Secretário-Geral da APEC: Pais têm de ser livres para escolher a escola dos filhos

Foto: Duarte Gomes

No âmbito das comemorações dos 25 anos da Associação Portuguesa de Escolas Católicas (APEC), o seu Secretário-Geral, Jorge Cotovio, esteve recentemente na região a visitar escolas da Diocese do Funchal. O Jornal da Madeira esteve à conversa com este responsável para perceber a finalidade desta deslocação, que teve lugar entre os dias 4 e 8 de setembro.

Secretário-Geral desde 2010, Jorge Cotovio é mestre em Administração Escolar pela Universidade Católica Portuguesa e doutorado em Ciências da Educação pela Universidade de Coimbra, tendo sido publicada a sua tese intitulada “O Ensino Privado nas décadas de 50, 60 e 70 do século XX – o contributo das escolas católicas”.

Casado há 42 anos com a Maria de Lurdes, Jorge Cotovio tem duas filhas e 5 netos, foi diretor pedagógico nos últimos 30 anos, assumindo a sua última missão, a este nível, no Colégio Conciliar de Maria Imaculada (Leiria), até 2022.

Agora, como Secretário-Geral da APEC, associação que está a assinalar 25 anos de existência, uma das suas lutas tem sido pela “liberdade dos pais poderem escolher a escola para os seus filhos” e a propina não ser um impedimento a essa escolha por parte daqueles que têm menos possibilidades económicas.

Jornal da Madeira – Durante a sua vinda à Diocese do Funchal manteve reuniões com direções de várias Escolas Católicas, incluindo uma do Porto Santo, mas também realizou sessões de formação com professores e funcionários e ainda com os pais. Qual o objetivo?

Jorge Cotovio – Em nome da APEC, aproveito sempre estas oportunidades para me encontrar com os diretores, conversando com eles sobre as suas vivências, as suas dificuldades, as suas preocupações e os seus projetos. Depois, aproveito para promover sessões de formação com professores e funcionários não docentes, em que abordo a sua missão, deveras importante e “sublime”, numa Escola Católica (EC).

“A EC, para ser fiel à sua identidade, tem de ser aberta a todos, a começar pelos mais desprotegidos. Só assim cumprirá a sua missão, fundada na pessoa de Jesus Cristo”.

Jornal da Madeira – Essa missão tem, digamos, algumas especificidades…

Jorge Cotovio – Tem. A sua missão numa EC integra a missão de um educador numa outra escola qualquer, mas com uma responsabilidade acrescida pelo facto de estarmos numa escola “católica”. Um educador numa EC deve identificar-se com o Projeto Educativo católico que a enforma e lhe dá um estilo diferente. Um “estilo” assente na pessoa de Jesus Cristo. Esta fidelidade à missão e identidade da EC – que deve ser testemunhada no quotidiano (e quanto isto é difícil!) – é fundamental para que a escola seja realmente “católica”.

Com a progressiva falta de professores é imprescindível formarmos nesta linha os novos candidatos – muitos deles com fé pouco consistente – para que não se perca essa identidade.

Com a diminuição das vocações consagradas – tradicionalmente os diretores eram irmãs e sacerdotes – deparamo-nos com o problema das lideranças. Nem sempre se encontram os leigos mais competentes a nível pedagógico, administrativo e espiritual para ocuparem cargos de direção e de coordenação. Há, pois, que formá-los, aproveitando os melhores de cada escola.

Nestas sessões, sobretudo com os professores, começo, porém, por falar do significado etimológico de termo “educar”: “tirar de dentro”, ou seja, criar condições para que os talentos/dons/capacidades dos alunos se desenvolvam, e eles se sintam capazes de “voar”, de ser os autores do seu crescimento – como uma semente que é plantada. Levado a fundo este significado, as nossas atitudes na sala de aula e nos restantes espaços podem ser bastante diferentes e às vezes opostas às que normalmente adotamos… Isto só para nós: a maioria das vezes, instrói-se mais do que se educa… “Instruir”, etimologicamente “pôr para dentro”, é o contrário de educar… 

“Devemos educar os filhos para as contrariedades, saber também dizer ‘não’, para que eles, responsáveis e autónomos, estejam preparados para os grandes desafios da vida”.

Jornal da Madeira – E também há as sessões para os pais…

Jorge Cotovio – Também. Sempre que possível aproveito dar formação aos pais sobre como educar para a responsabilidade. Sinto que a maioria dos pais, por amor, educa mal os filhos. Superprotegem-nos, facilitam-lhes a vida, fazem as coisas por eles, não os habituando às dificuldades. Muitas vezes não colaboram com a escola e até a desautorizam, levando a que o professor perca a autoridade perante os alunos. Educar, olhando à sua etimologia (que explico sempre aos pais) é fazer o contrário do que normalmente os pais fazem. Devemos educar os filhos para as contrariedades, saber também dizer “não”, para que eles, responsáveis e autónomos, estejam preparados para os grandes desafios da vida. Acontece que, normalmente, como os pais têm poucos filhos e como um filho é cada vez mais uma “espécie rara”, a tendência é para os superprotegerem. Sem o desejarem, os pais que assumem estas atitudes educam mal e condicionam a vida futura dos filhos.

