Pe. e arq. João Norton de Matos: “Cada época tem a sua expressão na arquitetura religiosa”

Foto: Duarte Gomes

João Norton de Matos é arquiteto e padre jesuíta, com doutoramento em estética e teologia feito em Paris, nasceu em Lisboa, em 1963. Entrou na Companhia de Jesus em 1990 com formação em arquitetura, foi ordenado padre na Igreja de São Roque em 2002, depois da formação jesuítica em filosofia e teologia.

Trabalhou no Serviço Jesuíta aos Refugiados em Angola e na pastoral universitária no CUPAV – Centro Universitário Padre António Vieira. Colabora atualmente na Revista e Centro cultural Brotéria, assim como na Universidade Católica Portuguesa.

No início deste mês esteve na Diocese do Funchal, nas Festas da Sagrada Família. Aí, para além de celebrar, realizou duas palestras sobre “As igrejas na História, Arquitetura e Espaço Litúrgico” e “A Igreja Hoje e as igrejas de hoje, Arquitetura e Espaço Litúrgico”.

O sacerdote foi ainda convidado a acompanhar a arquiteta Fátima Abreu e a comunidade da Paróquia da Sagrada Família no processo do projeto duma nova igreja, há muito aguardado pela comunidade. 

Jornal da Madeira – Em primeiro lugar os nossos parabéns porque completou, no dia 6 de julho, 21 anos da sua ordenação, data que assinalou com uma Eucaristia no Colégio.

Pe. João Norton de Matos – Muito obrigada. Foi uma alegria poder ter celebrado neste dia na igreja histórica dos jesuítas na Madeira.

Jornal da Madeira – Então que realidade é esta do arquiteto que não sabia que viria a ser padre?

Pe. João Norton de Matos – Aconteceu [risos]. Estando em arquitetura e muito apaixonado por arquitetura, dediquei-lhe todo o meu coração durante muito tempo. Estava na Faculdade de Arquitetura de Lisboa e ao mesmo tempo já a trabalhar num gabinete de arquitetura. Venho de uma família católica, encontrei um colega de curso que me interpelou a aprofundar a fé. Depois entrei em grupos de jovens, em alguma atividade social, algum aprofundamento bíblico. Conheci os Jesuítas experimentei os Exercícios Espirituais de santo Inácio de Loiola. Identifiquei-me! Nasceu um desejo, que eu primeiro rejeitei, porque gostava da minha profissão e estava no melhor dos meus vinte e poucos anos, com futuro pela frente. Contudo, há questões que não nos deixam e que pedem aprofundamento, e decidi fazê-lo.

Jornal da Madeira – Alguma razão especial para ter optado pelos Jesuítas?

Pe. João Norton de Matos – Não algo apenas vindo de fora. Mas foi no contexto de grupos de jovens em que conheci os Jesuítas, identifiquei-me com eles. Identifiquei-me com a linguagem, a espiritualidade, com as possibilidades de cruzamentos entre a fé e a cultura, que era uma coisa que me interessava. E pronto, foi crescendo dentro um desejo que não me largava.

Jornal da Madeira – Esteve na Diocese de Funchal para, entre outros afazeres, realizar duas conferências na paróquia da Sagrada Família. Uma foi sobre “As Igrejas na História” e outra a propósito d’ “A Igreja Hoje e as Igrejas de hoje”. O que pretendeu transmitir?

Pe. João Norton de Matos – O contexto desta vinda ao Funchal parte de um convite do Frei Nélio Mendonça, franciscano, para acompanhar, desde o início, o processo de conceção duma nova igreja. Aproveitando as festas da paróquia da Sagrada Família, pensamos nestas conferências em que o público alvo era a paróquia, procurando ajudar as pessoas a perceber o que é uma igreja hoje.

“Os documentos do Concílio dizerem pouco acerca da igreja-edifício, mas dizem muito acerca do novo modo como a Igreja se compreende a si mesma: uma Igreja mais “comunhão”, mais sinodal, menos hierarquia, menos clerical”.

 

Jornal da Madeira – E o que é a igreja hoje?

Pe. João Norton de Matos – A igreja de hoje vem na continuidade da Tradição. A Tradição tem continuidades e novidades, porque o Espírito está vivo e a história é dinâmica. Um momento muito importante foi a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. É uma reforma de grande profundidade herdada dos movimentos patrístico, bíblico, litúrgico, ao longo de toda a primeira parte do Séc. XX, e um momento de Pentecostes eclesial, apoiado numa teologia renovada. Os documentos do Concílio dizerem pouco acerca da igreja-edifício, mas dizem muito acerca do novo modo como a Igreja se compreende a si mesma: uma Igreja mais “comunhão”, mais sinodal, menos hierarquia, menos clerical. Chegou então o momento de pensar uma reorganização do espaço das igrejas de modo mais adequado aos documentos do Concílio, sobre a Igreja, sobre a liturgia, o ministério, os sacramentos. A nova teologia espelha-se necessariamente na organização do espaço litúrgico das igrejas. Surgiu pelo menos a possibilidade de fazer algumas experiências práticas. Quando a comunidade se reúne torna visível a própria Igreja e a razão pela qual se reúne, a celebração da fé, a assembleia reunida, a própria igreja-edifício ganha uma dimensão sacramental, torna-se imagem visível e eficaz da Igreja. A Igreja de Cristo é, fermento na massa, é de algum modo invisível.

