Visitas Pascais: Pe. João Gonçalves diz que é preciso olhar para estas tradições como um todo

Foto: Duarte Gomes

Curral das Feiras, 8.45 da manhã do dia 23 de abril. Mal se sai do túnel que nos leva à freguesia, notamos logo a diferença de temperatura.

Mesmo com o céu azul, que nos faz crer que aquele será mais um dia de sol, a verdade é que este ainda anda lá muito pelo cimo das montanhas e pouco ou nada aquece. Mas apesar de o ar estar frio apetece encher os pulmões e aproveitar para os ‘limpar’ de dias a fio na cidade.

Na igreja, cheia, o Pe. João Gonçalves está a terminar a homilia da Eucaristia das 8.30 horas. Tudo normal, pensaria qualquer um que ali chegasse. Mas não. Estamos no tempo das visitas pascais e isso faz toda a diferença.

No interior da igreja vislumbramos os irmãos vestidos com opas vermelhas, que vão percorrer as casas do sítio determinado para aquele dia, levando a bandeira, o pendão e a coroa do Divino Espírito Santo.

À frente do altar estão as saloias, vestidas com o traje típico e ornadas com fios de ouro. Junto a si têm os seus cestos de vimes, com pétalas de rosa que vão lançar na hora de levantar a Deus.

À saída da missa e à chegada cantam cânticos próprios destas ocasiões. Parecem rouxinóis com as suas vozinhas afinadas, o que só se consegue com algum tempo de preparação, mas já lá vamos.

Visitas vão até 25 de junho

As visitas, explica-nos o pároco do Curral das Freiras, começaram no domingo a seguir ao Domingo de Páscoa, mas ao contrário de outras paróquias não vai terminar com a Festa de Pentecostes, que este ano se celebra a 28 de maio. Com nove sítios a visitar, as visitas terminam no décimo domingo, mais precisamente no dia 25 de junho, com a Festa do Espírito Santo, em que “se vai passando por todos os sítios, já não nas casas, mas em Largos específicos, com a banda, com todos os tocadores e festeiros”.

Mas voltemos a dia 23. Terminada a Eucaristia, a saída acontece. Desta vez o destino é o sítio do Lombo Chão, que de chão tem só o nome, visto que a orografia obrigou as pessoas a fazerem as suas casas lombos fora. Os acessos fazem-se através de escadarias, difíceis de subir e descer por quem não está habituado. Mas como nos diziam “com a ajuda do Divino Espírito Santo, tudo se faz”.

Em cada casa, o sacerdote começa por abençoar a família, os presentes e os ausentes e também por recordar os membros da família já falecidos. Reza-se, invocando Nossa Senhora do Livramento.

À entrada e à saída, as saloias cantam: “O Divino Espírito Santo/ nesta casa vai entrar/ mandado pelo Pai Eterno/ a família abençoar” e “Vinde Pai dos pobrezinhos/esta família abençoai/ a grandes e pequeninos/ vossas graças derramai”. Em troca, são presenteadas com guloseimas que vão ocupando o lugar das pétalas que vão deixando.

Em cada casa é deixado um postal com uma oração e recolhida a oferta que cada família pode dar.

Nota-se o esmero com que as casas foram limpas e decoradas para a ocasião. Afinal, receber o Espírito Santo é um dia de festa e de grande alegria, conforme nos lembra Conceição de Jesus Camacho.

Por isso, “é preciso ter tudo preparado, limpar as casas e preparar os petiscos que as pessoas que estão a fazer a visita vão comer, mas também os nossos familiares que vêm à nossa casa nesse dia. Eu por exemplo aproveitei para vir a casa da minha nora”.

Lúcia Vieira, esposa de um dos festeiros deste sítio, confirma-nos tudo aquilo que nos explicou Conceição Camacho e ainda acrescenta que, apesar do trabalho que antecede a visita, “tudo é feito com muito amor e carinho, na esperança que o Espirito Santo abençoe a família e os amigos”. ´

Olhar tradições como um todo

Depois de andarmos mais um pouco, eis que chegamos à casa de Um dos Festeiros: o sr. Agostinho Jesus de Sousa. Aí a comitiva aproveitou para tomar o pequeno almoço. Como esta paragem é sempre mais demorada, foi o local perfeito para as devidas conversas, em primeiro lugar com o Pe. João Gonçalves.

