“Participar naquela canonização foi qualquer coisa de indescritível, de único”

D.R.

A Irmã Graça Nóbrega esteve em Roma na celebração de canonização de Santa Maria Rivier, fundadora das Irmãs da Apresentação de Maria. A canonização foi realizada pelo Papa Francisco na Praça de São Pedro no passado dia 15 de maio.

O Jornal da Madeira falou com esta religiosa que partilhou o seu testemunho desta celebração tão significativa para a sua congregação e para toda Igreja.

Como viveu a canonização de Maria Rivier? 

Irmã Graça – Participar naquela canonização foi qualquer coisa de indescritível, de único. Toda esta explosão de contentamento começou no dia 13 de dezembro de 2021, quando o Papa Francisco anunciou que Maria Rivier seria canonizada. Não há palavras para expressar a alegria que senti. Por muitos e muitos dias seguidos, o motivo desta alegria não me deixava quer de noite quer de dia. E lembrava-me de tantas Irmãs que rezaram, que pediram a canonização da nossa fundadora, e foram tantas as irmãs que desejaram que este momento fosse realidade. E foram tantos amigos e devotos de Maria Rivier que, ao longo dos anos, lhe foram confiando as suas intenções, os seus males, e os seus desejos… e foram tantas as graças alcançadas. E eu sentia-me felizarda. Estava próximo esse dia. Não sabíamos quando. E foi no dia 4 de março de 2022 que o Papa Francisco anunciou o dia da canonização de Maria Rivier: 15 de maio de 2022. Parecia que nunca chegava esse dia e depois parecia que faltava pouco tempo. E por isso comecei a preparar-me para esse dia único, irredutível. Achei que a melhor maneira seria reler os livros de Maria Rivier: “Perfil espiritual”, “Últimos Conselhos”, “Amar o que tu amaste” (Pe. Dário Pedroso), entre outros. Intensificando a minha oração. Queria que Maria Rivier me reconhecesse como sua filha. Não sei…

“lembrava-me de tantas Irmãs que rezaram, que pediram a canonização da nossa fundadora, e foram tantas as irmãs que desejaram que este momento fosse realidade”.

Como foi o dia da canonização? 

Irmã Graça – Madrugámos à  entrada da Praça de S. Pedro. Que emoção, que alegria interior e exterior. Os nossos lenços, chapéus, echarpes, bandeiras, tudo parecia insuficiente para aplaudirmos a nossa querida fundadora. Guardarei para sempre na memória aquele primeiro quadro na Basílica de São Pedro. Lá estava o retrato de Maria River no canto superior esquerdo. Sim, é verdade. Maria Rivier vai ser canonizada. Não, não há palavras para descrever este momento. Maria Rivier a ser aplaudida por Irmãs,  por pessoas que nunca vi. Estávamos ali porque Maria Rivier continua viva nas Irmãs, nos associados, nos leigos que trabalham connosco, nos alunos, nos jovens, nos quatro cantos do mundo. Como é que uma pessoa “tão pequena” pode ir tão longe! Bem ela dizia: Juntemo-nos”. 

Um outro momento marcante, foi ir pela primeira vez a uma loja, a Âncora [livraria junto Praça S. Pedro nem Roma] e comprar artigos religiosos de Santa Maria Rivier. Um terço, uma dezena, um poster, uma vela… Era a primeira vez que isso acontecia. Maria Rivier, invocada como Santa, como qualquer santo! E naquele dia foram 10 canonizados.

Também queria referir um momento apresentado pelas Irmãs e leigos das Filipinas. Como foi comovente a cena da “Pietà” com a presença da criança milagrosamente curada pela intercessão da nossa fundadora. A cena mais real que se podia ver.

  “Guardarei para sempre na memória aquele primeiro quadro na Basílica de São Pedro. Lá estava o retrato de Maria River no canto superior esquerdo”.

Quantas pessoas foram da Madeira?

