Alda Couceiro esteve no Funchal: Solidão acompanhada preocupa presidente nacional das Conferências Vicentinas

D.R.

Alda Couceiro, presidente do Concelho Nacional da Sociedade de São Vicente de Paulo, responsável pelas Conferências Vicentinas, esteve recentemente no Funchal, a acompanhar o Presidente Geral Internacional da Sociedade de São Vicente de Paulo.

Em entrevista ao Posto Emissor do Funchal, Alda Couceiro falou da realidade nacional e dos desafios que se colocam hoje aos Vicentinos que têm de lidar muitas vezes com realidades como a solidão. Uma solidão acompanhada, motivada pela realidade económica do país que impede as pessoas de sair, tomar um café, dar um passeio, o que cria situações muito complicadas, sobretudo a nível familiar.

PEF/Jornal da Madeira – Como é que está a situação da instituição em Portugal?

Alda Couceiro – A instituição em Portugal está a caminhar e a tentar divulgar e aumentar o número de consócios e de confrades, isto é, de homens e mulheres que se dedicaram e dedicam ao serviço da humanidade, servindo de uma forma muito especial os mais desfavorecidos e vendo neles a imagem de Cristo. A nossa missão é essa e nós aqui em Portugal, respeitando sempre as normas mundiais, procuramos fazer esse trabalho.

PEF/Jornal da Madeira – Quantas são as conferências e os Vicentinos em Portugal.

Alda Couceiro – Actualmente somos cerca de 10 mil vicentinos e vicentinos em todo o país, temos cerca de umas 800 conferências e em cada uma delas tentamos fazer prevalecer este ideal, que é também o ideal do nosso fundador, Frederico Ozanam, inspirado em São Vicente de Paulo, que é o de realmente servir: darmo-nos e dar. Mas principalmente darmo-nos, porque muitas vezes nós não temos muita coisa para dar, mas damo-nos. E as famílias mais carenciadas que são por nós apoiadas, sentem, da nossa parte esta abertura, esta sensibilidade e este querer estar com eles. Isto nota-se muitas vezes na visita domiciliária, em que eles junto de nós se desnudam de tal forma que nós procuramos, de toda a forma e feitio, arranjar uma forma de os ajudar a ultrapassar a situação ganhando dignidade e promoção. Apesar de dizermos que pobres sempre teremos, porque todos nós somos pobres e carentes de qualquer coisa, nós fazemos com que eles na realidade, no seu dia a dia, sejam promovidos porque muitas vezes o que lhes damos são direitos que lhes foram retirados pela sociedade.

“Actualmente somos cerca de 10 mil vicentinos e vicentinos em todo o país, temos cerca de umas 800 conferências”

PEF/Jornal da Madeira – Ou seja a missão do Vicentino vai muito além do entregar o cabaz alimentar?

Alda Couceiro – É verdade. Nós notamos em Portugal um aumento significativo da solidão. Não é a solidão de quem vive só, mas a solidão de muitas famílias que por questões principalmente económicas se vêem forçadas a não poder ir a um café, a não poderem sair para dar um passeio ou ir ao cinema, porque a situação económica do país não o permite. Isto leva a um isolamento e leva a situações muito complicadas a nível familiar. Nós estamos a tentar, de todas as formas, encontrar uma solução para esse problema porque estamos focados em criar nas pessoas a certeza de que são seres vivos que têm direitos e têm todo o direito também de um certa promoção, de uma certa dignidade.

PEF/Jornal da Madeira – São sempre as famílias que os procuram ou estas chegam até vós de outras formas.

Alda Couceiro – Não, nem sempre. Muitas vezes são os párocos ou os vizinhos dessas famílias que nos alertam para sua situação. E muitas vezes é através deles que, de forma, subtil e com a cumplicidade dos vizinhos, conseguimos fazer chegar a essas pessoas alguns géneros, porque é necessário dar-lhes alimento para que depois elas possam ver a vida noutro prisma. Muitas vezes esses sacos são deixados à porta e deixamos um sinal: somos da Sociedade de São Vicente de Paulo. E deixamos hoje e deixamos amanhã e a pouco e pouco vamos conquistando a confiança das famílias. Isto não é fácil, afinal vamos entrar na vida e naquele sítio que é próprio de cada família, que ouça sem criticar, que nos aconchegue, que nos acarinhe e que nos permita viver uma vida melhor. Claro que só consegue fazer isto quem está imbuído em Cristo, porque nós para além de Vicentinos somos cristãos, acreditamos em Cristo e é isso que procuramos levar-lhe também, explicando que também Cristo sofreu e todos nós sofremos, mas que isso faz parte, são etapas da vida, mas essas etapas ultrapassam-se e essas etapas conseguem-se com a ajuda de outras pessoas.

“Nós notamos em Portugal um aumento significativo da solidão. Não é a solidão de quem vive só, mas a solidão de muitas famílias que por questões principalmente económicas se vêem forçadas a não poder ir a um café, a não poderem sair”

PEF/Jornal da Madeira – Há dados relativos ao número de famílias/pessoas apoiadas?

Alda Couceiro – É complicado dar um número exacto porque são milhares e milhares os apoios que damos. Não sou capaz de quantificar. E na verdade não nos preocupamos muito com os números, mas com o melhorar a situação dessas pessoas que apoiamos. Isso implica fazer todo um trabalho de recolha de informações, nomeadamente junto da segurança social, mas também pode passar por, junto de um ministério, sermos a vós dessas pessoas, denunciando certas situações.

PEF/Jornal da Madeira – Mas as conferências contam com a ajuda de parceiros?

Alda Couceiro – Sim é verdade. Contamos, por exemplo, com o apoio da Cáritas, do Banco Alimentar e da plataforma Entreajuda através da qual estamos a tentar informatizar as conferências, para podermos analisar as situações mais rapidamente e dar também uma resposta mais célere. Claro que estas visitas, como esta à Madeira, também são muito importantes e as plataformas ainda não as podem substituir. Trata-se de trazer o Conselho Nacional às periferias e dizer-lhes que eles não estão sós, é uma oportunidade de perceber as dificuldades que têm de programar actividades, nomeadamente relacionadas com a formação. Claro que há outras ocasiões em que nos reunimos. Já agora que falamos, e bem, das JMJ, mas nós Vicentinos também temos um Encontro Internacional de Jovens Vicentinos, que este ano vai decorrer em Portugal, mais precisamente em Felgueiras, uma semana antes das Jornadas. Uma oportunidade para reunir Vicentinos jovens, que são o futuro da nossa Sociedade, e dar-lhes oportunidade de falar deste ideal, de crescerem e se enriquecerem e de levar para os seus países mais bagagem, mais força, mais amor e a certeza de que estão para servir, para dar, mas essencialmente dar-se. Acho que isto é muito importante, particularmente no momento que estamos a atravessar. É preciso garantir que estas sementinhas vão germinando e fazendo com que outros jovens ganhem esta visão do mundo, levando Jesus Cristo a todos eles.

“temos um Encontro Internacional de Jovens Vicentinos, que este ano vai decorrer em Portugal, mais precisamente em Felgueiras, uma semana antes das Jornadas. Uma oportunidade para reunir Vicentinos jovens”

PEF/Jornal da Madeira – Quem pode ser Vicentino?

Alda Couceiro – Qualquer pessoa que queira servir a Cristo pela caridade. Depois é só procurar, junto das paróquias, se há uma conferência, se apresentar, receber a devida formação e começar a trabalhar nas várias actividades que a conferência promove, sempre com aquele espírito de se dar ao outro.