O Jornal da Madeira publica agora a segunda parte da entrevista concedida pelo Arcebispo D. Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização.
Nesta parte, D. Rino, fala sobre a pandemia, os caminhos para a nova evangelização e sobre a preparação do Jubileu de 2025.
Jornal da Madeira – Na sua opinião, que efeitos a pandemia teve na evangelização?
D. Rino Fisichella – Certamente a pandemia foi igualmente um desafio e uma oportunidade. Como eu disse anteriormente, foi um desafio, fez-nos compreender inesperadamente a fragilidade humana. Mesmo as conquistas sociais que fizemos, em primeiro lugar a da liberdade, e dos direitos que normalmente antecipamos aos deveres, falharam. Mas não é apenas um desafio, é também uma grande oportunidade. Penso em todas as iniciativas que a criatividade e a imaginação de sacerdotes e leigos conseguiram criar para estar perto das pessoas neste momento. Não esqueçamos que um momento dramático foi o da solidão em que a pandemia nos colocou. Uma solidão que tocava as pessoas, principalmente as mais fracas, mais idosas, que não podiam receber visitas de familiares, filhos, netos e se sentiam abandonadas. Temos muitos casos de pessoas que não morreram de covid, mas morreram porque perceberam que não tinham mais ninguém ao seu redor. A evangelização também tocou todos esses momentos. A evangelização é feita de proximidade, é feita de uma força que traz a misericórdia como o próprio coração do Evangelho. E a misericórdia é consolação, a misericórdia é proximidade, a misericórdia é compaixão, a misericórdia é perceber a necessidade do outro. E por isso a evangelização, mesmo numa pandemia tão dramática como a que vivemos, pode sair fortalecida se for reforçada a responsabilidade dos crentes.
“A evangelização é feita de proximidade, é feita de uma força que traz a misericórdia como o próprio coração do Evangelho”
Jornal da Madeira – Costuma-se dizer que a fé precisa dos sentidos: ver, ouvir, tocar e que tudo o que pertence à vida humana pertence também à dimensão da fé e da evangelização. Essa é o outro lado da moeda?
D. Rino Fisichella – Certamente a fé é um ato global e requer a presença de todos os sentidos. Na fé ouvimos, na fé percebemos, na fé os sentidos estão todos presentes. Penso na liturgia quão importante é a presença dos sentidos que captam e percebem o mistério que se celebra. Portanto, uma fé privada dos sentidos, não seria uma fé cristã. Seria um sentimento, talvez fosse uma aquisição teórica, mas não seria fé. A fé envolve todo o homem e é o que devemos ser capazes de dar a conhecer. Todo o homem está envolvido, corpo, alma, espírito, inteligência, paixão, tudo o que leva o homem a ser plenamente ele mesmo serve também para fazer participar os outros da descoberta do encontro com Cristo.

Jornal da Madeira – Mas também há lugares, agentes e caminhos privilegiados da nova evangelização…
D. Rino Fisichella – Há muitos caminhos para a nova evangelização. Confesso que um dos que mais me convencem neste momento histórico particular é o caminho da beleza. Numa ilha como a Madeira, a beleza da natureza é encantadora. Aqui vêm pessoas de todo o mundo. Vêm pela beleza do mar, pelas suas ondas, pela beleza das rochas, vêm pela arte, pela cultura que aqui se vive. Acredito que este seja um dos momentos de grande oportunidade para a evangelização. A beleza é uma linguagem universal. Nós cristãos produzimos beleza há 2000 anos. A beleza de nossa arte, a beleza de nossa música, de nossa literatura, quantas formas de beleza temos expressado pela genialidade, criatividade e imaginação de tantos cristãos. Hoje devemos valorizar tudo isso, valorizá-lo, transmiti-lo e perceber uma nova sensibilidade na beleza da criação da qual temos a responsabilidade de mantê-la intacta. É a beleza de tantas expressões que podem ser ofuscadas pela má gestão que os homens podem fazer delas. Parece-me que quando valorizamos esse caminho também somos capazes de reconhecer quantas outras formas de beleza os homens estão a criar neste período e quantas oportunidades de participação numa linguagem comum e universal podemos possuir.
“Acredito que este seja um dos momentos de grande oportunidade para a evangelização. A beleza é uma linguagem universal”
Jornal da Madeira – O próximo Ano Santo, que se realizará em 2025 e será coordenado pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização. Também o último, em 2016, dedicado à Misericórdia, foi coordenado para si. Os preparativos já começaram?
D. Rino Fisichella – O Jubileu será uma grande oportunidade pastoral. Os preparativos já estão em andamento e o Papa, na audiência de 3 de janeiro, aprovou o lema do Jubileu. Como sabemos, o lema será: “Peregrinos da esperança”. Não só a experiência da pandemia, mas também aquilo que é a grande mudança de época em que nos encontramos a viver, exige da nossa parte um enfoque no tema da esperança. Será um Jubileu à luz da esperança. E seremos chamados a partir como peregrinos. Eu usaria o termo “peregrinos”, tem um significado próprio, porque o peregrino tem um objetivo à sua frente, quem não tem um objetivo não é um peregrino, é um errante. Sabemos onde devemos chegar, o caminho deve fortalecer, mas, ao mesmo tempo, deve nos fazer participar de um anúncio de que, se não o fazemos, dificilmente poderá ter a carga e a profundidade que a esperança possui. A ciência, a tecnologia podem se unir para favorecer a nossa existência, para torná-la mais simples, para torná-la também mais segura. Mas a ciência e a tecnologia não podem dar salvação. A salvação é o grande tema da participação da vida de Deus e este é o conteúdo da esperança cristã. Sem essa esperança, algo faltaria no mundo. Colocar-se a caminho em direção ao Jubileu para cruzar a porta santa como peregrinos da esperança é o que nos permite dar maior força à nossa fé e ainda mais profundidade e coerência ao nosso testemunho de caridade.





















