãos — que o diga a cidade de Nazaré, hoje com uma aparência muito diferente do pequeno sítio do tempo de Jesus. E, no entanto, todos aqueles lugares continuam a falar aos corações de quantos os visitam: dizem que Jesus não é um mito, uma história, uma fábula; dizem que Jesus e os acontecimentos dos evangelhos tiveram lugar em locais bem concretos e palpáveis.

Do mesmo modo, também os santos foram sempre de carne e osso. Claro que não raras vezes foram idealizadas narrações, exagerados pormenores. Mas os santos são sempre de carne e osso.

Ao longo desta semana, tenho tido a graça de visitar, juntamente com alguns cristãos da nossa diocese, os lugares do Beato Carlos, Rei da Hungria e Imperador da Áustria. São, ainda hoje, lugares magníficos, verdadeiros ambientes de príncipes e de princesas, próprios dos livros de histórias e dos filmes. Mas enquanto o olhar se ia deleitando com a beleza e o esplendor dos palácios e do ambiente que os rodeia, o meu pensamento não pôde deixar de pensar como deveria ter sido difícil ser santo rodeado de tanta riqueza e opulência.

Qual seria o verdadeiro Carlos? O dos palácios ou o da Quinta do Monte, pobre e sofredor, que entrega a sua vida nas mãos de Deus? Era o mesmo. O Imperador que procurava construir a paz, que cuidava da sua família, que rezava e procurava a força da Eucaristia no meio da mundanidade dos palácios, era o mesmo cristão, simples e humilde, que os madeirenses de há cem anos conheceram e de quem receberam o testemunho de santidade. De carne e osso; mas sempre cristão.