Mãe presente

D.R.

Celebramos neste domingo, 7 de maio, o Dia da Mãe. Uma realidade tão grande, que o tempo não é capaz de conter como afirma José Luís Peixoto:

“Como o horizonte, és tu,
mãe, que nivelas o que
somos capazes de ver,
és tu que garantes
o equilíbrio.
Entre o infinito do céu
e o infinito da terra, existe
o teu infinito, igualmente
desmedido e ilimitado.
Mãe, o tempo não é capaz
de conter-te.
(in Em teu ventre, 2015). 

Numa viagem à Madeira, um filho deixa-se mergulhar na profundidade das memórias de infância à procura da mãe que perdeu aos oito anos. Quando era pequeno, lembrou-se que essa tinha sido a primeira viagem dos pais. Não foi com eles, mas ficou com os avós. Todos os dias falava com a mãe por telefone e pedia que lhe trouxesse um avião e que o deixasse ir na próxima viagem. 

“Entro no avião e, quando descolamos, dou-me conta de que algo se desenlaça. (…) Sinto que a altitude e a velocidade desalojam as placas da consciência, libertando uma torrente de imagens. Lembro-me da minha mãe numa fotografia tirada na ilha que vou visitar agora. Está maquilhada, com sombra verde nas pálpebras, batom vermelho, e tem um vestido com flores. Sorri para a câmara. Penso: a minha mãe era bonita? Eu, que durante anos julguei ver a salvação na beleza feminina, nunca fui capaz de dizer que a minha mãe era bonita”, escreveu Hugo Gonçalves (In Filho da Mãe, 2019). 

Do outro lado do Atlântico, a escritora brasileira Lygia Fagundes Telles descreve a memória de um exemplo de tenacidade e espírito de sacrifício que uma mãe suportou para dar sustendo aos filhos. “Minha mãe vivia lavando roupa na beira da lagoa. Ela lavava quase toda a roupa da gente da vila mas nunca se queixou disso. Nunca vi minha mãe se queixar de nada. Era muito miudinha e magra e às vezes eu pensava que ela ia cair no chão de tanto trabalhar. Mas ela não parava e a única coisa que a fazia se estender na cama sem coragem de abrir os olhos era aquela dor de cabeça que de quando em quando ela sentia. Então amarrava na cabeça um lenço com rodelas de batata crua” (in (Di)stabat mater: representações da maternidade, 2023).