Pe. Estêvão Fernandes: “O estudo como serviço à Igreja é uma descoberta progressiva e exigente”

D.R.

O padre Estêvão Fernandes, da Diocese do Funchal, foi nomeado reitor do Pontifício Colégio Português em Roma.  Numa breve passagem pela região, o Jornal da Madeira entrevistou este sacerdote que atualmente está a realizar o doutoramento na área dos Bens Culturais da Igreja na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Jornal da Madeira – Começava por pedir que nos esclareça o que é o Pontifício Colégio Português? 

Pe. Estêvão Fernandes – O Pontifício Colégio Português é uma instituição da Conferência Episcopal Portuguesa em Roma, fundado em 1900 por iniciativa dos Viscondes de S. João da Pesqueira, de D. António Barroso, bispo de Meliapor, e de outros leigos e sacerdotes, com o objetivo de oferecer um espaço em Roma onde os padres portugueses e dos países lusófonos pudessem prosseguir os seus estudos de especialização nas várias áreas do saber teológico. Ainda que tenha nascido vocacionado para os países de língua portuguesa, ao longo das últimas décadas o Colégio passou a acolher sacerdotes vindos de outros quadrantes do mundo. O Colégio terminou este ano com uma comunidade de 40 padres: 20 de Portugal, 9 da Coreia do Sul, 5 de Angola, 2 de Timor-Leste, 2 do Chile, 1 da India e 1 do Japão. Nesta casa, os sacerdotes prosseguem os seus estudos de especialização nas mais variadas áreas do saber: teologia, história, direito, arte, bioética, filosofia, liturgia, antropológica. É, portanto, uma comunidade quem tem como vínculo fundamental o ministério presbiteral, mas que é diversificada quer a nível académico quer também a nível cultural.

Jornal da Madeira – Qual é a razão das dioceses pedirem a alguns sacerdotes para se especializarem nessas áreas. Qual a importância do estudo para um sacerdote?

Pe. Estêvão Fernandes – A missão da Igreja é uma missão encarnada, que deve levar o Evangelho aos vários âmbitos do meio em que se insere. É por isso importante que a Igreja nunca descure esta necessidade de continuar a preparar sacerdotes e quem sabe um dia também leigos para poderem aprofundar e especializar os seus estudos, de modo a permitir um diálogo com o ambiente concreto em que se insere, com a sociedade a quem é chamada a servir com a luz do Evangelho. As várias especializações académicas, a que se junta a identidade intercultural do nosso colégio, e também a experiência de fraternidade sacerdotal permite, quer uma escuta mais competente do mundo contemporâneo, mas também um humilde diálogo com as realidades concretas do nosso tempo, de modo a poder perscrutar a presença discreta do Evangelho, e ao mesmo tempo apresentando-o como proposta de sentido e de vida. É fundamental e necessário para a igreja este aprofundamento do saber para podermos servir o povo de Deus da maneira mais preparada possível.

“É por isso importante que a Igreja nunca descure esta necessidade de continuar a preparar sacerdotes e quem sabe um dia também leigos para poderem aprofundar e especializar os seus estudos, de modo a permitir um diálogo com o ambiente concreto em que se insere, com a sociedade a quem é chamada a servir com a luz do Evangelho”

Jornal da Madeira – É possível entender o estudo e o aprofundar de conhecimentos como um serviço na igreja?

Pe. Estêvão Fernandes – Nos últimos anos os sacerdotes que são enviados para prosseguirem os seus estudos em Roma não vêm diretamente da Universidade. Todos eles provêm já de uma experiência pastoral muito intensa quer com as comunidades que serviram, quer com o próprio presbitério a que pertencem. A chegada a Roma, nem sempre é fácil, pois de uma vida pastoral tantas vezes agitada, passa-se a uma vida mais pacata, concentrada praticamente na sua totalidade ao estudo e aos livros. Costumamos dizer aos sacerdotes que aquela é, agora a sua missão pastoral, tão necessária à Igreja como qualquer outra que outros colegas desempenham. Perceber o estudo como uma missão eclesial entre outras é fundamental para o serviço que prestaremos às Igreja com as competências que recebemos. Se assim não for, corremos o risco de desvalorizar o empenho que colocamos no estudo que fomos enviados a realizar. O Colégio tenta proporcionar tudo aquilo que é necessário para que o estudo seja também vivido como missão eclesial fundamental, com igual dedicação e espírito presbiteral, como outra missão qualquer dentro dos nossos presbitérios.

