Retiro dos sacerdotes: Pe. Amaro Gonçalo diz que neste pós-pandemia é preciso regenerar as comunidades que são “o ventre materno da fé”

Foto: Duarte Gomes

Terminou ao fim da manhã desta sexta-feira, dia 8 de julho, com a habitual Eucaristia e a presença do bispo diocesano, o segundo turno do retiro anual dos sacerdotes. Desta vez, o orientador foi o Pe. Amaro Gonçalo, da Diocese do Porto e nele participaram 11 sacerdotes.

Em declarações ao Jornal da Madeira, o Pe. Gonçalo diz que ficou surpreendido com o convite para ser orientador deste retiro, já que foi a primeira vez que o fez, mas que isso também constituiu um desafio para si próprio o que é sempre bom. Como tema de reflexão propôs as Sete Cartas que aparecem no Livro do Apocalipse, nos capítulos Segundo e Terceiro, que contém um princípio desta sinodalidade que nos foi proposta pelo Papa e que nos leva também a pensar neste período pós pandemia, que obriga a refazer o tecido das comunidades, que são “o ventre materno da fé, onde ela se gera e regenera”.

Jornal da Madeira – Como é que encarou este convite da diocese para orientar este retiro?

Pe. Amaro Gonçalo – Este convite foi uma surpresa total, porque apesar de eu ter alguma experiência pastoral e também de comunicações, o facto é que nunca tinha orientado um retiro a um grupo de sacerdotes, nem desta diocese nem de outra, apesar de já ter estado aqui no Funchal a fazer algumas reflexões mais de índole pastoral. Por isso foi, de facto um convite que me surpreendeu…

E que certamente o desafiou também?

Pe. Amaro Gonçalo – Sim é verdade. Porque eu tinha a experiência de ser orientado e não de orientador. Acho que foi até audaz o convite para uma pessoa que não tem nenhuma especialização nesta área e foi também uma temeridade eu ter respondido que sim porque depois, quando me dei conta da responsabilidade e do alcance, fiquei… mas depois confiei-me ao Espírito Santo e ele lá ajudou.

Jornal da Madeira – Propôs algum tema de reflexão concreto para estes dias?

Pe. Amaro Gonçalo – Sim. Eu peguei nas Sete Cartas que aparecem no Livro do Apocalipse, nos capítulos Segundo e Terceiro. Essas cartas são muito inspiradoras porque são um olhar de Cristo ressuscitado sobre a vida das comunidades de Éfeso, Esmirna, Pérgamo, etc.. E vê-se que essas comunidades sofrem de males, de doença, de pecados de erros para os quais Deus chama a atenção e o facto é que, falando a cada Igreja, ao anjo de cada Igreja no final universaliza… no final o que o Espírito Santo diz: a todas as Igrejas. De maneira que nós só percebemos bem o que o Espírito Santo diz quando nós nos escutamos uns aos outros, quando entramos nesta escuta recíproca.

“nós só percebemos bem o que o Espírito Santo diz quando nós nos escutamos uns aos outros”

Jornal da Madeira – Há aqui um princípio de sinodalidade…

Pe. Amaro Gonçalo – Sim há um princípio de sinodalidade, nesta forma como o destinatário das cartas começa por ser o destinatário da Igreja, talvez o bispo, mas depois a mensagem dirigida a cada um é dirigida a todas e o que é dirigido a todas é dirigido a cada uma. E é nesta escuta recíproca que a Igreja está a ser examinada, que a igreja está a ser desafiada à conversão. E este é o principal desafio de todas as cartas. É converter-se é voltar ao primeiro amor, ao fervor original, é redescobrir a centralidade de Cristo, deixar que Cristo seja o centro da Igreja e portanto o nosso percurso aqui foi, fazer sete meditações, uma espécie de Lectio divina de cada uma das cartas e depois cada um fazer o trabalho pessoal de se examinar a essa luz, examinar-se a si e à comunidade ou comunidades pelas quais é responsável, neste todo que é a Igreja do Funchal, examinar-se para uma conversão que é pastoral, mas que tem de ser também pessoal antes de mais.

Jornal da Madeira – Os anteriores orientadores destes retiros falam sempre da importância dos mesmos serem pausas de reflexão, dessa tal reflexão de cada um, mas que possa depois ser levada para as comunidades…

Pe. Amaro Gonçalo – Aliás, eu tive o cuidado de dar uma folhinha no final de cada celebração em que havia perguntas para fazerem de modo pessoal, e um conjunto de questões para as tratarem de modo sinodal. Levam consigo essas folhas, para que possam fazer essa reflexão e para que o espírito do retiro se prolongue, conduza e ajude de facto a uma renovação pastoral da vida pessoal e da vida das comunidades.

“se as pessoas saíram e não sentem falta da comunidade é porque não estavam em comunidade é porque estavam de uma forma individual e não estavam como membro de uma comunidade”.

Jornal da Madeira – A propósito deste caminho sinodal que tem sido feito, o senhor D. Nuno Brás diz muitas vezes que a Igreja não pode continuar a ser uma espécie de supermercado onde vamos comprar bens porque temos de nos salvar…

Pe. Amaro Gonçalo – Eu acho que o grande desafio é refazer o tecido da comunidade. Nós estamos numa fase pós-pandemia, assim o esperamos e notamos que a pandemia e a consequente deserção e abandono de muitos para uma espécie de domesticação da Igreja, para um acantonamento, um confinamento que acabou também por confinar a fé dos cristãos ao reduto privado. Agora é preciso chamar, reconvocar, refazer porque isto pôs a nu o nosso trabalho, porque se as pessoas saíram e não sentem falta da comunidade é porque não estavam em comunidade é porque estavam de uma forma individual e não estavam como membro de uma comunidade. É preciso, por isso, redescobrir a importância da comunidade, porque a comunidade é o ventre materno da fé onde ela se gera e regenera. Fora disso, reduz-se a uma piedade individual, a uma religião a la carte.

Jornal da Madeira – Para isso também é necessário que os sacerdotes sejam pastores e não funcionários do sagrado?

Pe. Amaro Gonçalo – Sim, de facto cada vez mais nós percebemos que temos de atender ao específico que é de sermos pastores e não gestores e não sacerdotes do sagrado no sentido daquela procura imediata de uma solução qualquer para a vida. Ser pastor é de facto acompanhar o rebanho, é caminhar com ele, é perceber o sentido e o faro do povo que também deve constituir o farol dos pastores. É esta redescoberta desta dimensão que pode também recriar as nossas comunidades, porque Jesus compadeceu-se porque eram como ovelhas sem pastor, desgarradas, dispersas. E o trabalho do pastor é precisamente o de congregar, o de unir e de perceber que é nesta comunhão que verdadeiramente nós podemos crescer na fé. Fora dela é uma ilusão.

[atualizado às 21h36]