Comentário Litúrgico da Missa do Parto (18 de dezembro 2022)

Acaz recebe a ordem de pedir a Deus um sinal para si mas sem deixar de receber a novidade do sinal que Deus lhe vai dar, quer nas «profundezas», quer nas «alturas». Não lhe cabe determinar qual será o sinal mas apenas esperá-lo. Comentando esta passagem, Orígenes observa: «Ele foi-me oferecido como sinal, o meu Senhor Jesus Cristo. Tal é o sinal que se ordena a Acaz de pedir para si mesmo, na profundidade ou na altura. Na profundidade, pois é bem Jesus que desceu; na altura, pois é ele que se elevou acima de todos os céus … também nos é solicitado de pedir para nós mesmos este sinal a fim de que seja para nós um sinal eficaz» (Homilia 2 sobre Isaías). Se é desejável pedir um sinal a Deus pois toda a criação é imagem do Criador, temos contudo de aceitar com fé o sinal que Deus dá, sinal que converte e transforma as nossas aspirações. A ordem dada por Deus acaba por ser recusada por Acaz: «Não pedirei, não porei o Senhor à prova». O rei justifica a sua recusa com o argumento de não pôr o Senhor à prova. Que significa então pôr o Senhor à prova? Não será desafiá-lo a realizar os sinais que nós aspiramos, os que nos são convenientes e nos arranjam? Não será também recusar o desafio à conversão que os sinais de Deus nos colocam, simplesmente porque nos surpreendem e nos incitam a mudar de caminho? No entanto, será esse o motivo que levou Acaz a recusar pedir um sinal a Deus para deixar que Deus lhe manifeste o seu sinal? A recusa de Acaz explica-se pela alternativa: Ou os sinais de Deus, Ou os nossos sinais. O Senhor faz-lhe saber que não deve ser assim. Todo o sinal é aquele que sobe do coração humano como um grito de confiança. É o próprio Espírito de Deus que faz germinar a procura de sinais dentro do nosso mundo, a começar já no íntimo do coração. Tudo o que existe pode tornar-se sinal de Deus, manifestação da sua presença. O próprio Jesus convida à confiança: «Pedi e recebereis, procurai e achareis» (Mt 7,7). A fé em Deus é fonte desta confiança que nos faz avançar na vida. Ele mesmo, através do seu Espírito, toma corpo nas nossas aspirações para nos conduzir e nos orientar, para nos revelar a meta a que somos chamados.

Simplesmente, o desafio coloca-se na aceitação da surpresa que os sinais de Deus provocam na trama da nossa vida. Neste sentido, Acaz tem toda a razão de não querer pôr o Senhor à prova. O risco é o de pretender que os nossos sinais sejam ao mesmo tempo os de Deus e que Deus seja à imagem das nossas melhores aspirações. Neste caso, fazemos dele um ídolo e ele deixa de ser o Deus vivo. Por conseguinte, os nossos pedidos de sinais precisam da humildade da nossa escuta e da coragem da nossa conversão: «Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: Há-de a Virgem conceber e dar à luz um filho, a quem porá o nome de ‘Emanuel’». Emanuel quer dizer: Deus connosco. Deus está connosco em Jesus mas não simplesmente para nos confortar nas nossas ideias, palavras e acções mas para nos chamar a fazer caminho com Ele e suscitar uma resposta de vida mais digna da nossa humanidade e da sua divindade. A sua proximidade não retira nada do que nós somos. Pelo contrário, dá pleno sentido ao que vivemos. O Deus próximo aproxima-nos dele e uns dos outros.

Capa

O sinal que Deus nos dá em Maria é novo em relação a todos os anúncios das Escrituras e, no entanto, S. Mateus sublinha que é ao mesmo tempo o cumprimento da Palavra anunciada em Isaías: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será chamado Emanuel, que quer dizer ‘Deus connosco’». O Espírito Santo está na fonte da sua maternidade. Ele é a revelação do amor de Deus que nos quer salvar. Ele precede e acompanha a vinda do Filho de Deus. Por Ele, Maria é mãe e permanece Virgem. Na verdade, Jesus não é mais um de entre os profetas mas o Filho, a Palavra pela qual Deus tinha criado o mundo e na qual se tinha dirigido aos homens antes de a enviar ao coração da nossa humanidade, criada à sua imagem e semelhança. O percurso da Palavra é o da humildade e da paz. É um convite à conversão. Não podia deixar de ser assim, a começar por S. José, intrigado com a gravidez inesperada da sua noiva. S. Mateus chama-o homem justo, um homem cumpridor da lei, fiel à Aliança e disposto a acolher os sinais de Deus mesmo que esses sinais surpreendessem a sua inteligência. O anjo do Senhor aparece-lhe num sonho para revelar-lhe que a gravidez da sua noiva era um sinal novo de Deus que ele não devia temer porque assim se realizava a salvação do seu povo. Era a ele, José, que cabia dar o nome ao filho mas o nome não era mais do que a confirmação da ação divina. Como acontece nas Escrituras, o nome dado era a revelação duma missão: Jesus é Aquele que salva porque Ele é o grande sinal da presença de Deus no meio do seu povo, o Emanuel. O Espírito Santo dá a capacidade de acolher progressivamente este dom através dum caminho que leva ao louvor e à acção de graças. José é justo porque se deixa conduzir pelo caminho da fidelidade que Deus lhe propõe através do seu anjo. É justo graças à sua fé que não é feita de obras mas da aceitação da vontade de Deus a seu respeito. A fé é a resposta à humildade de Deus que vem até nós. Ela é a aceitação da sua proximidade, fonte de liberdade: «Quando despertou do sono, José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa». S. José não procurou outra segurança senão a da Palavra que lhe era anunciada pelo anjo. Deixou-se transformar por ela e assim tornou-se plenamente um homem justo. O que o Espírito Santo realizara no seio de Maria também o realizou no coração de José. Acolheu Jesus como seu filho sabendo que vinha do alto. Deixou-se surpreender pela missão que o anjo lhe confiava e inscreveu-a na sua vida. Depois de ter fecundado o seio de Maria, o Espírito Santo suscitava a resposta da fé de José. Ambos deixavam-se guiar pelo Espírito de amor, como servos dispostos a entregar o que tinham recebido por um dom gratuito. O dom de Deus, o Espírito Santo, leva sempre ao dom de si mesmo e  é assim que se aprende a amar.

Que sinais gostaríamos de pedir a Deus para serem colocados sobre o altar? Sabemos aceitar o grande sinal do nascimento de Jesus como fonte de novidade na nossa vida? Com a ajuda do Espírito Santo, somos capazes de recolhimento para perceber a Palavra de Deus presente nos acontecimentos da nossa vida?

(In “Maria, Mãe da Vida” – Guião para as Missas do Parto 2022, Diocese do Funchal, pp. 13-18).