O Presépio da Igreja da Estrela, Basílica do Sagrado Coração de Jesus

D.R.

Há uns anos atrás tinha como hábito, na época natalícia, visitar os Presépios expostos nas igrejas de Roma, quando me deslocava em gozo de férias com os meus filhos ainda pequenos. Este ano decidi retomar essa tradição perdida, mas desta vez em Lisboa, onde temos presépios maravilhosos. Posto isto, no primeiro dia do mês de Dezembro fui visitar o Presépio da Basílica da Estrela. Esta Basílica, que constitui um dos monumentos mais notáveis do séc. XVIII, existentes na cidade de Lisboa. Foi mandada erigir pela Rainha D. Maria I e dedicada ao Santíssimo Coração de Jesus, cumprindo a promessa de que o faria se tivesse um herdeiro ao trono. O Sagrado Coração de Jesus simboliza o amor de Deus pela humanidade. D. Maria I foi a grande impulsionadora desta devoção em Portugal sendo que no ano de 1777, a seu pedido, foi aprovada para Portugal a Festa do Sagrado Coração de Jesus. A Basílica da Estrela constitui a primeira igreja a nível mundial dedicada ao Santíssimo Coração de Jesus. Ao lado da Basílica e anteriormente à sua construção, a soberana mandou construir um Convento de Carmelitas descalças.

Maria nasceu a 17 de dezembro de 1734. Casou a 6 de Junho de 1760 com o rei D. Pedro III, tendo sido aclamada Rainha de Portugal em 1777. Face a vários acontecimentos dramáticos que muito perturbariam a saúde da Rainha, foi-lhe diagnosticada uma doença mental irreversível, assumindo o filho mais novo, D. João, a regência do reino, posteriormente, D. João VI. Em 1787 a Família Real foi forçada a partir para o Brasil na sequência das invasões francesas, onde viria a falecer no ano de 1816. Os seus restos mortais seriam trasladados para a Basílica da Estrela em 1822. O Túmulo de D. Maria I é imponente, em mármore branco e negro.

E porque o artigo tem a ver com o Presépio desta Basílica vou concentrar-me agora na sua descrição. Atrás do túmulo de D. Maria situa-se a Sala do Presépio, antiga sacristia, onde se encontra o presépio, obra imponente do esculto Joaquim Machado de Castro e dos seus discípulos, que foi mandado construir pela Rainha D. Maria, em 1781, para que as Carmelitas Descalças, cujo convento era anexo, pudessem contemplar a Natividade de Jesus e nela meditarem. A sua elaboração durou cerca de cinco anos. Foi construído no apogeu dos presépios barrocos, sendo um dos mais notáveis do escultor e um dos maiores que foram modelados. Possui uma beleza extraordinária dentro do estilo barroco, constituindo o único em que surge a cena matança dos inocentes. Atualmente tem cerca de 480 figuras de barro, ou terracota. As figuras maiores são de “pasta encolata”. Quanto às cores e ao ouro, o autor inspirou-se no artista italiano Bernini com o seu estilo deveras expressivo.

A devoção do Presépio em Portugal atingiu o seu auge no séc. XVIII. Os presépios barrocos portugueses integram, em primeiro lugar, narrativas de base bíblica e, em segundo lugar, cenas do quotidiano. Joaquim Machado de Castro, que desde os 15 anos era fascinado pela arte de esculpir, tinha como ambição ir a Roma. Discípulo de mestres da obra do convento e convento de Mafra, tornou-se numa figura incontornável da mais bela arte portuguesa do séc. XVIII, participando em todas as grandes obras. O presépio barroco é caracterizado pela representação do mundo como um grande teatro onde todos somos atores. Machado de Castro nos seus presépios conseguiu, como poucos, representar a história do Nascimento de Jesus.

Fiquei deveras maravilhada quando entrei na sala e deparei-me com o presépio em frente ao fundo. O conjunto encontra-se encerrado numa maquineta monumental, com portas envidraçadas que permitem uma observação de grande amplitude. Por uns segundos contive a respiração perante tanta beleza tão detalhada e pormenorizada. Nada faltava. Ficaria ali horas a ver cada peça do Nascimento de Jesus, ou relacionada com ele. Todo o presépio possui placas de nuvens que sustentam miríades de Anjos em adoração, entoando melodias de glória a Deus. Debaixo da luz que irradia da gruta sobressai a figura do Menino Jesus, acompanhado por S. José e Sua mãe, a Santíssima Virgem Maria, que o apresenta para que todos o adorem. Os três Reis Magos com o seu séquito, guiados por uma estrela, chegam a Belém para adorarem o Rei dos Judeus; e também cenas anteriores ou posteriores ao nascimento do Menino: a Anunciação e Adoração dos Reis Magos; o Martírio dos Inocentes; a Fuga para o Egito… Foi dada uma relevância especial ao Cortejo Régio, uma alusão explícita à encomenda real. Na representação presepial de Jesus Menino, o Artista desperta o menino que existe em cada um de nós. A maravilha desta Natividade não se encontra só naquilo que os olhos veem, mas na explosão de um hino à vida, portadora de uma mensagem de Alegria e de Paz.

Entretanto, recebo uma mensagem de uma amiga, que me sensibilizou e que referia: “Quando pedires alguma coisa em Dezembro, pede que te traga presentes que não se vendem em lojas: um gosto muito de ti; um obrigada por existires; um estou aqui para ti, sempre;…sabendo também que há uma luz ao fundo do túnel, para cada escuridão que tiveres de enfrentar”.

Deixei a Basílica da Estrela, Igreja do Sagrado Coração de Jesus, muito feliz e pensativa. Estava mais rica com tudo o que me tinha sido dado a observar. A história é uma contínua luta entre o bem e o mal, ímpios que triunfam e justos que sofrem. É verdade, Deus escreve direito por linhas tortas! As situações podem escapar das mãos dos homens, mas não das de Deus. O maior ato de fé que a Igreja pode dar – após ter rezado e feito o possível para evitar ou fazer cessar os conflitos – é voltar-se para Deus com um ato de total confiança e sereno abandono, repetindo “Sei em quem acreditei!” Deus jamais retrocede para deixar cair no vazio quem se lança em seus braços. (Raniero Catalamessa). Se Deus quiser, continuarei a visitar Presépios durante o período do Advento. Glória a Deus nos Céus, Paz na Terra!