Jornal da Madeira – A nível da oferta formativa, considera que as universidades ligadas à Igreja acompanham os tempos e respondem às necessidades da atualidade?

Pe. Estêvão Fernandes – O leque da formação oferecida em Roma é muito vasto e variado. Partindo da amostra que temos no Colégio Português neste momento, as áreas de estudo que vão desde a bioética – em temáticas como neurociências, na inteligência artificial ou manipulação genética –  à teologia, nos seus mais variados âmbitos de especialização, o direito, a antropologia, a exegese bíblica, a sociologia, a filosofia, mas temos também a pastoral, a liturgia, a história, a música, temos as artes e os bens culturais, uma área também muito importante hoje no diálogo da igreja com a cultura. Portanto, todas estas áreas, sendo realizadas em Roma, num ambiente eclesial interdisciplinar e intercultural muito interpelador e formativo, permite olhar para a realidade concreta com outros olhos. A tudo isto se junta o facto de cada sacerdote já trazer consigo uma experiência pastoral concreta, que permite ancorar os seus estudos nas realidades concretas atuais com que se debateram na atividade pastoral. O facto de acompanharmos o pulsar concreto da história contemporânea desafia-nos também a procurar pontes e encontros com essa realidade.

“No âmbito escatológico (…) a diocese do Funchal tem uma iconografia de esperança e nunca uma iconografia de condenação. Isto é muito interessante tendo em conta que a história multisecular da Diocese do Funchal é fundamentalmente marcada pela catequese tridentina”

Jornal da Madeira – Também passou por essa experiência ao chegar a Roma, de ingressar na universidade para estudar. Como decorreu esse tempo?

Pe. Estêvão Fernandes – Começo do princípio. Desde 2014, no contexto dos 500 anos da Diocese do Funchal e do Congresso Internacional de História que realizamos, que o então bispo do Funchal, D. António Carrilho, dialogava comigo sobre o desafio de partir para Roma e prosseguir estudos. Durante alguns anos fomos aprofundando o assunto, até que durante 2017 concluiu-se ter chegado a hora de partir. Em relação à especialidade, o bispo diocesano sempre deixou ao meu critério, ainda que ambos concordássemos sobre a necessidade sobre a necessidade de especialização numa área que fosse importante e necessária para a diocese e para a própria região. Depois de várias pesquisas sobre a oferta formativa em Roma, chegamos à conclusão que seria uma mais valia uma especialização com mestrado e doutoramento nos Bens Culturais da Igreja, que não é só a história da arte, mas que abrange em 360 graus, aquilo que é identidade dos Bens Culturais da Igreja: bibliotecas, arquivos, bens móveis, bens imóveis, museus, a que se juntam depois as disciplinas auxiliares da história, a paleografia, arquivística, codicologia, etc, mas também disciplinas como a história da arte cristã, a arqueologia, a museografia e museologia, a catalogação, a iconografia e a teoria do restauro. A tudo isto ainda se junta a arquitetura, o direito dos bens culturais, bem como a valorização do património e a relação entre arte, liturgia e evangelização. Foi com este percurso académico que me deparei quanto cheguei a Roma em 2017, uma área que tinha pouco a ver com teologia, ou com a pastoral e muito menos com secretaria episcopal, serviços que tinha desempenhado antes, ainda que sobretudo no âmbito do serviço na secretaria episcopal me tivesse deparado com alguns destes assuntos. Não posso negar que o retomar uma vida de estudo depois da experiência pastoral foi difícil, exigente e as vezes até frustrante. A descoberta do estudo como serviço à Igreja é uma descoberta progressiva e exigente. Como se diz habitualmente, primeiro podemos estranhar depois acabamos por entranhar. E foi isso que me aconteceu! Era e é um curso relativamente novo, frequentado sobretudo por leigos italianos, nós éramos três padres quando iniciamos o curso, sendo eu o único português. Passados estes anos, o ano integrativo e o mestrado foram já realizados e concluídos em tempos pandémicos, com a surpresa do tema escolhido para o mestrado – A Iconografia escatológica na Diocese do Funchal – ter sido um laboratório de esperança muito intenso no âmbito dos tempos difíceis da pandemia.