Jornal da Madeira – Estamos a falar da Igreja enquanto instituição, mas há depois a igreja, enquanto local onde a comunidade se reúne. A comunidade/sociedade que dá forma à arquitetura e vice-versa…

Pe. João Norton de Matos – O que é interessante é que, se olharmos para a história das igrejas e para a sua arquitetura vemos que há uma evolução cultural e cada tempo tem a sua expressão, temos os vários estilos: românico, gótico, barroco. Agora, o que é mais surpreendente é pensarmos que a própria Igreja também evolui, a mesma Igreja dos apóstolos adquire diferentes fisionomia, há na história diversos modelos de igreja, a igreja nascente é uma igreja doméstica, a igreja imperial, a partir do Séc. IV é mais pública, tem edifícios mais monumentais e há depois outros modelos de igreja, gregoriano, tridentino. A mesma Igreja respondendo às condicionantes culturais do seu tempo. O Concílio Vaticano II aponta para um novo modelo de igreja, com um certo retorno às fontes, refontalização e aggiornamento tornaram-se palavras e atitudes chave, em vista duma certa “atualização”, procurando uma igreja de novo mais comunhão, e agora mais sinodal.

“a própria Igreja também evolui, a mesma Igreja dos apóstolos adquire diferentes fisionomia, há na história diversos modelos de igreja, a igreja nascente é uma igreja doméstica, a igreja imperial, a partir do Séc. IV é mais pública, tem edifícios mais monumentais e há depois outros modelos de igreja, gregoriano, tridentino”.

Sendo que estamos na era do digital que influências poderá esta sociedade ter na arquitetura religiosa?

Pe. João Norton de Matos – Esse é um grande desafio. Quer dizer, a Igreja é sempre a mesma, importa é que se inculture, se adapte historicamente. Mas uma simples adaptação não serve, tem de ser também uma inculturação profética. A Igreja dialoga necessariamente com o seu tempo, respeitando e levando a sério os destinatários da sua mensagem e as suas circunstâncias culturais que não são alheios a essa mensagem. Como se a cada desafio dos novos tempos o evangelho nos revelasse novos ângulos, não sem risco, mas validados por uma leitura de fé, um discernimento espiritual e pela coerência do conjunto da fé. Agora, quando olhamos parta uma sociedade digital, ainda não sabemos muito bem o que isso é. Sabemos que somos corpo e que cada vez valorizamos mais o corpo, que espaço ocupa o corpo, a matéria, a realidade tátil, a profundidade dos símbolos, no mundo digital? Penso que a liturgia é uma realidade totalmente diversa relativamente ao mundo virtual. Pensar numa igreja para hoje… O problema hoje é que o padrão principal das nossas igrejas históricas hoje responde ao programa tridentino, as igrejas que nos chegam do Séc. XX têm esse programa. A profundidade com que o Concílio Vaticano II pensou a Igreja e a liturgia implica modificações nas igrejas ou a construção de igrejas com um programa novo. O programa continua a ser a celebração dos sacramentos, mas muita coisa mudou a começar pela forma e a disposição da assembleia, que é diferente conforme se acentua a hierarquia ou a participação de todos. Quer dizer, fizeram-se modificações imediatas, felizmente, o padre já não celebra de costas, celebramos numa língua viva, foram melhoradas as leituras que se fazem. No fundo, criaram-se condições de uma maior participação e de proximidade, simplicidade que vão modelar tanto a igreja como a arquitetura, porque são o espelho uma da outra. Mas este processo ainda não está completo.

Jornal da Madeira – A beleza importa quando estamos num espaço de oração, de contemplação?

