A hospedaria da fraternidade

D.R.

Nestes dias acompanhei uma reflexão do Frei Carlos Antunes, monge no mosteiro cisterciense de Santa Maria do Sobrado, na Galiza.

Ao falar sobre a prática da hospitalidade dos mosteiros, fez referência à “hospedaria monástica”.

“A hospedaria monástica é fundamentalmente para quem necessita de ser acolhido, para quem necessita de descansar das cargas da vida, da doença, da angústia, da solidão. Para quem anda à procura de um sentido para o que vive”, disse.

Este espaço, junto ao mosteiro, carateriza-se pela disponibilidade no acolhimento de cada pessoa e da sua história. “Acolhemos pessoas que se sentem excluídas na sua própria família, na sociedade, e também, por vezes, na Igreja. Pessoas que se esqueceram do que é ser tratado com respeito e carinho. Pessoas que não são capazes de acreditar em Deus porque foram maltratadas. Pessoas que procuram uma razão para continuar a viver e para acreditarem em si mesmas”.

A hospedaria monástica, “oferece um tempo e um lugar de reconstrução”, onde os monges oferecem o que são e o que têm. “Oferecemos escuta, silêncio, a liturgia, uma vida simples e frugal, oferecemos uma presença empática e fraterna”.
Através da “força reconstrutora de uma escuta empática”, a pessoa sente que a sua história é realmente acolhida pelo outro que se faz irmão.

Diante desta descrição, é fácil compreender que a hospitalidade é caminho privilegiado para a fraternidade. Acolher o outro como irmão, implica reconhecer a própria vulnerabilidade, deixar que o outro nos olhe e encontre em nós um lugar onde possa descansar.

A hospitalidade implica a partilha do próprio ser e da própria história, também ela tocada pela noite e pela solidão. Respeitar o mistério do outro, sem leituras apressadas e julgamentos superficiais, é reconhecer que todos estamos no mesmo barco, tocados pela mesma tempestade.

São Paulo, nas suas cartas, ensina-nos a olhar para os outros como irmãos, não porque pertencem ao grupo de companheiros que lutam pelo evangelho, mas porque são “amados do Senhor” (2 Ts 2, 13). Na verdade, é o amor que nos faz irmãos.

Tornar a Igreja numa hospedaria da fraternidade, numa casa de irmãos amados pelo Senhor, aberta a cada pessoa que precisa de acolhimento e cuidado, disponível para a escuta, o diálogo e a partilha, que saiba promover e integrar o que está ferido, com empatia e sem calculismos, é hoje a maior forma de anunciar o Evangelho e testemunhar o amor de Deus, que a todos quer reunir como irmãos. Fratelli tutti.