O pintor-místico

Ao entrar na basílica de Nossa Senhora do Rosário, no Santuário de Fátima, chama-nos logo a atenção a grande tela do retábulo-mor que representa a Glorificação de Nossa Senhora de Fátima, e os vitrais multicolores. 

O autor destas magníficas obras, o arquiteto e pintor João José de Sousa Araújo, partiu para Deus, na quarta-feira, 22 de março, aos 93 anos. 

Foto: Santuário de Fátima

O Museu do Santuário de Fátima afirmou que a ele “se pode aplicar a expressão de pintor-catequeta ou mesmo de pintor-teólogo”. Sem dúvida que sim. Mas gostava também de acrescentar mais uma expressão, a de pintor-místico.

Tive a graça de conversar com o arquiteto João Sousa Araújo algumas vezes. Um homem de pensamento teológico profundo e de grande espiritualidade. Mostrou-me a sua obra de azulejos no Estoril.

Numa entrevista em 2017, na Renascença, o arquiteto falou da sua técnica de trabalho: “Para mim a técnica é, nós estarmos a trabalhar, não sabemos quanto tempo, aparentemente inglório, e no fim, há realmente um sopro”. “Como é que vem o tal sopro?”, perguntou a jornalista. “A pessoa, por si, faz tudo quanto pode. Eu uso um termo que não é talvez o mais técnico, uma pessoa está a rapar, que tempos, por coisas que julga que não vão dar. E depois continua. Volta a trás. Tenta outra vez, e por fim (…) então vem”. 

 “Quando se dá esse tal contacto, nós deixamos de pertencer um bocado a nós próprios. Não pertencemos mesmo, não é! É qualquer coisa que não é nossa”. 

Para o pintor, o mais extraordinário “é que quando se dá esse momento, tudo aquilo que nós julgávamos que era o tal “rapar”, não era. É integrado, é aproveitado como um todo”. 

Ao pintar o sagrado, “Há uma valentia própria, um atrevimento, uma juventude, um entusiamo, ao fim ao cabo, é o Espírito de Deus. Acho que a palavra entusiasmo já contém em si uma expressão do Espírito Santo”. 

Na mesma entrevista, João Sousa Araújo, disse que quando se “atira” para uma obra, procura “encontrar uma forma de beleza”, uma harmonia que eleve o espírito, pois “a beleza é sempre qualquer coisa que é de Deus”.