Terminou ao fim da manhã desta sexta-feira, dia 3 de março, com a habitual Eucaristia, o primeiro turno do retiro anual dos sacerdotes. O Pe. Pedro Azevedo, Capelão da Sé do Porto foi o orientador deste retiro, que decorreu em São Vicente e em que participaram 15 padres.
Em declarações ao nosso jornal, o Pe. Pedro Azevedo, que é também Diretor do Secretariado Diocesano da Pastoral Universitária do Porto falou-nos do retiro, mas também sobre como chegar aos jovens. Aqui cita o Papa Francisco, quando este diz que há que ter uma ‘fidelidade criativa’. Quer dizer, “ser fiéis aos princípios e àquilo que nos foi legado, mas com a criatividade para este tempo”. Um tempo “difícil da vida da Igreja”, em que o sacerdote tem de ser “profundamente humano”.
Jornal da Madeira – Como encarou o convite para vir orientar este retiro?
Pe. Pedro Azevedo – Em primeiro lugar foi uma surpresa, porque não estava minimamente a contar com o convite. Fiquei surpreendido, mas procurei acolher desde a primeira hora o pedido que me estava a ser feito.
Jornal da Madeira – Em que moldes é que o preparou?
Pe. Pedro Azevedo – Mal me foi feito o convite eu coloquei em oração o que era preciso fazer. A partir daí e de várias leituras, inclusive de um livro que tinha acabado ler e em que um texto sobre os últimos dias da vida de Jesus, em contexto de Última Ceia. Depois de algumas escolhas, reparei que poderia ir por aí, tanto mais que estamos em contexto de Quaresma. Por isso, o tema central foi o último dia da vida de Jesus, com a leitura dos textos e a proposta para que os sacerdotes imaginassem que esse era também o último dia das suas vidas e que se tivessem oportunidade de estar com Jesus nesse dia o que fariam, dando lugar a uma série de dinâmicas para dar lugar à oração e à meditação.
“o tema central foi o último dia da vida de Jesus, com a leitura dos textos e a proposta para que os sacerdotes imaginassem que esse era também o último dia das suas vidas”
Jornal da Madeira – Estes retiros são importantes para os sacerdotes saírem das suas rotinas normais e conseguirem ver as suas paróquias e o seu trabalho de outro ângulo?
Pe. Pedro Azevedo – Sim, são muito importantes. E são importantes não só por causa dessa pausa nas rotinas, mas também para o enquadramento do dia a dia. É como uma música. Se não houver uma pausa nós não conseguimos perceber a sonoridade na harmonia no contexto do todo. Os retiros servem um bocadinho para isso, ou seja, nós recuperarmos as energias a dinâmica também da nossa vida, a serenidade, o respirarmos de outra maneira, envolvidos aqui pelo som do mar. Tudo isto é importante sobretudo pelas exigências da vida de hoje de um padre, que são tantas, assim como os desafios e canseiras que é preciso descansar também. Aliás eu disse aos sacerdotes que aproveitassem também este tempo para descansar e recuperar as energias.
Os retiros “são importantes não só por causa dessa pausa nas rotinas, mas também para o enquadramento do dia a dia. É como uma música. Se não houver uma pausa nós não conseguimos perceber a sonoridade na harmonia no contexto do todo”
Jornal da Madeira – Por falar em recuperar energias, o Pe. Pedro é praticante de surf – já sei que não trouxe a prancha – mas pergunto-lhe se esse tempo no mar também serve para recarregar energias e se é também um tempo de encontro com Deus?
Pe. Pedro Azevedo – Exatamente, é tudo isso. Para já o mar é um bom conselheiro, porque nos coloca numa perspetiva de limite, mas também de serenidade. E a nossa vida tem as duas coisas, isto é, tem o limite e tem a serenidade. A propósito, eu comecei exatamente este retiro com uma passagem do Evangelho do domingo passado que nos apresentava dois lugares fundamentais da vida: o jardim e o deserto. E o mar é um pouco isso. Há momentos em que tudo parece florescer, mas há outros em que a coisa é muito difícil e chegamos ao nosso limite. A nossa vida também tem isso e temos que aceitar. Mas sem dúvida que o mar é ótimo para fazer esta meditação.
Jornal da Madeira – E pode ser uma forma de chegar aos outros, sobretudo aos mais novos?
Pe. Pedro Azevedo – Sim, de resto o surf surgiu quando fui pároco em Espinho. E foi, de facto, uma maneira de chegar aos mais novos. Espinho fica ao pé do mar, é uma zona que está muito ligada ao surf e o surf foi, sem dúvida, uma plataforma para a evangelização, de conseguir chegar, de proximidade.
Jornal da Madeira – A pastoral juvenil sempre foi, e continua a ser, uma das preocupações de D. Nuno Brás. O Pe. Pedro é também o Diretor do Secretariado Diocesano da Pastoral Universitária do Porto. É assim tão difícil chegar aos jovens…
Pe. Pedro Azevedo – O Papa Francisco tem uma expressão, muito feliz, quando fala da fidelidade criativa. Ele diz que temos de ser fiéis aos princípios e àquilo que nos foi legado, mas com a criatividade para este tempo. E a melhor forma de usarmos essa criatividade, se calhar não é tanto fazer com que ela dependa de nós sacerdotes, mas muito mais que ela dependa dos jovens universitários, neste caso. Porque eles têm-na muito mais do que nós, têm-na de uma forma que é deste tempo e que a podem realizar muito bem. A experiência, por exemplo, da Missão País diz-nos isso. Por isso é que eu digo temos de ser criativos, muito criativos na forma. E nesse contexto, não podemos ficar de braços cruzados, temos de ir ao encontro. Neste retiro também refletimos sobre a questão da humanização do padre. Estou convencido de que, neste momento difícil da vida da Igreja, nós temos de ser não superficialmente humanos, nas profundamente humanos.



















