O bispo do Funchal presidiu esta quinta-feira, dia 8 de junho, na Praça do Município também conhecida por Largo do Colégio, à Missa campal da Solenidade do Corpo de Deus.
Uma festa que é celebrada 60 dias após o Pentecostes e que este ano voltou a ser aquilo que era de antes da pandemia, contando com a presença de centenas de madeirenses, mas também de muitos estrangeiros. Momento, para o prelado vincar, na sua homilia, que “precisamos hoje daquilo a que poderíamos chamar ‘uma verdadeira revolução eucarística’”.
Por outras palavras, prossegiu D. Nuno Brás, “precisamos de um mundo novo que viva à volta da Presença de Deus” e não, como estamos habituados, “a um mundo que gire à volta do dinheiro, do poder ou do prazer”, explicando ainda que “precisamos — cada um de nós e todos como sociedade — de nos deixarmos tocar e transformar por este Jesus que passa pelas ruas da nossa cidade”.
O mesmo é dizer que “precisamos de deixar que Ele nos alimente com a sua Vida, porque estamos demasiado envolvidos por uma cultura da morte” e de deixar que “a Presença do Senhor na Eucaristia nos cure do nosso egoísmo, para sermos capazes de olhar em primeiro lugar para o outro e para as suas necessidades — sabendo que nenhum de nós será feliz, será capaz de chegar à vida verdadeira, sem tornar felizes aqueles que se encontram ao seu lado”.
Precisamos, frisou ainda o bispo diocesano, de “deixar que a Presença de Jesus na Eucaristia nos faça olhar mais longe, libertando-nos do ritmo infernal do dia-a-dia, mostrando-nos que a vida humana não se limita a este pedaço de tempo mais ou menos curto em que habitamos este mundo, mas é, antes, uma vida para sempre — e que a Vida Eterna apenas a encontramos com Deus e em Deus”.
Por outro lado, “precisamos que a Presença de Jesus na Eucaristia nos ajude a respeitar melhor o mundo por Ele criado, e colocado à nossa disposição a fim de crescermos interior e exteriormente no Seu louvor, mostrando e proclamando as Suas maravilhas”.
Necessitamos ainda, assegurou, que “a Presença de Jesus na Eucaristia nos torne mais unidos uns aos outros, partilhando e vivendo a fé como irmãos. Precisamos que a Presença de Jesus na Eucaristia nos faça mais Seus e nos ajude a rezar, cada vez mais intensa e duradoiramente, e a perdoar a todos quantos nos ofenderam”.
No final desta celebração, lembrou D. Nuno Brás, “levaremos Jesus, realmente presente na Eucaristia, pelas ruas da nossa cidade do Funchal”. Uma oportunidade, sublinhou, para Lhe “pedirmos perdão por tantas vezes O ignorarmos e ofendermos. Por vivermos como se Ele não existisse ou não estivesse presente na nossa vida”.
Mas para Lhe pedir, “sobretudo, para as nossas Ilhas e para todo o nosso país, a graça de nos deixarmos envolver e transformar segundo a Sua vontade”. E peçamos-Lhe, também, “a força para contribuirmos para o bem daqueles que estão à nossa volta e para o bem de toda a nossa Região”, concluiu.
Nesta celebração, que contou com a presença de representantes das principais autoridades civis, militares, do clero e de D. António Carrilho, bispo emérito e ainda de representantes das Confrarias do Santíssimo Sacramento, os Institutos Religiosos de vida Consagrada, Secular, Sociedades de Vida Apostólica, Secretariados e Movimentos e Obras laicais, foram ainda instituídos vários novos ministros extraordinários da Comunhão.
Seguiu-se a habitual procissão até à igreja da Sé, que teve o seguinte percurso: Largo do Colégio, rua Câmara Pestana, Largo da Igrejinha, Avenida Zarco descendente, avenida Arriaga, rua conselheiro José Silvestre Ribeiro, Avenida do Mar, Avenida Zarco ascendente, Avenida Arriaga, Sé.