O sacerdote, que está a acompanhar estas visitas pela primeira vez nesta paróquia, faz questão de dizer que as mesmas “estão a correr muito bem e que as pessoas estão a ser muito acolhedoras, o que não é novidade, por aquilo que outros párocos já me tinham dito”.

O Espírito Santo, explica, “é uma festa de família, mas também da comunidade, porque as pessoas vão para casa de vizinhos e de familiares e até há convidados de fora”. Isso, acrescenta, “torna estas festas, as chamadas domingas do Espírito Santo, numa festa que se prolonga durante 10 domingos”.

É caso para dizer que a tradição ainda é o que era, a que o pároco do Curral das Freiras acrescenta que, “as pessoas levam isto mesmo muito, muito a sério”. Por outras palavras “não só é importante a fé, a celebração religiosa, a festa, mas há aqui todo um conjunto de várias coisas e tudo é importante”.

De resto, vinca o sacerdote, “é preciso olhar para estas tradições ou até para a cultura como um todo, abarcando tudo o que é uma vivência comunitária, uma vivência de determinada freguesia, com as suas tradições, as quais não podem ser olhadas isoladamente”.

“Do ponto de vista da vivência”, o sacerdote acrescenta que esta época é “tão forte, tão forte qual o Natal”.

Escolha e ensaios das saloias

Mas se as pessoas em cada casa têm atenção a certos e determinados pormenores, quem acompanha a visita também tem os seus afazeres. Um deles é ensaiar as saloias. A tarefa está a cargo de Sílvia Martins, ela que também já foi saloia, um elemento muito importante destas visitas.

“Eu ensaio as saloias há já muitos anos. É um trabalho que requer algum tempo de ensaios, que normalmente começa no início de fevereiro, com o procurar saber quais são as meninas que estão interessadas, quais as que mostram mais entusiasmo”, explicou, para logo acrescentar que feita a escolha começam os ensaios”.

De ano para ano, as meninas podem mudar, embora estas já se mantenham há dois anos. “Tudo depende do interesse delas ou do facto de aparecerem outras meninas”. Clara, Lara e Mariana são então as ‘valentes’ que domingo após domingo a todos alegram com as suas vozes.

Claro que tudo isto implica ainda um outro trabalho que é feito pelas mães, “que vão buscar o ouro, que vão buscar a casa das pessoas as flores com que enfeitam os cestos todos os sábados”.

No fundo há toda uma envolvência da comunidade que ajuda nesta preparação, conforme nos fez questão de sublinhar Sílvia Martins.

Festeiros satisfeitos

Como já se disse, a primeira paragem assim mais alargada foi na casa do sr. Agostinho Jesus de Sousa, onde a parte religiosa foi cumprida, mas também a parte profana, com cantigas e despique no terraço da casa onde estava a família, mas também, amigos que foram convidados para ir lá a casa neste dia.

Com este já são sete anos – “não quer dizer que tenham sido seguidos” – que acompanha o Espírito Santo e já tem mais algumas agendadas.

De resto, no ano passado, nem mesmo um problema que teve num pé, o impediu de cumprir a sua promessa do princípio ao fim. Por aqui se vê que a fé move montanhas, mesmo as do Curral das Freiras, e que graça alcançada é promessa cumprida, com mais ou menos dificuldades.

Depois esta é também, conforme refere outro dos festeiros, o Fábio Vieira, uma tradição, “que o Curral das Freiras não pode e nem quer perder”. Isto “é quase como o Natal, uma grande festa”.

Já Orlando Barros, o terceiro festeiro, também já saiu nestas visitas. Diz que é uma experiência “muito boa”, sublinhando que as pessoas abrem as portas de par em par para receber quem chegue, seja familiares, vizinhos ou amigos. Este ano está a cumprir promessa, mas não põe de lado a hipótese de voltar a acompanhar as insígnias na sua visita pelas casas.

A visita ainda se prolongou muito para além da nossa presença. Outros afazeres levaram-nos a ter de deixar o Curral das Freiras, não sem antes refletirmos sobre a fé das pessoas que nos acolheram, num dia de Sol, em que tudo merece ser louvado em especial o Espírito Santo.