Pe. Aires Gameiro: “As Igrejas e as Religiões ajudam a vida humana saudável”

Foto: Jornal da Madeira

A Ordem Hospitaleira de São João de Deus na Madeira está em festa. No mês passado, fez  100 anos que os Irmãos chegaram à Madeira. “A 7 de fevereiro de 1922, chegaram ao Funchal, o Ir. Manuel Maria Gonçalves e o Ir. António Maria Rodrigues, primeiro Irmão madeirense, de Água de Pena, para arrendar a Quinta [do Trapiche] em 1922”, explicou o padre Aires Gameiro, que partilhou com o Jornal da Madeira a história dos primeiros passos da Ordem Hospitaleira no Funchal e do Beato João Jesus Adradas Gonzalo. 

Na entrevista, o padre Aires falou também da situação da saúde mental em tempos de pandemia. 

Faz 100 anos que os irmãos de São João de Deus chegaram à Madeira, pode falar-nos como aconteceu este início? 

Pe. Aires Gameiro – Alguns Irmãos de D. João de Deus no início do século XX começaram a vir à Madeira e aos Açores pedir de porta em porta para os doentes pobres assistidos na Casa de Saúde do Telhal. Os Irmãos Emetério e Desidério, e mais tarde o Irmão Sinforiano, entre outros, hospedavam-se no seminário e encontravam-se com D. Manuel Agostinho Barreto que permitia o peditório e pedia que os Irmãos acompanhassem algum doente para o Telhal. O desejo de D. Manuel era que os doentes fossem assistidos no Funchal pelos Irmãos de S. João de Deus. O Manicómio Câmara Pestana começou a ser planeado por 1903, mas o bispo D. Manuel manteve o desejo de ter os Irmãos e terá recorrido à proprietária da Quinta do Trapiche, com a capela de S. João Batista e Santa Ana, D. Maria Paula do Rego, que aceitou cedê-la para os Irmãos aí assistirem os doentes. Vieram dois Irmãos em 1908 para receber a Quinta, mas a proprietária voltou atrás por pressões dos que não queriam “jesuitismos” na Madeira. Entretanto, o Manicómio Câmara Pestana funcionou de 1906-1925, sem satisfazer os doentes, as famílias e os governantes nem ao seu Diretor clínico o Dr. João de Almada.

Perante repetidas queixas, em 1920, o Presidente da Junta Geral, o Dr. Vasco Gonçalves Marques, e o Dr. João de Almada, com outros membros da Junta, em sessão tumultuosa de 28 de maio de 1920 propuseram que os Irmãos viessem tomar conta do Manicómio para fazer face às deficiências e mandou vir dois Irmãos ao Funchal para o receber por estarem convencidos que iam conseguir, mas os facciosos contrariaram a sua opção e a de 2372 funchalenses em baixo assinado. Quem gostar de saber como decorreu a sessão leia a ata no livro “História da Casa de Saúde S. João de Deus, Volume I pp.62-75” pela qual ficarão com uma ideia do clima hostil à Igreja. Os Irmãos Elias de Almeida e Manuel Maria Gonçalves, que vieram ao Funchal para esse fim, tiveram que regressar de mãos vazias. D. António Manuel Ribeiro da Silva, bispo desde 1911, pediu aos Irmãos que viessem em 1922 para lhes arrendar a Quinta do Trapiche, entretanto doada à diocese pela proprietária. Era a quarta tentativa. 

A 7 de fevereiro de 1922, chegaram ao Funchal, o Ir. Manuel Maria Gonçalves e o Ir. António Maria Rodrigues, primeiro Irmão madeirense, de Água de Pena, para arrendar a Quinta em 1922.

Os dois Irmãos, a pedido de D. António Manuel Ribeiro da Silva, regressaram ao Telhal a 5 de maio a acompanhar um sacerdote doente ao Telhal, donde regressou em 15 de maio o Irmão Manuel Maria Gonçalves acompanhado não pelo Ir. António Maria Rodrigues, mas pelo Irmão Sinforiano Lucas Feijão que foi um dos fundadores. E a partir de 1 de Junho começam a preparar as instalações da Quinta do Trapiche com muita generosidade e colaboração dos madeirenses.

São estas datas que começámos a celebrar escolhendo o dia 11 de fevereiro de 2022, coincidente com o Dia Mundial do Doente. Estiveram presentes o Presidente Regional do Governo, Dr. Miguel Albuquerque, o senhor Bispo da Diocese, D. Nuno Brás, os dois bispos eméritos, D. Teodoro e D. António Carrilho, o Superior Geral vindo de Roma, Irmão Jesus Etayo, o Provincial, Irmão Vitor Lameiras e numerosas autoridades. Foi benzido o busto do Beato João de Jesus Adradas Gonzalo, frente à Unidade com o seu nome, aberta em 2018, e inauguradas duas unidades requalificadas: S. João de Deus e Coragem. Seguiu-se o almoço dos convidados e dos doentes. Às 15 horas, com a Santa Missa continuou-se a celebrar o Centenário e o Dia Mundial do Doente na Igreja da Casa de Saúde, inauguração solene das pinturas dos retábulos, limpeza geral e estreia de vasos sagrados e algumas alfaias litúrgicas. 