Todas estas artérias estavam ornamentadas pelos habituais tapetes de flores, este ano realizados pelas paróquias do Curral das Freiras, Graça e Visitação, Assomada e Achada de Gaula, Feiteiras, Rosário e Lameiros, Ponta Delgada, Boaventura e Fajã do Penedo.
Uma vez na Sé, coube ao vigário geral, cónego Fiel de Sousa agradecer a todos quantos deram o seu contributo para que esta solenidade fosse um louvor perfeito a Jesus Sacramentado. Agradeceu aos párocos e às comunidades envolvidas. Terminou agradecendo ainda à Banda Paroquial de São Lourenço à Banda Distrital do Funchal, ao coro, orientado pela professora Isabel Gonçalves e ao organista Nelson Quintal.
Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:
SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DO SENHOR (A)
Largo do Município, 8 de Junho de 2023
- “Como pode Ele dar-nos a Sua Carne a comer?”. A afirmação de Jesus que convidava a “comer a Carne do Filho do Homem” escandalizou os judeus do seu tempo. Escandalizou mesmo os discípulos. E continua a escandalizar muitos, mesmo cristãos. Por isso, olham para a Eucaristia como um símbolo, como algo que nos faz vagamente recordar Jesus; que nos faz recordar a Última Ceia e que continua hoje a reunir e a unir a comunidade: uma refeição religiosa, mas pouco diferente de todas as outras — “Faz-me sentir bem”, escutamos tantas vezes…
E, no entanto, todo este escândalo — que os evangelhos não hesitam em apresentar — demonstra que a intenção de Jesus ao instituir a Eucaristia ultrapassava o simbólico, para ousar atingir “o real”. Se assim não fosse, se a intenção de Jesus fosse apenas instituir mais um ritual, não teria escandalizado ninguém: o povo judeu conhecia bem as refeições pascais que reuniam a família num memorial da saída do Egipto e da entrada na Terra da Promessa.
“Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia”. Estas palavras, juntamente com aquelas outras da Última Ceia: “Isto é o Meu Corpo… Isto é o Meu Sangue. Fazei-o em memória de Mim”, tornam-se, por isso, luminosas. Elas oferecem verdadeira luz, indicando o lugar, a fonte onde os cristãos, desde o primeiro instante, encontraram o Senhor, a sua Presença após a ascensão ao Céu. E não devem (não podem) ser olhadas apenas como acenando a uma distante presença na memória ou no coração dos discípulos. Na Eucaristia, Jesus encontra-se presente. É um hoje, um aqui e agora. É, de verdade, o Seu Corpo que comungamos.
- De facto, depois da ressurreição e ascensão aos céus do Senhor, nunca os cristãos se sentiram abandonados, órfãos, sem a presença de Jesus. Pelo contrário: a presença eucarística do Ressuscitado preenchia toda a sua vida — transformava-a, dava-lhe sentido, enchia-a de forças que permitiam a conversão, a mudança radical de vida e, em consequência, a transformação de tudo o que se encontrava ao seu redor, chegando a mudar radicalmente os modos de pensar e de ser, o modo de viver da sociedade. A Eucaristia dava-lhes forças que permitiam enfrentar o martírio.
A Eucaristia e a Presença de Jesus que os cristãos experimentavam na sua celebração, permitiam que Deus fizesse parte do quotidiano e o mudasse dum modo radical, oferecendo a todos um novo e infinito horizonte de vida: aos escravos, permitia-lhes gozar a liberdade verdadeira; aos pobres, permitia-lhes erguer a cabeça diante das dificuldades e sofrimentos; aos ricos, convidava-os a repartir o que tinham; aos senhores, levava-os a respeitar os servos, a tratá-los como irmãos; aos servos convidava-os a viver o serviço com os mesmos sentimentos de Jesus; aos filósofos, convidava-os a pensar como Jesus (o Logos feito carne) é a chave, a lógica de todo o universo; aos governantes levava-os a pensar primeiro no bem comum, e só depois nos interesses próprios… a todos mostrava que é possível viver com novos critérios e ousar a civilização do amor.
