Irene Catanho: “É um perigo muito grande não conhecer a sua história”

Foto: Jornal da Madeira

“A festa que o povo é”, é o livro infantojuvenil da autoria de Irene Catanho, com ilustrações de Rafaela Rodrigues, que conta a história da Ribeira Seca.

O Jornal da Madeira falou com a autora que considerou “um imperativo apresentar esta história”.

Como nasceu a ideia de escrever em livro sobre a realidade da Ribeira Seca? 

Irene Catanho – Porque era um imperativo apresentar esta história. Não me preocupa se as pessoas gostem ou não da Ribeira Seca. Se concordam ou não, com o que se faz na Ribeira Seca. Eu quero que as pessoas saibam o que de facto aconteceu na Ribeira Seca. A partir daí cada um decide, cada um é livre. Temos lutado tanto pela liberdade, ai de nós se não deixássemos cada um escolher. É importante que as pessoas saibam o que se passou. Porque muita gente fala da Ribeira Seca sem saber. Falam do Pe. Martins se saber o que foi o Pe. Martins. Este livro nasceu, foi escrito, para poder explicar a realidade. Aqui não há mentiras.

Muita gente depois disto já me vieram dizer que eu abri caminho e que vão aparecer mais livros. Gostei muito. 

Pensei escrever este livro com uma linguagem infantojuvenil. Explica-se as coisas para as crianças, porque ao explicar às crianças estamos a explicar ao mundo. 

Não é a história completa. É uma parte daquilo que é a história da Ribeira Seca. Fui aflorando os temas. Já me perguntaram se vou lançar outro [livro]. Eu digo que em princípio sim, mas agora explicando tema por tema. Aqui foi quase um apontamento, do que tinha acontecido. 

“Eu quero que as pessoas saibam o que de facto aconteceu na Ribeira Seca. A partir daí cada um decide, cada um é livre”.

Considera que a história da Ribeira Seca pode cair nos esquecimento e as crianças desconhecerem a história do seu povo?

Irene Catanho – É isso que temos visto. Quando ouvimos falar de determinados partidos políticos. O povo tem má memória. Ontem vivíamos numa ditadura e hoje parece que querem voltar a ela. Quando vejo comentários no Facebook: “volta Salazar”! Ninguém imagina o que foi. É um perigo muito grande não conhecer a sua história. Sem passado não há futuro. Se ninguém souber as suas raízes e o que aconteceu, as coisas pioram. As pessoas esclarecidas, que sabem o que se passou, a vida, o futuro será melhor. 

Até agora, a mensagem tem passado, de boca em boca, pela avó, pela mãe ou pela tia. Mas é importante registrar. Fico feliz porque o livro já está na escola. Isso é muito importante para a Ribeira Seca.

No prefácio da obra, José Eduardo Franco escreve que “recorda-se, neste livro, a história de uma terra deprimida que recebeu um invulgar pastor, o Padre José Martins Júnior, o qual fez o povo sonhar a sua libertação da pobreza e da falta da educação”. Como é que isto aconteceu?

Irene Catanho – Quando apresentei o livro contei uma história. Eu devia ter uns 5 ou 6 anos. O Pe. Martins era visita frequente na casa dos meus pais. Lembro-me que chegamos à Quaresma e o meu pai disse: “Senhor padre, estamos a chegar à quaresma e a única coisa que temos é carne de porco e eu queria pagar a bula”. O Pe. Martins respondeu: “Senhor José, mas como é que eu vou mandar esse dinheiro, eu não sei a direção, não tenho carteiro que envie”. Ficamos todos em silêncio. Às vezes costumo fazer o paralelo com o poema “O operário em construção” de Vinicius de Moraes. Há uma parte que diz: “Não sabereis nunca o quanto / Aquele humilde operário / Soube naquele momento!”. O Pe. Martins não saberá nunca o quanto, mudou a nossa vida naquele momento. A nossa história ficou marcada pela diferença, pela amizade, pela compreensão. 

O Pe. Martins veio fazer-nos gente. As pessoas da Ribeira Seca pensavam que eram escravos. A maior parte eram colonos. As terras eram de senhorios. Trabalhavam para levar aos senhorios. Não sabiam que tinham os mesmos direitos. Não sabiam ser gente. Porque nunca ninguém lhes tinha dado essa oportunidade. 