“A 7 de fevereiro de 1922, chegaram ao Funchal, o Ir. Manuel Maria Gonçalves e o Ir. António Maria Rodrigues, primeiro Irmão madeirense, de Água de Pena, para arrendar a Quinta em 1922”.

O Centenário continuará a ser celebrado em 2023 e em 2024 em que será celebrado o Centenário da Casa de Saúde, já com 38 doentes transferidos do Manicómio Câmara Pestana no dia 21 de maio de 1924. A inauguração realizou-se no dia 10 de agosto de 1924, com pompa e solenidade cristã. Nesse ano ocorrem os 93 anos em que o Beato João de Jesus Adradas sofreu o martírio por Cristo e pela Hospitalidade para com os doentes. Com efeito, em 1936, quando os Irmãos da Comunidade de Ciempozuelos foram presos, ele não teve conhecimento e quando soube foi-se apresentar aos milicianos dizendo: “onde estiverem os meus Irmãos, aí estarei eu”. Ficou preso no Colégio de Santo António em Madrid cerca de quatro meses; tornou-se o mestre, o consolador e animador dos outros Irmãos e de muitos presos. Fazia palestras, retiros, confissões, como ele dizia muitas vezes: “Não esqueceis que o amor leva sempre a muito sofrimento, porque nos obriga a suportar os defeitos e misérias dos demais”. A 28 de novembro de 1936, as milícias foram-nos buscar; eram 22 religiosos, tendo sido fuzilados em Paracuellos del Jarama, perto de Madrid. O Pe. João Jesus faleceu nesse dia, com 58 anos de idade e 31 anos de profissão religiosa. Na Liturgia da sua memória é transcrito um belo texto da sua autoria em que já parece antecipar a sua vocação de mártir e se prepara para ela. Convida os seus leitores a olhar para o Crucifixo, como meta e relógio a atingir a tempo, a olhar para Jesus crucificado o “modelo e o protótipo dos predestinados” . E como quem olha para o espelho onde se vêm as próprias nódoas e se ouve: “Pai, perdoai-lhes…”. “A vista do Crucifixo, diz, atrai para o amor e serviço a Jesus”. “À sua vista deveis sentir-vos animados a serdes bons, obedientes e santos”. (cf. “O Beato João Jesus Adradas e a fundação da Casa de Saúde S. João de Deus no Funchal”, no prelo).

  Lembro ainda que o Irmão Sinforiano Lucas Feijão chegou ao Funchal 7 de fevereiro de 1922, onde colaborou na fundação e primeiros anos da Casa e partiu para Angra do Heroísmo em 24.03.1927, onde foi um dos fundadores da Casa de Saúde S. Rafael, em Angra do Heroísmo e onde deu a vida pela hospitalidade quando foi morto por um doente transtornado, em 16 de dezembro de 1949.

Porque foi colocado o busto do Beato João Jesus Adradas Gonzalo à entrada da Casa de Sáude? Quem foi este irmão e qual a sua ligação à Madeira?

Pe. Aires Gameiro – Já ficou respondido. Este busto e a Unidade com o seu nome inaugurada em 2018 era mais que devida. Este Irmão era Provincial em 1922 e foi ele que diligenciou a fundação canónica da Comunidade em 1922, a visitou em 22 de fevereiro de 1923 e visitou de novo a mesma em agosto de 1924, já com cerca de 40 doentes transferidos do Câmara Pestana, para a inaugurar em 10 de agosto desse ano. Foi beatificado por ter dado a vida pela hospitalidade, fuzilado com outros Irmãos da sua comunidade em 1936 na Serra de Guadarrama, perto de Madrid. Foi beatificado em 25 de outubro de 1992 com outros irmãos mártires, em número de 71, pelo Papa João Paulo II.

“A pandemia da corrupção parece estar a destruir a cultura cristã, mas, antes, destruirá os impérios por dentro, como de costume, por implosão”

Considera que a pandemia da covid-19 afetou a saúde mental dos madeirenses? De que forma? 

Pe. Aires Gameiro – Não vou limitar-me à Madeira. O medo e a constelação de modalidades de medo observam-se de forma generalizada em famílias, grupos e nas interações sociais. Dão pelo nome de ansiedade, aflição, insegurança e confusão. A insegurança não desaparece com a vacina, nem com a recusa dela. Em dois casos reais de recusa de vacina, uma por objeções de consciência e outra por pareceres médicos, sobre riscos para a saúde, uma perdeu o emprego por imposições políticas e procura outro país porque tem medo de ficar na pobreza, outra não perdeu por ser reformada, mas vive receosa do medo dos familiares e vizinhos a contaminarem e de serem contaminados. Os testes mitigam os receios, mas não os anulam. 