A celebração da Eucaristia constituiu, por isso, uma verdadeira revolução — uma revolução realizada não a partir das forças humanas e da capacidade de mobilização dum líder, como sucedeu com Spartacus (o escravo que se revoltou contra o Império e que logo foi derrotado), mas uma revolução realizada a partir de dentro, de Deus, da Sua força e da Sua graça.
Uma revolução que, por isso, permanece vitoriosa. Uma revolução que efectivamente transformou, dum modo radical, as estruturas dum mundo velho e caduco, como era o Império Romano, dando origem a uma nova cultura, mais humana e mais divina, mesmo que (como todos sabemos) não isenta de pecados e de fragilidades. Tratava-se de viver conscientes de uma Presença divina, ao nosso lado e em nós — Presença que, colocando a claro (denunciando) o pecado humano, se tornava o princípio dum mundo novo: Deus connosco e em nós, “esperança de glória” (Col 1,27).
A Presença eucarística de Jesus; a possibilidade de estar com Ele, de O vermos e escutarmos; a graça de Ele mesmo nos tocar e transformar; de nos curar (hoje tal como sucedeu outrora nos caminhos da Galileia) é, de verdade, a mola transformadora do mundo — do nosso mundo interior, espiritual, e do mundo exterior em que vivemos, trabalhamos, existimos. Ao contrário, o esquecimento dessa Presença tem originado perdas incontáveis, retrocessos, não só na vida da fé mas também na civilização, na humanidade com que somos capazes de viver.
- Estamos habituados a que o mundo gire à volta do dinheiro, do poder ou do prazer. É assim o modo de viver do nosso tempo, que há muito abandonou a consciência de viver na Presença de Deus. Precisamos de um mundo novo que viva à volta da Presença de Deus.
É por isso que precisamos hoje daquilo a que poderíamos chamar “uma verdadeira revolução eucarística”. Precisamos — cada um de nós e todos como sociedade — de nos deixarmos tocar e transformar por este Jesus que passa pelas ruas da nossa cidade.
Precisamos de deixar que Ele nos alimente com a sua Vida, porque estamos demasiado envolvidos por uma cultura da morte. Precisamos de deixar que a Presença do Senhor na Eucaristia nos cure do nosso egoísmo, para sermos capazes de olhar em primeiro lugar para o outro e para as suas necessidades — sabendo que nenhum de nós será feliz, será capaz de chegar à vida verdadeira, sem tornar felizes aqueles que se encontram ao seu lado. Precisamos de deixar que a Presença de Jesus na Eucaristia nos faça olhar mais longe, libertando-nos do ritmo infernal do dia-a-dia, mostrando-nos que a vida humana não se limita a este pedaço de tempo mais ou menos curto em que habitamos este mundo, mas é, antes, uma vida para sempre — e que a Vida Eterna apenas a encontramos com Deus e em Deus. Precisamos que a Presença de Jesus na Eucaristia nos ajude a respeitar melhor o mundo por Ele criado, e colocado à nossa disposição a fim de crescermos interior e exteriormente no Seu louvor, mostrando e proclamando as Suas maravilhas. Precisamos que a Presença de Jesus na Eucaristia nos torne mais unidos uns aos outros, partilhando e vivendo a fé como irmãos. Precisamos que a Presença de Jesus na Eucaristia nos faça mais Seus e nos ajude a rezar, cada vez mais intensa e duradoiramente, e a perdoar a todos quantos nos ofenderam.
No final desta celebração, levaremos Jesus, realmente presente na Eucaristia, pelas ruas da nossa cidade do Funchal. Peçamos-Lhe perdão por tantas vezes O ignorarmos e ofendermos. Por vivermos como se Ele não existisse ou não estivesse presente na nossa vida. Mas peçamos-Lhe, sobretudo, para as nossas Ilhas e para todo o nosso país, a graça de nos deixarmos envolver e transformar segundo a Sua vontade. E peçamos-Lhe, também, a força para contribuirmos para o bem daqueles que estão à nossa volta e para o bem de toda a nossa Região.