Irmã Graça – Éramos 17, entre irmãs e leigos. Também não tivemos muito tempo para preparar a canonização. Foi no dia 4 de março que o Papa anunciou que o dia da canonização seria a 15 de maio. Outros santos, já sabiam a data desde o ano passado, pois era para serem canonizados mais cedo e foi adiado por causa da pandemia. Tiveram mais tempo de preparação, também para pedirem os vistos dos países mais distantes. Estamos em 20 países, participou na canonização um grupo muito grande. É tão comovente ver pessoas que nunca tinha visto, do outra língua, falar de Maria Rivier. É bonito ver que afinal uma mulher tão pequenina com 1,32m de altura, ser tão conhecida e amada e deixar uma obra. Trabalhar na educação é uma obra do passado, é do presente e é uma obra de futuro. 

Esta é a missão das Irmãs da Apresentação de Maria: a educação?

Irmã Graça – A nossa missão principal é trabalhar na educação cristã da juventude. Por isso é que temos várias escolas. Mas também não só, porque o carisma não ficou há duzentos anos atrás, temos que atualizar, por isso trabalhamos com idosos, nas paróquias. Noutros países, fazemos acompanhamento nas prisões, com refugiados. 

Que virtudes pode destacar de Maria Rivier?

Irmã Graça – Uma mulher apaixonada por Jesus Cristo. Vivia na terra, mas a pensar na eternidade. Queria levar os outros, para o céu. O amor a Nossa Senhora: Ela foi curada pela intercessão de Maria. Quando era pequenina, com 16 meses, caiu e ficou com uma paralisia. Em pequenina, a mãe levava-a, todos os dias, para a capela dos penitentes, onde tinha a imagem de uma “Pietà” e dizia: “Aquela Senhora vai curar-te, reza”. Ela ia pedindo a cura e dizia: “Se me curares eu vou trazer muitas crianças e hei-de ensiná-las a ama-te e a amar a Jesus”. Ela foi amadurecendo esta ideia. E foi tornando-se realidade na vida dela. Este amor a Nossa Senhora que ela foi alimentando. Foi a sua primeira escola de fé, diante da “Pietà”. Esta ligação a Nossa Senhora vai perdurar a vida inteira. Ela sempre dizia: “Tudo obtive à custa de terços”. A importância da oração, da ligação a Nossa Senhora, da devoção mariana. Ela sem crer, fundou a congregação no dia da Apresentação de Maria, porque ela não conhecia esta festa. Foi o diretor espiritual que disse para fazer a celebração no dia 21 de novembro que era o dia da Apresentação de Maria. 

Temos muita coisa escrita de Maria Rivier. As irmãs conseguiram recuperar mais de três mil cartas, depois da morte dela. Esses documentos estão nos arquivos da congregação. Vê-se o grande amor que tinha aos pobres. Gostava de dar e partilhar o que tinha, quando encontrava alguém na rua. Este desejo de ajudar. 

Outro aspeto importante é o zelo. Ela dizia: “Quem me dera ter mil vidas, para fazer conhecer e amar Jesus Cristo”. Quando morreu deixou mais de 300 irmãs e 141 escolas, na França. Ela dizia que “um dia as minhas irmãs, atravessarão os mares”. Quatro anos depois da morte dela começaram a partir as irmãs para tantos lado, Canadá, Suíça… Hoje estamos em 20 países.  

“Ela é uma grande mulher que merece ser conhecida e que se fale dela porque é um exemplo de vida”.

Como nasceu a sua ligação com Maria Rivier? 

Irmã Graça – É interessante, o meu começo vocacional está ligado à beatificação de Maria Rivier. Eu era aluna no colégio da Apresentação de Maria [ Rua das Mercês, Funchal]. Senti-me muito interpelada numa festa. Vi no palco a representação da vida de Maria Rivier. No meio do ginásio apinhado, de pé, atrás, num cantinho, aquilo tocou-me. Parece que o meu primeiro chamamento começou na beatificação. Agora, eu ter a graça de ir à canonização, é qualquer coisa de único. Comoveu-me muito estar ali naquela Praça de S. Pedro, ver aquelas multidões.

Ela é uma grande mulher que merece ser conhecida e que se fale dela porque é um exemplo de vida. Maria Rivier tem uma vida tão exemplar, tão bonita, cheia de zelo, de amor a Nossa Senhora, a Jesus Cristo, aos pobres, à Igreja, que vale a pena ser anunciada. Quando alguém é canonizado como aconteceu com Maria Rivier, não é só para a Congregação, é para toda a Igreja.