Jornal da Madeira – Quais as principais conclusões que retirou do seu estudo sobre a diocese do Funchal?

Pe. Estêvão Fernandes – A escatologia é comumente entendida como aquelas realidades que estão para além da morte. Em termos académicos tinha sido estudada de maneira parcial e separada – meditação sobre a morte, purgatório, limbo, inferno. Assumi o desafio de partir do tema teológico no seu todo, para perceber de que modo a teologia dessas realidades foi transferida para a expressão artística. No âmbito escatológico ou das realidades futuras na sua grande maioria, a diocese do Funchal tem uma iconografia de esperança e nunca uma iconografia de condenação. Isto é muito interessante tendo em conta que a história multisecular da Diocese do Funchal é fundamentalmente marcada pela catequese tridentina, que acentuava muito a dinâmica, se quisermos, da condenação.

Iconograficamente na diocese do Funchal, desde a escultura à iconografia, ou até à arquitetura, aquilo que temos presente é sobretudo uma dinâmica que convida a um percurso que sublinha uma dimensão de esperança, ancorada na iconografia flamenga da Encarnação, e desenvolvida quer nas várias representações do purgatório – antecâmera da salvação, ou até particularmente na arquitetura, que tem na igreja paroquial do Livramento, a sua expressão mais particular, como citação do Apocalipse, a cidade que desce do céu! Esta identidade escatológica antecipa de certo modo aquilo que mais tarde será a perspetiva do Concílio Vaticano II, onde a mensagem escatológica parte da história da salvação como caminho de esperança que Deus oferece à humanidade. Esta conclusão acabou por ser uma surpresa no âmbito do departamento de Bens Culturais da Universidade Gregoriana, uma vez que a expressão artística escatológica não acompanha uma linha tridentina marcada fundamentalmente pela pregação do medo, mas sobretudo apresenta a esperança como gatilho de conversão.

“Creio que o dinamismo sinodal que estamos a viver só pode ser um dinamismo de Encontro. Digo Encontro com letra maiúscula, que significa mútua escuta, mútua aceitação e sobretudo mútua valorização”.

Jornal da Madeira – Agora está a frequentar o doutoramento. O que vai estudar?

Pe. Estêvão Fernandes – Para o doutoramento optei por mudar de área específica para alargar também o leque do conhecimento. Tomando um método novo, lançado pelo arquiteto milanês Andrea Longhi, que é também o meu orientador, estou a desenvolver a investigação sobre a arquitetura paroquial contemporânea na diocese do Funchal sobretudo do ponto de vista eclesiológico que não parcializa o estudo do património, que muitas vezes apenas valoriza os grandes artistas ou alguns exemplares mais expressivos de um certo estilo, mas permite estudar toda a expressão arquitetónica da igreja para perceber a sua identidade. Trata-se sobretudo de conhecer, estudar e perceber o agir arquitetónico da igreja no seu todo e por isso destacar e sublinhar uma visão uma visão integral daquilo que é o património arquitetónico da diocese do Funchal, descobrindo os seus protagonistas e a identidade da nossa arquitetura paroquial específica que, como diziam os arquitetos do Movimento de Renovação da Arte Religiosa, não pode estar senão na Madeira.

Jornal da Madeira – Ao falar de cultura, como vê o contributo dos bens culturais à dinâmica sinodal que a igreja está a viver neste momento?

Pe. Estêvão Fernandes – Uma das principais exigências da especialização em Bens Culturais da Igreja, é a de um olhar interdisciplinar competente e dialogante. Os bens culturais da Igreja ao longo da sua história sempre foram uma plataforma de encontro, ou se quisermos tomar uma expressão de Ives Congar, sempre testemunharam uma continuidade na descontinuidade em relação ao tempo e à cultura em que nasceram e foram crescendo. Creio que o dinamismo sinodal que estamos a viver só pode ser um dinamismo de Encontro. Digo Encontro com letra maiúscula, que significa mútua escuta, mútua aceitação e sobretudo mútua valorização. E aqui não podemos entrar em equações de cedências, porque nunca será disso que se trata. Trata-se sobretudo de redescobrir, entender e valorizar o essencial do património de fé que recebemos e que somos chamados a transmitir a todos. Na génese de todos os bens culturais da Igreja está sempre a dimensão do encontro. Uma igreja que se constrói tem presente a dimensão do encontro vertical, mas também horizontal. Vertical com Deus, horizontal com o povo de Deus. Uma obra de arte que se cria, nasce do encontro dócil do artista com a inspiração, mas que depois de criada é plataforma de encontro consigo próprio, com Deus e quantas vezes também com os próprios irmãos. Creio que a categoria de Encontro, e sublinho Encontro com letra maiúscula, e nas suas mais variadas declinações é uma categoria fundamental da dinâmica sinodal, mas é ao mesmo tempo uma categoria fundamental na valorização dos Bens Culturais da Igreja.

