Conto: Que bom ouvir alguém chamar- me ‘ Mãe ‘!

D.R.

O campista e ti’ Juca conheceram -se naquela manhã de inesperado temporal…

O campista, um jovem simpático, magro,  com tatuagens e rabo- de- cavalo, fora autorizado, em finais de abril, a montar a sua tenda nas traseiras da Igreja, e ali dormia… saía de manhã cedo para algum  biscate de horta ou jardinagem e regressava a meio da tarde, mas o vento forte daquela noite e alguma chuva inesperada tinham- no obrigado a sair da tenda ao raiar do dia, para se abrigar debaixo do telheiro na entrada da Igreja. O pároco estava ausente e não havia outro abrigo.

Ti’ Juca, por seu turno, fora surpreendida pelo agravamento do tempo, já a caminho da Igreja, onde era sempre a primeira a entrar ao início da manhã.

O campista viu- a, lá do alto da Igreja, caminhando apoiada na bengala, mas com o chapéu de chuva já virado, e pensou na loucura daquela velhinha tão frágil  em sair de casa com um tempo como aquele…já a conhecia de vista, apesar de ter instalado ali a sua tenda, havia apenas uma semana. Era impossível não reparar nela, pois diariamente ali passava, de óculos escuros e bengala, malinha a tiracolo,  de manhã cedo e ao fim do dia.

A chuva ia engrossando e o vento, assobiando assustadoramente,  parecia agora varrer tudo, arrastando água,  troncos e arbustos estrada abaixo… não se viam carros ,nem mais ninguém.

De repente, numa das curvas, deixou de a ver, estranhou a demora e pensou se lhe teria acontecido alguma coisa. Mesmo sem qualquer impermeável  e debaixo da chuva intensa, o campista correu pela berma da estrada e foi encontrar a pobre senhora caída numa valeta, com a carteira aberta e espalhados os seus haveres, bem como a bengala, chapéu de chuva  e os  óculos escuros partidos.

–  Vovó, Você se machucou?- perguntou o campista, ajoelhado a seu lado.

– Meu filho, você é um anjo do céu! Veio p’ra me salvar…- respondeu – lhe ti’Juca, chorando.

Apesar de algumas esfoladelas, nada parecia ser grave, e com a ajuda do campista, a senhora, toda enlameada, pôde levantar- se… e recuperar os objetos pessoais . Só nessa altura, ele teve a certeza de que a senhora era cega.

Lentamente, muito lentamente,  e a princípio em silêncio, completamente encharcados, caminharam os dois de braço dado até à escada de acesso à Igreja. A senhora soluçava.

Procurando consolá-la, e amparando-a carinhosamente, o campista ofereceu – lhe os seus próprios óculos escuros. Claro que a descoberta do sotaque brasileiro em comum era mais um motivo de aproximação. Sentados agora, num banco de madeira junto da Igreja, por baixo do telheiro da entrada, começavam a conversar.

– Me chamo Danilo!

E o campista contou- lhe que tinha nascido e crescido numa favela, no morro da Baiana, no Rio de Janeiro,  depois aprendera jardinagem numa escola de missionários; sem família, na vagabundagem, vivendo nas ruas, fizera algumas asneiras lá pelo Brasil, andara metido na droga e resolvera, antes que fosse tarde, sair de lá, mudar de vida e vir viver e trabalhar em Portugal, porque queria muito conhecer Fátima, a tal terra onde ouvira dizer que Nossa Senhora aparecera a três crianças. Tinham- lhe dito entretanto, que desta igreja, onde o pároco era brasileiro,  ia partir uma peregrinação a pé no dia seguinte e ali se instalara, aguardando o momento de se juntar ao grupo.

Enquanto esperavam que o tempo melhorasse, Ti ‘Juca, combalida e agradecida pela ajuda do rapaz, também lhe contou  por sua vez, que vivera desde criança no Brasil, em S Paulo, para onde os pais tinham emigrado; aí casara com um português doze anos mais velho do que ela, sem que tivessem conseguido ter filhos; quando lhes assaltaram o restaurante por duas vezes, começaram a sentir- se inseguros e incapazes de manter o negócio aberto, tinham resolvido trespassá-lo, e regressar a Portugal,  para aquela zona rural  do oeste. Ali viviam com tranquilidade na casinha que fora dos avós e que haviam reconstruído, mas entretanto ela perdera a visão por causa dos diabetes e perdera o marido por doença dois anos antes. Apesar de ter bons vizinhos e de saber que podia contar com eles, a solidão e a saudade do marido, aliadas à perda de visão,  tinham aberto uma ferida permanente.

O temporal parecia ter abrandado entretanto, mas a Igreja continuava fechada.

Ti’ Juca convidou então o campista a ir tomar um café a sua casa, ali perto.

Meteram- se a caminho, e à chegada a  casa, o campista quis lavar  e desinfectar as escoriações da Senhora; ti ‘Juca não queria ir ao hospital e aceitou a ajuda.

Entretanto  foi mudar de roupa e disse ao rapaz que aproveitasse para tomar um banho quente e levou-o ao guarda- fato para que visse se lhe serviria alguma roupa do marido. Depois, já mais recuperados, ti ‘Juca preparou um bom pequeno-almoço para ambos.

– Ti’Juca, porque a Sra vai tantas vezes à igreja?

– Vou falar com Jesus, Maria e José. São minha única família…

– A Senhora ora p’ra eles? Pode – me ensinar? Queria muito aprender…

– Sim, meu filho! Vamo’ lá!

E ti’Juca começou a explicar- lhe como lhes falava de tudo… dava bons- dias ou boas -noites, falava- lhes das suas dores, do canto dos pássaros, do som do mar lá ao longe, das suas recordações, das necessidades e problemas dos vizinhos, pedia conselhos, pedia a paz no mundo em guerra, pedia pelos doentes, pelos mais tristes, pelas crianças e famílias sem pão …pelo meio recordava as orações da sua infância…

Danilo sentia- se tocado interiormente e comentou apenas:

– Como eu gostava de ter tido uma Mãe como você! Nunca ninguém me chamou ‘meu filho’…você me chamou duas vezes…

– Curioso! Eu estava pensando também, como eu gostava de ter tido um filho assim como você…

– Amanhã vou partir para Fátima! É dia da Mãe aqui, disseram- me, e vamos chegar a Fátima na noite de 12 de maio. Vou pedir por você, ti’Juca!

– Quando você voltar, Danilo, por favor bata à minha porta… talvez eu possa ajudar você… meu filho! Nunca esquecerei o que você fez por mim!

– Voltarei, sim, obrigado, ‘Mãe’ Juca!

Abraçaram-se com ternura e Danilo despediu- se e regressou à sua tenda.

Nesse dia, Ti’Juca já não voltou à igreja e ficou deitada a descansar. Quantas emoções!

(Que bom ouvir alguém chamar- me ‘ Mãe ‘!

Amanhã é o Dia da Mãe…quando o nosso Prior voltar vou falar com ele sobre o Danilo… talvez eu o possa ajudar…)

Fátima Fonseca – Professora