Jornal da Madeira – A APEC está a celebrar este ano 25 anos de existência. Estas visitas integram-se nessas comemorações. Eu pergunto: são para continuar no futuro?

Jorge Cotovio – A APEC é uma iniciativa da Conferência Episcopal Portuguesa e dela depende, estatutariamente. Em 1996, os nossos bispos pediram aos responsáveis das EC para que fosse criada uma estrutura “de base” que congregasse todas EC. Eu tive o privilégio de participar na génese deste desiderato, e acompanhar todo o processo que culminou, em 1998 – há 25 anos – com a criação da APEC. Desde então, a APEC procura promover a comunhão e partilha das EC, sempre em estreita colaboração com o SNEC (Secretariado Nacional da Educação Cristã), de quem tem recebido todo o apoio – e quero deixar isto bem vincado. Voltando aos primeiros tempos, lembro-me bem do Senhor Gastão, da APEL, que representava as EC da diocese do Funchal e que normalmente participava nas Assembleia Gerais e noutras atividades relevantes, sempre com muita simpatia e interesse, com a sua pronúncia típica madeirense. Graças a ele, uma delegação da APEC veio até ao Funchal orientar encontros de formação. Também integrei essa delegação, penso que em 2005. Uns anos mais tarde, em 2012, eu e outro elemento da Direção também aqui nos deslocámos, cumprindo um programa concertado com o Dr. Marco Gomes, na altura diretor da APEL (agora Diretor Geral de Educação do arquipélago).

É, pois, natural que estas visitas se repitam no futuro, e continuaremos a apoiar outras entidades que possam cá vir, como já fizemos, há 3 anos, com a Comissão Nacional da Proteção de Crianças e Jovens, patrocinando a vinda da Dra. Fátima Duarte, para falar sobre “Como prevenir os maus tratos em crianças”, ou há dois meses com elementos do projeto “Cuidar”, da Universidade Católica (projeto este em que a APEC é parceira), com o objetivo de prevenir casos de abusos a crianças e jovens. Em todo este processo, tem sido notável a colaboração da Irmã Conceição Malho, diretora do Externato da Apresentação de Maria, responsável diocesana das EC, e que é um elo privilegiado entre a APEC e as EC. E desta vez tenho de agradecer particularmente às irmãs Deolinda e Guida, ambas Vitorianas, que tão bem me acolheram em Porto Santo e no Funchal.

Deixe-me, ainda, acrescentar que para atenuar o isolamento das EC insulares, as formações que fazemos no continente são normalmente gravadas (e algumas delas online), enviando depois a gravação para todas as escolas.

“Enquanto não houver a liberdade dos pais poderem escolher a escola para os seus filhos, independentemente da sua propriedade – estatal, privada, confessional ou não confessional – nós não descansamos”.

Jornal da Madeira – Que iniciativas ainda vão decorrer no âmbito destes 25 anos?

Jorge Cotovio – Começámos estas comemorações com uma Jornada Pedagógica em finais de junho, abordando as relações, por vezes tensas, entre os pais e a escola. Esta vinda aqui, como disse e bem, também está inserida nestas comemorações. Segue-se, a 6 de outubro, a VI Peregrinação das Escolas Católicas a Fátima (as EC da Madeira também são convidadas, mas compreendemos que dificilmente se farão representar). O momento mais alto será o 2.º Congresso Nacional da Escola Católica, que decorrerá em 9 e 10 de maio do próximo ano, em Fátima. Tudo faremos para haja presenças dos arquipélagos da Madeira e dos Açores.

Jornal da Madeira – Certamente que há questões que vos preocupam enquanto associação. Quais são essas principais preocupações?

Jorge Cotovio – Já falei de algumas que dizem respeito mais especificamente às escolas: as lideranças laicais, a escassez de professores, o testemunho cristão dos educadores docentes e não docentes. Também a demografia, pois cada vez há menos crianças. Mas há outra preocupação que diz respeito ao “sistema”: a liberdade da educação. Enquanto não houver a liberdade dos pais poderem escolher a escola para os seus filhos, independentemente da sua propriedade – estatal, privada, confessional ou não confessional – nós não descansamos. A EC, porque é “católica” (= a “universal”), tem de estar aberta a todos, independentemente de ser rico ou pobre, católico ou ateu (na esteira do Papa Francisco, diria que “todos cabem na EC”). O que acontece neste momento é que as EC que cobram propinas (aqui na Madeira as que têm Contratos Simples com o Governo) condicionam essa liberdade – que até está assinalada na Constituição. Quando há Contrato de Associação (CA) – e vejo que aqui há várias escolas com este contrato -, a situação está mais ou menos resolvida, embora essas escolas não recebam os mesmos apoios dados às escolas estatais – o que é uma injustiça. Mas no continente, a este nível, a situação é muito preocupante. Desde o abrupto corte dos CA, sobretudo em 2016, mais de dez grandes EC encerraram, dando por terminados projetos educativos de excelente qualidade. Cada EC que fecha é como uma paróquia a deixar de funcionar. O ambiente político continua muito adverso, mas a APEC, sempre com o apoio incondicional do SNEC (e às vezes em conjunto com a AEEP), não desiste de lutar. A EC, para ser fiel à sua identidade, tem de ser aberta a todos, a começar pelos mais desprotegidos. Só assim cumprirá a sua missão, fundada na pessoa de Jesus Cristo.