Jornal da Madeira – Como é possível desenvolver a dinâmica do encontro? 

Pe. Estêvão Fernandes – Nós encontramo-nos porquê? A resposta mais básica é porque andamos desencontrados. Mas a dinâmica de encontro é por si só já expressão de uma motivação interior de quem percebe que não pode continuar a caminhar assim! E por isso creio que primeiro que tudo o resto o primeiro elemento a valorizar é esse mesmo: a motivação interior de quem se percebe desencontrado, de quem procura um sentido, de quem tentar reconstruir uma resposta diferente aos seus anseios. Nós entramos em dinamismo sinodal porque tentamos procurar caminhos para os tempos que vivemos. Mas como um artista se põe à escuta da inspiração para poder criar a obra de arte, nós também quando nos encontramos em sínodo, colocamo-nos à escuta sincera, volto a dizer, de mútua valorização e de mútuo acolhimento. O sínodo, é verdade, implica também dinamismos de decisão, mas os dinamismos de decisão não podem ser dinamismo de exclusão. Aí, creio que a forma como se desenvolveram os bens culturais da igreja pode ser uma inspiração pedagógica para aquilo que deve ser uma identidade sinodal que todos somos chamados a cultivar. Neste âmbito, ao longo da sua milenar história, a Igreja sempre soube ser contemporânea de cada tempo sem perder a sua identidade, promovendo o encontro por via do humanismo, da cultura, do culto, da pastoral e com tudo isto tornando-se generosa servidora de sentido, a partir de Jesus Cristo, à humanidade de cada tempo. Não creio que tivéssemos perdido essa capacidade, mas acredito que precisamos urgentemente de encontrá-la, não fossemos nós discípulos d’Aquele que, encarnando, tornou-se o testemunho verdadeiro e genuíno do encontro entre o divino e o humano.

“a Igreja sempre soube ser contemporânea de cada tempo sem perder a sua identidade, promovendo o encontro por via do humanismo, da cultura, do culto, da pastoral e com tudo isto tornando-se generosa servidora de sentido, a partir de Jesus Cristo, à humanidade de cada tempo”.

Jornal da Madeira – A nível diocesano, encontramos referências a uma diminuição da prática religiosa. A partir da sua experiência, qual seria o contributo dos bens culturais da Igreja para a dinâmica pastoral? 

 Pe. Estêvão Fernandes – Muitas vezes esta questão da prática religiosa é tema de debate e diálogo entre nós padres, no Colégio Português, até porque todos nós viemos já de uma experiência pastoral no terreno. O que é que nós queremos dizer quando falamos em prática religiosa? Somente a presença nos sacramentos? Somente a participação no percurso normal de catequese? Não podemos reduzir a prática religiosa somente à vida sacramental ou catequética. Se no passado estas podiam ser categorias de perceção da vida religiosa, mas hoje não são mais, e creio que nem podem ser somente o critério de avaliação ou definições pastorais. E com isto não estou a dizer que não são importantes nem pouco mais ou menos. Sim, a vida sacramental é central para um cristão, a catequese é fundamental, mas o acompanhamento desinteressado é se calhar o mais essencial, o arriscar ir ao encontro é mais do que nunca decisivo. Hoje no norte e centro da Europa é já doloroso o debate sobre as igrejas vazias. Contudo, a história dos edifícios de culto cristão assinala que eles nasceram à volta do altar dos sacrifícios, no Átrio dos Gentios no Templo, envolvendo aqueles que estavam. Creio que não nos bastam as portas das igrejas abertas ou fechadas se nós continuarmos do lado de dentro. As ciências antropológicas e sociológicas sublinham hoje mais do que nunca que a dimensão religiosa não desapareceu da sociedade contemporânea. Neste contexto, e olhando para a minha área de especialização, os bens culturais, primeiro devem provocar o sentido, a interpelação, o encontro. Depois, devemos ter a paciência suficiente sobretudo para acompanhar: acompanhar as questões, acompanhar as dúvidas, acompanhar as provocações e a partir daí então fazer caminho. Certamente um caminho que pode levar ao encontro comunitário na igreja nos seus dinamismos sacramentais e particularmente na celebração festiva da eucaristia. Mas quando isso não acontecer, como discípulos missionários que somos, isso não nos dispensa de continuar a acompanhar, continuar a ser portadores de sentido para as grandes questões do nosso tempo e às grandes questões dos nossos contemporâneos.