Os fatores de incerteza, insegurança, falta de fé-confiança nos cientistas; as contradições entre eles, conflitos de interesses, lucros das Big Pharma e Big Info, domínio e poderes políticos, aumentam os medos e consolidam a submissão. O círculo vicioso aumenta os medos, ansiedade e confusão, levando a procurar o alívio pelo conformismo com figuras que sosseguem e acalmem. Grupos de insubmissos e inconformistas, por outro lado, tomam consciência do processo de infantilização a que estão a ser sujeitos pelos poderosos, revoltam-se e criam mais divergências e insegurança nas populações. Os de mais poder e interesses usam mais técnicas autoritárias e ditatoriais e geram manchas sociais de rebelião e revolta. Os inseguros e confusos isolam-se nos confinamentos do medo e das imposições dos poderes autoritários e entregam-se à solidão mórbida. 

Os cientistas vão sossegando como podem, mas tarda a emergir a verdade científica a toda a prova. As controvérsias e contradições causam insegurança, ansiedade e solidão. Os problemas de saúde mental ligam-se a várias pandemias paralelas: Covid-19, medos difusos, infodemia da Big Info dos Media que alimentam fluxos de informação contraditória paralelos e geradores de mais dúvidas e incertezas. Outra pandemia ainda mais grave e incurável (antes não fosse) é a da corrupção igualmente difusa e persistente, produto de muito poder e dinheiro sujo à procura de fundos de lavagem movimentados por egos colossais inflacionados e concentrados. Aí temos a corruptodemia que causa oprimidos, pobres, indefesos, ansiosos, vendidos e comprados, numa palavra, destruídos e escravos.

 Os transtornos mentais e morais marcam presença neste caldo pernicioso que merece o nome humano-diabólico. E se os sistemas tentarem esconder estas virulências como acreditar neles quando Infos credíveis não só garantem que os bilionários triplicam e medram os seus volumes de massa? E será que fizeram aumentar a miséria e as perturbações mentais dos medos, pavores e angústias durante estes dois anos de pandemia?  

As fakenews circulam em abundância; como verdades “provadas”, é certo. Circulam fakenews ditas “provadas” e verdades ditas fakenews, à maneira das estórias dos doentes delirantes que cativam os seus médicos e enfermeiros, e os tornam delirantes, ficando uns e outros sem saber em quais acreditar. O Ocidente imperial já estará a viver estes falsos-verdadeiros e verdadeiros-falsos, nos medos e confusões que não acalmam por não se saber quem são os monstros e quem são os anjos? A pandemia da corrupção parece estar a destruir a cultura cristã, mas, antes, destruirá os impérios por dentro, como de costume, por implosão, os impérios corruptos com os miasmas que fabricam acabam por apodrecer ciências de evidência, as consciências de coração que distinguem o bem do mal e a ordem entre o Criador e os homens criados. Até nas ciências de evidência entra o cepticismo. Como repor e reparar esta Ordem sem a qual a vida saudável se torna impossível? Como consolar e acalmar os medrosos e confusos da saúde mental e espiritual?

“O Centenário continuará a ser celebrado em 2023 e em 2024 em que será celebrado o Centenário da Casa de Saúde, já com 38 doentes transferidos do Manicómio Câmara Pestana no dia 21 de maio de 1924. A inauguração realizou-se no dia 10 de agosto de 1924”

E as Igrejas e as Religiões ajudam a vida humana saudável e whole (íntegra, incorrupta, santa)? As contaminações do caldo mundano e perda de ligação ao núcleo do ser, e da verdade podem deixar de acalmar e garantir a liberdade e a saúde. O Evangelho garante: «a verdade vos torna livres» (Jo, 8,32). Mas quem aceita que para a verdade só há um caminho, a Pessoa que proclama: «Eu sou o caminho a verdade e a vida»?. Será que há outro remédio para as diversas pandemias que nos afetam?  

 É só desta que pode vir a reparação das ciências, das consciências, da bondade a favor do bem comum, da dignidade de todos os irmãos. Mas só virá através da reparação dos humanos e da reposição da Ordem entre eles na dependência de Deus. A cultura ocidental tem tentado o contrário desde há cerca de dois séculos e meio pondo o super-homem a acima de Deus e seu criador e assim as diversas pandemias que afetam o homem não vão ceder. (Para ler mais: Lc 6, 27-38).

O seu último livro tem como título “Voar na fantasia”. De que se trata? 

Pe. Aires Gameiro – Trata-se de um livro pouco planeado e de estilo diferente das dezenas de outros que já publiquei. Surgiu de um desafio com a outra autora, a psicóloga Margarida Cordo, que apresentou em 2018 um outro meu livro, também diferente dos outros, um livro de poemas com o título “Dizer o Infinito…”. O conto e a poesia permitem dizer mais, com mais sentido, em menos palavras, mas mais escolhidas.

Na sessão de apresentação surgiu a conversa se não seria de os dois publicarmos um livro de contos. Ela tinha alguns já escritos e eu também. E logo ali surgiu o tal desafio aceite por ambos. Tempos depois o livro estava a caminho do editor e em 2021 teve uma apresentação em Lisboa e mais tarde outra aqui na Reitoria da Universidade da Madeira. Foram dois lançamentos que reverteram um a favor dos projetos da Fundação S. João de Deus e o outro a favor da Associação de Família de utentes da Casa de Saúde S. João de Deus «Entre Laços». Tem sido um sucesso. Agora se a vida der poderá vir um segundo volume.