Pe. João Norton de Matos – Sim, estou de acordo. A beleza é uma dimensão muito importante da vida e na vida da Igreja também. O sentimento estético da beleza retira-nos de um registo utilitário, quotidiano, dá uma outra qualidade ao espaço e ao tempo, a beleza cria uma atmosfera propícia à abertura à transcendência. O magistério recente tem reforçado a necessidade que a Igreja tem da beleza, e consequentemente do trabalho dos artistas. Mas há um problema de fundo, não na experiência da beleza mas no seu conceito, às vezes tão datado que é rejeitado pelos artistas. É importante que a arte responda aos tempo de hoje, admiramos a arte doutros tempos, mas precisamos também da arte do nosso tempo. Já vivemos numa sociedade unificada em torno da cultura cristã, hoje vivemos numa sociedade secularizada, plural. Podemos criar um mundo simbólico à parte, mantendo as coisas como eram, ou abrir-nos como nos primeiros tempos, não sem riscos a uma permeabilidade criativa, mais evangélica e mais de acordo com a história da arte cristã dos primeiros tempos. Tudo isto torna as coisas mais difíceis, não impossíveis, mas mais difíceis. Hoje, muitos setores da Igreja não estão sensibilizados a trabalhar com os artistas, e muitos destes têm também dificuldades em trabalhar para a Igreja. Os melhores artistas só trabalham para quem valoriza as artes, e não as subjuga a outros interesses. Porque entre as artes e a religião, mais ainda com a fé cristã há convergências intrínsecas – quem quiser dar desconto a estas palavras leia o magistério dos papas sobre este assunto. Mas estas pontes já se fizeram, são possíveis e dão bons frutos. Os tempos mudaram, um trabalho, por exemplo, como os tetos da igreja do Colégio já não é o que os artistas fazem hoje. Os artistas procuram outros caminhos. E dentro da tradição da Igreja, há, sem dúvida a teologia da beleza, mas há também caminhos proféticos, poéticos e sapienciais que abrem outras possibilidades às artes do nosso tempo. Aliás, em contraste com a beleza grega, que era uma beleza de harmonia e da forma, a tradição cristã vê como clímax da beleza a Cristo crucificado, a beleza como ferida, como inquietação a que muitos artistas contemporâneos são mais sensíveis. A estagnação da arte cristã conduz ao kitsch na arte e existe uma sensibilidade religiosa cristã correspondente ao kitsch, quando vive do cliché, quando lhe falta espessura existencial, profundidade. Podemos assim entrar num diálogo fecundoo necessário com os artistas. Entreguemos a saúde a bons médicos e a arte a bons artistas.

“a beleza principal da igreja, são as suas pedras vivas, que são as pessoas. Há uma beleza própria na comunidade. Talvez a grande proposta da reforma litúrgica do Vaticano II, no modo de organizar o espaço litúrgico é retribuir à assembleia um lugar principal”

Jornal da Madeira – Mas o mais importante numa igreja continua a ser as pessoas?

Pe. João Norton de Matos – Eu diria que a beleza principal da igreja, são as suas pedras vivas, que são as pessoas. Há uma beleza própria na comunidade. Talvez a grande proposta da reforma litúrgica do Vaticano II, no modo de organizar o espaço litúrgico é retribuir à assembleia um lugar principal. Portanto, a comunidade cristã, o corpo de cristo é o sujeito da liturgia. O que vemos ainda na atualidade que é uma certa separação entre o povo, que está na nave e o clero que está no presbitério. Mas hoje compreendemos que o santuário é o lugar da Assembleia Santa, que é Corpo de Cristo, e não fora dela. Isto significa que o altar pode vir para mais próximo da assembleia de modo que esta o envolva, o circunde. Isto, de resto, favorece a intenção do Concílio duma participação dos fiéis, mais ativa, com mais qualidades de proximidade, de comunicação, de distribuição dos diversos ministérios litúrgicos. A beleza da liturgia não vem tanto da decoração, mas de um todo que é a própria liturgia como arte. Claro que depois pode haver devoções, altares laterais, e demais questões patrimoniais.

Jornal da Madeira – Falou da necessidade de haver diálogo com os artistas. Eles têm existido, as pessoas têm se reunido em torno destas questões?

Pe. João Norton de Matos – Houve um contexto, no passado, onde isso aconteceu de uma forma muito viva. Mas agora vivemos outra situação. O contexto anterior teve muito a ver com o Movimento de Renovação da Arte Religiosa, prévio ao Vaticano II, anos 50, em que todos estes temas eram muito vivos e debatidos. Depois do Concílio, houve uns anos de adormecimento e hoje tenta-se renovar este tipo de encontros. Falamos de algumas obras marcantes de grandes arquitetos que fizeram igrejas que foram marcos importantes, mas pretende-se ir mais longe. Estou em contacto com um grupo informal em Lisboa, ÁTRIO, formado por arquitetos e artistas que se juntam para partilhar e estudar a arquitetura religiosa, que tem organizado visitas a igrejas modernas, exposições sobre arquitetura e espaço litúrgico, um encontro anual para debater estes assuntos. Neste momento, está a ser organizado um seminário de arquitetura e espaço litúrgico na Brotéria, e sai estes dias um dossier da revista Lusitana Sacra dedicado a este tema. Gostava que este fosse um ponto de encontro entre todos os intervenientes: arquitetos e artistas, leigos, padres, seminaristas. O Concilio Vaticano II pediu que se desse incentivo à formação litúrgica de todos os cristãos e também neste campo das artes que procedem à liturgia. Claro que isto tem muitas inércias, não é fácil mas é necessário.