O livro do Cântico dos Cânticos, abundantemente comentado na tradição espiritual da Igreja, é um cântico de amor que foi aplicado ao cristão e à Igreja na sua totalidade. Se o amor de Deus se manifesta em plenitude na Páscoa de Jesus e ele é o esposo do seu povo, a comunidade reunida, a Igreja, é a esposa de Cristo. Como afirma o Concílio Vaticano II, «Cristo ama a Igreja como esposa, fazendo-se modelo do homem que ama sua mulher como o próprio corpo; e a Igreja, por sua vez, é sujeita à sua cabeça». O mesmo amor nupcial existe entre Cristo e cada crente, marcado com o sinal da sua Páscoa desde o Batismo. Por isso, a voz do amado é para nós o eco da Palavra de Cristo, sinal do seu amor. É Ele que nos desperta e nos levanta pela sua Ressurreição. Ele anuncia que, nos momentos difíceis, ao Inverno da vida vai suceder uma nova primavera. Este é um convite a sair de si mesmo, a converter-se, a deixar as mágoas da vida passada para encontrar o perdão de Deus. Deus deseja este encontro connosco porque nos ama e quer dar-nos o seu amor, o único pelo qual nos tornamos verdadeiramente nós mesmos. O amor faz crescer o outro enquanto outro. Tal é o amor de Cristo que nos abre ao dom da vida, à generosidade, ao serviço.

Depois de ter respondido com o dom de si mesma ao chamamento divino, Maria pôs-se a caminho «apressadamente», pelas montanhas de Judá, para comunicar a Palavra que tinha recebido de Deus e que germinou no seu seio. A pressa de Maria é sinal do seu amor, como a esposa do cântico dos cânticos vai ao encontro do seu esposo, para receber dele o anúncio dum tempo novo. A alegria não pode deixar de ser comunicada e nasce do encontro das mães e dos filhos: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor ?». Maria leva Cristo a sua prima Isabel e esta recebe a mãe e o Senhor com grande veneração e alegria. Ambas são felizes porque acreditaram. O canto do Magnificat começa a ser partilhado por todas as gerações e é já o sinal da presença do Reino de Deus entre os homens.
O testemunho cristão nasce da nossa resposta ao amor de Deus que nós conhecemos em Jesus Cristo. Só este amor faz de nós missionários do Evangelho. Só este amor faz-nos capazes de sair de nós mesmos para irmos ao encontro dos outros levando-lhes Jesus Cristo, como Maria ao encontro de Isabel.
-A Igreja, diz a constituição Lumen Gentium, «enriquecida com os dons do seu fundador e guardando fielmente os seus preceitos de caridade, de humildade e de abnegação, recebe a missão de anunciar e instaurar o Reino de Cristo e de Deus em todos os povos e constitui o princípio e o germe deste mesmo Reino na terra. Enquanto vai crescendo, suspira pela consumação do reino e espera e deseja juntar-se ao seu rei na glória»(nº 5). O anúncio do Reino requer o entusiamo e a fidelidade de quem ama.
-Se não estamos convencidos, graças à fé, de que existe uma certa harmonia entre o Evangelho de Jesus, entendido na sua plenitude, e a aspiração secreta posta por Deus no fundo do homem de todos os tempos, faltar-nos-á a audácia apostólica que é a única que pode atingir o homem do nosso tempo. O Evangelho assume as autênticas aspirações humanas, convertendo-as a Cristo e levando-as assim à sua plena realização.
(In “Maria, Mãe da Vida” – Guião para as Missas do Parto 2022, Diocese do Funchal, pp. 27-29).
























