Já tinha ouvido falar da famosa “lapinha do caseiro” de Francisco Ferreira, mas não sabia onde a poderia encontrar. Movido pela tradição madeirense de visitar as lapinhas por altura do Natal, deparei-me com a informação de que um dos mais célebres presépios madeirenses tinha sido restaurado e estava em exposição no Museu Etnográfico da Madeira, na Ribeira Brava.
Este presépio, elaborado pelo artista Francisco Ferreira, nascido no Monte em 1848, foi iniciado nos anos de juventude do autor e continuamente trabalhado até à sua morte, em 1931.
A lapinha é constituída por centenas de pequenas peças em madeira de cedro, reproduzindo cerca de 25 cenas do Antigo e do Novo Testamento, cada uma com a sua legenda, e diversas situações da vida quotidiana madeirense da época.
Como Francisco Ferreira não tinha instrução, os episódios bíblicos eram lidos pela sua mulher e, mais tarde também pela sua filha.
“O nascimento do menino” é preparado com diversas representações relativas a Nossa Senhora e a S. José: Apresentação de Nossa Senhora, desposório de Nossa Senhora, anunciação, sonho de S. José e a visitação.
Dentro dos relatos da infância de Jesus, são apresentados os episódios da apresentação do Menino Jesus e a fuga para o Egipto.
Na lapinha também podemos encontrar quadros da vida quotidiana: leiteiros, lavadeiras, borracheiros, barrileiros, um dentista, mulheres a transportar água, homens que transportavam pessoas na rede, e até uma briga entre dois rapazes.
A lapinha do caseiro mostra-nos a ligação entre a Palavra de Deus e a vida quotidiana, feita de trabalho e cansaço, mas também de festa e alegria. O nascimento de Jesus torna-se atual, entra no hoje da nossa história, aqui e agora, seja lá quais forem as circunstâncias sociais que o mundo esteja a atravessar. É precisamente este mundo que Deus quer habitar. Por outro lado, esta lapinha faz-nos perceber que também nós habitamos a história de Deus.
A lapinha do caseiro permitiu-me compreender melhor a expressão que hoje li do nosso Cardeal Tolentino Mendonça: o presépio, “como que deposita uma estrela nas nossas mãos vazias” (Expresso, 23-12-2022). O presépio é o encontro que enche as nossas mãos de luz e os corações de esperança. Mãos que abrigam o menino Deus.
A exposição temporária “Lapinha do Caseiro” poderá ser visitada até ao dia 19 de fevereiro de 2023, com entrada livre. Não percam a oportunidade.
