Jornal da Madeira – Como poderá ser feito este acompanhamento?

Pe. Estêvão Fernandes – O desafio que é feito à igreja hoje é estar presente e presente no meio do mundo, acompanhando as suas questões, os seus desafios, os seus sofrimentos, propondo, a tempo e a contratempo, Cristo e o seu Evangelho como luz para o seu caminho. Acho que é fundamental abrirmos o leque de propostas para acompanharmos a experiência religiosa, a experiência cristã hoje.  Nisso até o nosso Museu de Arte Sacra dá-nos um testemunho muito interessante. A grande quantidade de alunos e jovens das nossas escolas que são acolhidos e acompanhados pelos serviços educativos do nosso Museu de Arte Sacra que lhe falam de uma presença do evangelho nesta terra a partir da experiência artística, são o testemunho concreto que é possível continuar a propor o Evangelho. As propostas temáticas que o nosso Museu de Arte Sacra tem oferecido à nossa diocese, e se calhar às vezes não valorizadas a nível pastoral, são elementos simples de uma tentativa de evangelização propositiva e não impositiva muito interessante e de grande qualidade.

É claro que se formos a olhar apenas para a participação na Eucaristia, sim, podemos ficar desiludidos, porque podemos nos deparar por um decréscimo acentuado da prática dominical. Por isso creio ser importante abrirmos a nossa grelha de leitura além da pastoral dos sacramentos, para uma leitura mais antropológica e sociológica, perscrutando e deixando-nos tocar, envolver e desafiar por uma pedagogia que acompanha, que interpela, mas também que acolhe e que se deixe interpelar pelas grandes questões dos nossos contemporâneos. A identidade religiosa e cristã da nossa Diocese não desapareceu, e há vários sinais que testemunham claramente isso. Creio ser necessário percebê-la nas suas expressões muito próprias, acompanhá-la, e recuperar o seu sentido mais profundo. É se quisermos a pedagogia paulina do areópago. Sei, por experiência própria, que é muito mais difícil e muito mais exigente humana e espiritualmente falando. Mas a longo prazo creio podermos ter sinais de esperança concretos.

“As ciências antropológicas e sociológicas sublinham hoje mais do que nunca que a dimensão religiosa não desapareceu da sociedade contemporânea”

Jornal da Madeira – Ao longo deste ano, dois eventos marcaram a igreja em Portugal: o relatório da comissão independente sobre os abusos de menores e a preparação das Jornadas Mundiais da Juventude. Que leitura faz destas realidades?

Pe. Estêvão Fernandes – Eu acho que são dois eventos importantes para a igreja e particularmente para a nossa Igreja Portuguesa. Um aluno de bens culturais da Faculdade de História, confronta-se naturalmente com isto. É importante nos confrontarmos com a nossa história, seja ela muito boa, ou também muito má. Porque, como nos dizem os professores de história da Igreja, a primeira lição que a nossa história nos dá, é a lição da humildade. E a humildade é ver a partir de baixo, e não a partir de cima. Portanto, apesar de ter sido e ser ainda doloroso, apesar de ter sido e ser ainda dramático, esta atitude da igreja católica portuguesa foi também uma atitude libertadora de alguém que se encontra com a sua história com humildade e tenta reconstruir e reconstruir-se de novo. Reconhecendo o desafio de continuar a acompanhar aqueles que mais sofrem e especialmente aqueles que sofreram e sofrem também a partir daquilo que foram as ações dos seus membros.