Nós éramos do campo e havia os da vila. O padre, sendo um da vila, vem connosco e é um de nós. Isso nós não esquecemos. Aquilo que ele nos deu nunca ninguém nos tinha dado. 

“Sem passado não há futuro. Se ninguém souber as suas raízes e o que aconteceu, as coisas pioram”

Qual é o significado do título do livro: “A festa que o povo é”? 

Irene Catanho – Devo confessar que eu tinha outro título, que seria: “Era uma vez a festa de um povo”. Quando o Professor Eduardo Franco leu a história, sugeriu-me este título. Eu percebi logo a essência deste tema. O próprio povo é festa. 

O Pe. Martins quando chegou aqui era músico. Para aliviar as dores, ele põe o povo a cantar. Ele pediu às pessoas que se exprimissem em verso. Ele fazia a música. Tudo o que nós fizemos, por exemplo, a construção do adro, nós acartávamos as lajes de muito longe, a pé, ele vinha cantando, tocando… o peso era mais leve. Para tudo fazíamos uma festa. Lutávamos por muitas coisas. No fim, tínhamos sempre uma música pela conquista. Queríamos reivindicar uma coisa, fazíamos uma música para reivindicar. Vivemos uma luta e lutamos, mas em festa, não usámos armas. A nossa arma foi a música. O próprio povo é uma festa.

Ao longo do livro encontramos também alguns poemas e canções. Ainda cantam estas músicas?

Irene Catanho – São dançadas pelo nosso grupo, “Cantares da Ribeira”. Não somos bem um grupo folclórico. Costumo dizer que somos “folclórico de intervenção”. As nossas canções reivindicam, festejam. Os nossos jovens estão a valorizar muito a música. Querem dançar, querem cantar. Temos um grupo de jovens muito interessante que está a valorizar estas nossas tradições. 

A paróquia tem muitas crianças e jovens? 

Irene Catanho – Há um grupo grande de crianças e jovens. Isso deve-se ao Pe. Martins. Tendo ele, 84 anos, consegue ser mais jovem do que eu, quando lida com eles. Ele entra nos jogos com as criança. Quando chegou à paróquia ele foi irmão daqueles que estavam, depois passou a ser o tio… hoje é o avô e bisavô. Com todos, ele dá-se bem. As crianças têm-lhe uma amizade. 

Ele ensina música a estas crianças pequeninas. Ensina bandolim a estas crianças de 8 anos e 10 anos. Tem uma paciência com as crianças e com a juventude que nós não temos. Mas ele sempre teve. 

“Vivemos uma luta e lutamos, mas em festa, não usámos armas. A nossa arma foi a música”.

E a educação? 

Irene Catanho – Para ele foi muito importante. Temos uma frase dele escrita: “Só a cultura liberta da mediocridade”. Para ele, era muito importante que soubéssemos e depois decidíssemos. Ele educou e depois cada um percorre o caminho que quiser. Educou advogados, professores, doutores, enfermeiros. Cada um com as suas ideias. Ele queria era que todos aprendessem. 

Lembro-me quando tinha 10, 11 anos. Lembro-me do sr. padre ir às portas das pessoas pedir: “Mande os seus filhos para a escola”. Naquela altura toda a gente tratava o gado. E queriam a ajuda dos filhos. O Pe. Martins dizia que era necessário os filhos estudarem: “Quem não sabe ler nem escrever, quem não aprende, não vai ser ninguém”. Muita gente tem escola, que ele mandou. 

A grande paixão dele é a cultura e a educação. Uma questão muito importante. 

Não havia escola. O Pe. Martins pôs duas salas da paróquia ao dispor. Vieram dois professores dar aulas. 

Nas instalações da paróquia, ele também dava aulas para as pessoas se prepararem para os exames de nono ano. Ele revolucionou a Ribeira Seca em tudo. Não podemos esquecer que ele abriu o único caminho que temos. Não tínhamos estrada. Não tínhamos água canalizada. Não tínhamos luz. Tudo o que a Ribeira Seca tem, foi o Pe. Martins que trouxe. Esta igreja não tem um tostão de entidades públicas: nem da igreja (diocese), nem da câmara, nem do governo. Foi tudo o povo.