Dia do Clero: D. Nuno Brás reafirma que Deus conhece a ovelha perdida, mas parte sempre à sua procura

O prelado acrescentou que Deus “bem conhece o nosso pecado, as nossas incapacidades, limitações e traições (…). Bem sabe como o abandonamos, uma e outra vez”, mas escolheu-nos para ser sua presença.

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal presidiu esta sexta-feira, dia 24 de junho, na igreja do Cristo Rei, no Arciprestado da Ribeira Brava à Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, em que se assinalou também o Dia do Clero.

Uma oportunidade para o prelado agradecer às entidades presentes, nomeadamente aos presidentes das Câmaras da Ponta do Sol e da Ribeira Brava, ao presidente da Junta da Ponta do Sol e ao coro, que “certamente fez um esforço muito grande para estar aqui nesta manhã de sexta-feira” e demais pessoas presentes e lembrar que esta era mais uma oportunidade de encontro “para nos ajudarmos uns aos outros a contemplar o amor de Deus, e como ele vai dando forma à nossa vida de sacerdotes”.

Claro, disse D. Nuno Brás, que Deus “bem conhece o nosso pecado, as nossas incapacidades, limitações e traições. Bem sabe a falta de liberdade a que nos condenamos uma e outra vez. Bem sabe como o abandonamos, uma e outra vez”, mas mesmo assim vem ao nosso encontro.

Aliás, sublinhou, “escolhe-nos para sermos a sua presença, sem jamais voltar atrás nessa eleição. Escolhe-nos para sermos como Ele, presença concreta, serena, livre, acolhedora. Capazes também nós de sairmos à procura da ovelha perdida. Capazes de a encontrar; capazes de nos alegrarmos com o seu regresso”.

Por essa razão, constatou anteriormente, “jamais passará por cada um nós de modo indiferente. Não desvia os olhos do nosso pecado, das nossas feridas, do nosso existir, caídos na terra, abandonados no caminho, incapazes de nos erguermos pelas nossas forças”.

Pelo contrário. “Detém-se contigo, comigo, com todos. Iniciou o caminho por tua causa, a ovelha perdida. Parte sem se deter, sem olhar a razões e a perigos. Parte com urgência, porque não pode esperar pelo encontro festivo com a ovelha perdida”.

De resto o amor de Deus que nos faz pessoas, “quis um alguém que lhe pudesse responder, corresponder”. Por outras palavras, “um “tu que ele fez e faz ser”. Um “tu”, continuou, “singular, único, cheio da dignidade de imagem e semelhança, com quem o amor pudesse dialogar, a quem se pudesse revelar”.

O amor que Deus é, constatou ainda, “convida-nos a mudar, a progredir, a não ficarmos parados. Convida à conversão”. Aliás, interrogou-se “como poderíamos ficar de braços cruzados quando a fonte inesgotável da vida corre em torrente imparável, aqui bem ao nosso lado, sem nos deixarmos envolver e conduzir por ela”.

Sendo Deus fonte da vida, “fonte que transborda, que põe em movimento a existência, seja na sua complexidade científica, seja na sua simplicidade radiosa” os sacerdotes, disse, devem acolher essa simplicidade que “convida ao dinamismo, ao caminho (à peregrinação).

Depois de afirmar que “não podemos nós deixar de afirmar e de mostrar sempre o amor como realidade primeira” é preciso deixar claro que “o mal, a mentira, o nada não têm o mesmo estatuto do amor: são ausências, negação, realidades decaídas, secundárias; são recusa da realidade primeira que é o amor”.

Por outras palavras, “Deus é a realidade primeira. O ponto de partida de tudo. Aquele antes de quem nada existe. E, por isso, Aquele que está presente em todo o ser. Aquele cujo rosto buscamos em tudo o que vem ao nosso encontro e em nós mesmos”, frisou.

Paróquia oferece paramento e estolas

No início da celebração, coube ao Pe. Johnny Sé Aguiar Arcipreste da Ribeira Brava, dar as boas vindas aos sacerdotes presentes neste dia de “oração pela santificação dos sacerdotes”, convidou “as comunidades e cada cristão a rezar”, com esta intenção, em especial “pelo clero doente e idoso”.

Já a cada sacerdote pediu “um coração de pastor que possam cuidar e estar atentos ao rebanho do senhor e possam recuperar as forças caminhando juntos como peregrinos em Igreja do terceiro milénio, em Igreja Sinodal, escutando o Espírito Santo”, procurando “novos caminhos e linguagens para levar o Evangelho aos nossos irmãos e irmãs”. 