É importante que ao lado deste acontecimento dramático também aconteça o acontecimento das Jornadas Mundiais da Juventude, que vale não só para o encontro em si, mas tem de valer por aquilo que é a preparação, do criar relação, do criar encontro, do criar interações, do ser capaz de nos centrar no essencial, o Evangelho.

Jornal da Madeira – As Jornadas Mundiais da Juventude podem abrir a Igreja aos jovens?

Pe. Estêvão Fernandes – O D. Américo Aguiar diz muitas vezes isso: as jornadas valem pelo encontro com o Papa, é verdade, mas valem também por aquilo que é a capacidade de caminharmos em conjunto, de corresponsabilidade, levando e interpelando aqueles que estão nas periferias, chamando os jovens a assumirem responsabilidades nesta preparação, a tomarem a palavra, a serem protagonistas desta preparação, e ligando tudo isto ao encontro com Cristo. Se não for assim, acabamos por fazer uma preparação das jornadas profundamente clerical. Ou seja, fazemos as jornadas para os Jovens sem serem os jovens os seus principais protagonistas. As Jornadas Mundiais da Juventude, que pressupõem uma preparação longa, permitem envolver os jovens, para também neles criar competências de interação com o mundo, de interação uns com os outros e a partir daí proporcionar-lhes um encontro com Cristo e torná-los capazes de replicar essa mesma experiência nos seus contextos próprios. O encontro com o Papa é significativo, mas mais significativo será a experiência que estes jovens já tiveram com Cristo durante a preparação, e que serão capazes de multiplicar posteriormente. O encontro significativo com o Papa em Lisboa é só mais uma etapa revitalizadora, desta experiência global mais marcante.

O acontecimento das Jornadas Mundiais da Juventude em Lisboa é um acontecimento importante para o nosso país quando se fala muito da juventude, que parece que estar alheada dos nossos âmbitos. A juventude hoje não se satisfaz somente com aquilo que é a missa ao domingo, ou que são alguns encontros de meditação e de reflexão. A juventude hoje não se satisfaz somente com isso. Provavelmente esse será o ponto de chegada. Mas os jovens exigem hoje muito mais de nós: a paciência do acompanhamento, a paciência para as perguntas difíceis, a paciência para as desilusões, e sobretudo a certeza que nunca em nenhum momento deixaremos de estar ao lado deles. E essa foi também a experiência que fiz cá quando fui administrador paroquial e acompanhei os jovens quer na paróquia da visitação quer também nas Equipas Jovens de Nossa Senhora. Presença sempre! Mesmo que seja feita muitas vezes de desilusões e de perguntas incómodas. De certa forma, hoje somos enviados exatamente para essas perguntas incómodas, como Jesus também tantas vezes se confrontou com várias delas, mas sem nunca as recusar.

“os jovens exigem hoje muito mais de nós: a paciência do acompanhamento, a paciência para as perguntas difíceis, a paciência para as desilusões, e sobretudo a certeza que nunca em nenhum momento deixaremos de estar ao lado deles”.

Jornal da Madeira – Sabemos que já se encontrou com o Papa Francisco. Como foi esse encontro?

Pe. Estêvão Fernandes – Já me encontrei duas vezes: uma no âmbito das Jornadas Mundiais da Juventude, na entrega dos símbolos em Roma; e outra acompanhando o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, o D. José Ornelas. Toca-nos sempre a sua serenidade, a sua alegria, mas também uma característica muito bela do Papa Francisco que é o seu humor, humor fino. Mas de tudo toca-nos a sua serenidade, a sua docilidade e o seu diálogo franco, e sobretudo uma esperança que não desarma, no Evangelho, na Igreja, na humanidade. E este é um testemunho muito marcante que nos deixa.

Em jeito de conclusão e de forma mais descontraída. Quando nos encontramos com o Papa e dizemos que somos madeirenses, no diálogo entra sempre a referência ao vinho Madeira, de que o Papa é apreciador! E esse é um pormenor, também cultural, que nos aproxima a nós madeirenses, do Papa.

Jornal da Madeira – Obrigado, padre Estevão por esta conversa. Desejamos-lhe um ótimo trabalho, como reitor do Pontifício Colégio Português, ao serviço da igreja. Continue a desenvolver o seu doutoramento. A diocese beneficia muito com os seus estudos.