Já o Pe. Manuel Ornelas da Silva, pároco do Cristo Rei, deu conta da alegria da comunidade, em poder receber os sacerdotes da diocese neste dia especial. Tão especial que “o Espírito Santo e a comunidade decidiram oferecer ao Sr. Bispo uma mitra e uma casula e a cada sacerdote uma estola como recordação deste dia.”

Agradeceu ainda todo “o esforço das pessoas que se movimentaram para que este dia fosse possível ao coro, que foi incansável para esta celebração”. O sacerdote revelou ainda que, todas as semanas, “há uma família desta comunidade que manda celebrar uma Eucaristia pela Santificação dos Sacerdotes”, da diocese e do mundo.

Finalmente, D. Nuno agradeceu “à paróquia e ao arciprestado e a todos os que estiveram envolvidos na preparação deste dia, desejando que “o Senhor vos recompense” e pedindo que “continuem a rezar pelos sacerdotes”.

Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás: 

SOLENIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
Dia do clero
Paróquia de Cristo Rei, 24 de Junho de 2022

“Quando encontra a ovelha, põe-na alegremente aos ombros”

1. Como presbitério diocesano, eis-nos uma vez mais reunidos para celebrar a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Que o mesmo é dizer: reunidos para nos ajudarmos uns aos outros a contemplar o amor de Deus, e como ele vai dando forma à nossa vida de sacerdotes.

Deus: o amor, realidade primeira e incriada. O amor, fonte primeira e transbordante de vida. O amor que nos faz pessoas. O amor que cura a ferida e que sempre convida a ir mais longe; o amor, que jamais desiste de alguém. O amor que pôs em nós o seu olhar e nos escolheu para sermos sua presença sacramental.

Jamais esgotaremos o oceano do amor divino. Mas é nesta imensidade que somos convidados a mergulhar, deixando que as suas águas nos envolvam, nos encharquem e dêem ao nosso rosto e a todo o nosso ser um pouco da grandeza, da coragem, da fé e da esperança que apenas ele é capaz de oferecer. 

Diante dele, todas as outras ofertas nos parecem pequenas, incapazes, imperfeitas, mentirosas, fracas.

2. O amor é a realidade primeira. Diante de tentativas para reduzir o amor a uma realidade ao lado do nada ou mesmo do mal — na procura, talvez, de recuperar velhos mitos da antiguidade, e de enraizar a realidade na luta indefinida e circular entre positivo e negativo, bem e mal, deuses e demónios — diante de tais tentativas contemporâneas, mais ou menos conscientes, não podemos nós deixar de afirmar e de mostrar sempre o amor como realidade primeira. O mal, a mentira, o nada não têm o mesmo estatuto do amor: são ausências, negação, realidades decaídas, secundárias; são recusa da realidade primeira que é o amor. Apenas o amor é primeiro, original.

Deus é a realidade primeira. O ponto de partida de tudo. Aquele antes de quem nada existe. E, por isso, Aquele que está presente em todo o ser. Aquele cujo rosto buscamos em tudo o que vem ao nosso encontro e em nós mesmos.

3. Deus é a fonte da vida. É transbordante o ser divino. Não se contenta com a felicidade que vive em si. É infinito bem, amor que se comunica. Fonte que transborda, que põe em movimento a existência, seja na sua complexidade científica, seja na sua simplicidade radiosa. Sim, a simplicidade radiosa — que está aí, à nossa frente; que se oferece ao nosso olhar e a todos os sentidos para que a acolhamos e nos deixemos surpreender por ela — a simplicidade radiosa convida ao dinamismo, ao caminho (à peregrinação). 

Origem do movimento, fonte da vida, o amor que Deus é convida-nos a mudar, a progredir, a não ficarmos parados. Convida à conversão. Como poderíamos ficar de braços cruzados quando a fonte inesgotável da vida corre em torrente imparável, aqui bem ao nosso lado, sem nos deixarmos envolver e conduzir por ela?

4. Deus é amor que nos faz pessoas. O amor não se limitou a criar realidades belas mas indiferentes, mudas. Quis um alguém que lhe pudesse responder, corresponder. E não simplesmente uma generalidade ocasional, mas um alguém concreto, com rosto. Um “tu” que ele fez e faz ser. 

O amor gera pessoas: é assim na Santíssima Trindade. Gera alguém irrepetível mas em constante relação. 

E ao transbordar para fora de si, ao criar, ao dar realidade ao que, decididamente, não é Deus, o amor cria-nos. O resto da criação perderia o seu sentido se não tivesse uma voz, se não existisse um alguém capaz de falar, capaz de responder ao amor em nome de tudo e de todos — se não existisse um “tu”, singular, único, cheio da dignidade de imagem e semelhança, com quem o amor pudesse dialogar, a quem se pudesse revelar.

Neste movimento de vida, Deus é amor que nos faz livres. Não nos cria como autómatos. Arrisca a liberdade da criatura. Oferece-nos a possibilidade de ser, de escolher, de agir. Ama-nos nessa capacidade de existir livremente.

Deus é amor que nos faz comunidade. Não somos uma massa indiferente,  anónima, mas somos com os outros: harmonia de diferentes que apenas conseguem ser em comunidade. Necessitamos dos outros. Necessitamos uns dos outros: da família, da comunidade, do presbitério que somos, da diocese que amamos.

5. Deus é amor que cura a ferida. Ele sabe o preço da liberdade na sua criatura. Sabe que esse preço é a cruz que Ele próprio experimentou em primeira pessoa. A cruz do amor. Não por causa do homem bom nem do justo. A cruz é o que brota desse movimento impensável daquele que ama o pecador: é movimento de amor “quando éramos ainda pecadores”. Amor provado. 

O amor conhece a cruz desde o início do drama, e apesar disso não desiste de criar e de curar. Jamais passará por cada um nós de modo indiferente. Não desvia os olhos do nosso pecado, das nossas feridas, do nosso existir, caídos na terra, abandonados no caminho, incapazes de nos erguermos pelas nossas forças. 

Pelo contrário: ei-lo que se detém contigo, comigo, com todos. Iniciou o caminho por tua causa, a ovelha perdida. Parte sem se deter, sem olhar a razões e a perigos. Parte com urgência, porque não pode esperar pelo encontro festivo com a ovelha perdida.

Ei-lo que nos cuida sem descanso e nos volta a erguer. Bem sabendo que mais uma e outra vez nos encontrará feridos pelo caminho. Bem sabendo que mais uma e outra vez terá que sair, cuidar de nós, de cada um e de todos. E bem sabendo que uma e outra vez — sempre — nunca irá desistir: como poderia o amor desistir?

6. Deus é amor que se faz carne. É o amor que se manifesta em Nosso Senhor Jesus Cristo, o Bom Pastor que nos toma aos ombros e que, pedindo-nos que façamos um com Ele, insistentemente nos reconduz, cheio de ternura, ao redil da Igreja. É o amor que se faz carne naquele homem, plenamente homem, Jesus de Nazaré.

Poderíamos pensar que o amor era um conjunto de boas intenções, de ideais, no fim de contas pouco concretizáveis. O homem concreto, pessoal e único que é Jesus, em quem o amor divino se esgota — e que, por isso, nos atrai a si (como atrai o mundo inteiro) — impede-nos de reduzir tudo a um ideal. O amor de Deus é um homem, com mente, olhos, ouvidos, boca,  mãos. O amor de Deus é um homem com coração humano e divino. Capaz, por isso, de ser a resposta plena e perfeita ao amor primeiro e último — capaz de ser o nosso porta-voz diante do Pai (nosso e de toda a criação). 

E capaz, por isso, de nos convidar a deixar tudo quanto temos e somos, ali, na praia da vida, para seguirmos com Ele. Atrás dele. Por causa dele.

7. Deus é amor. E, de entre a multidão, o seu olhar repousou sobre cada um de nós e escolheu-nos. Bem conhece o nosso pecado, as nossas incapacidades, limitações e traições. Bem sabe a falta de liberdade a que nos condenamos uma e outra vez. Bem sabe como o abandonamos, uma e outra vez. E, no entanto, escolhe-nos para sermos a sua presença, sem jamais voltar atrás nessa eleição. Escolhe-nos para sermos como Ele, presença concreta, serena, livre, acolhedora. Capazes também nós de sairmos à procura da ovelha perdida. Capazes de a encontrar; capazes de nos alegrarmos com o seu regresso.

O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes
e reconforta a minha alma.

Ele me guia por sendas direitas
por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
não temerei nenhum mal,
porque Vós estais comigo:
o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.

Para mim preparais a mesa
à vista dos meus adversários;
com óleo me perfumais a cabeça
e meu cálice transborda.

A bondade e a graça hão-de acompanhar-me
todos os dias da minha vida
e habitarei na casa do Senhor
para todo o sempre.