D. Rino Fisichella: “Deus, hoje, mais que negado, é desconhecido”

Esta é a convicção do presidente do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, que ontem falou aos leigos e consagrados da diocese.

Foto: Duarte Gomes

Foi perante uma igreja do Colégio cheia e quase sempre em tom provocatório e com pinceladas de humor à mistura, que D. Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização deu início esta terça-feira, dia 25 de janeiro, à Semana de atualização neste caso dos Leigos e Consagrados.

Depois de devidamente apresentado à assembleia por D. Nuno Brás, a quem agradeceu depois o convite, D. Rino Fisichella iniciou a sua comunicação sobre ‘Evangelização e presença dos cristãos na sociedade’ defendendo que estamos a viver “um tempo de grandes desafios”, que incidem “nos comportamentos de gerações inteiras”, devido à “entrada numa nova fase para a história da humanidade”.

Neste contexto, explicou, que mesmo com “tantos elementos positivos devido ao progresso da ciência e da técnica e a um empenho cada vez mais consciente de tantas pessoas na vida de fé”, o certo é que também enfrentamos com frequência “formas de discriminação e marginalização sociais que, até há umas décadas, nunca tínhamos experimentado”. 

Na mesma linha, acrescentou D. Rino Fisichella, “estamos a assistir a expressões de um afastamento da fé, consequência de uma forma generalizada de indiferença religiosa, prelúdio de um verdadeiro ateísmo”.

Diante de nós, disse, está uma crise que é, antes de mais, “de ordem cultural”, mas que se está a “transformar numa crise antropológica”.  No seu entender, “o homem está em crise” e “parece que já não é capaz de se encontrar a si mesmo e de encontrar a sua identidade”.

“Depois dos elogios de já ter alcançado a idade adulta e de ser plenamente senhor de si mesmo e das suas ações, o homem descobre que está nu, sem defesas, sem saber quem é”, frisou, para logo acrescentar que é neste contexto que se pode “perceber também o limite do momento presente submetido a um acontecimento inesperado para uma época como a nossa que vive do primado da técnica e da ciência: a pandemia que está a atingir o mundo inteiro”.

Para além de estarmos “diante de um desafio sanitário” há também “recaídas económicas, humanas e espirituais” a ter em conta. E se não é possível ainda prever os reais efeitos desta crise, o certo é “ela continua a ser um grande desafio” e tem feito emergir alguns sintomas como o medo, a falta de segurança, a solidão.

“Tudo isto trouxe para debate também o grande tema da necessidade de Deus”, constatou o arcebispo para logo afirmar que crise dos nossos dias é determinada não pelas grandes formas de ateísmo do passado, mas “por poder e saber falar de Deus”, sublinhando que isto “é algo que não nos pode deixar ficar na neutralidade”. 

O arcebispo italiano, escolhido pelo Papa Francisco para preparar o Jubileu de 2025, constatou ainda que “Deus, hoje, mais que negado, é desconhecido”, especialmente entre as gerações mais jovens.

Lançar uma pedra no charco

Por isso mesmo, em tempos tão conturbados como os que vivemos, o desafio da Igreja é o de compreendermos qual a imagem de Deus que estamos, hoje, a oferecer”. Aliás, continuou, “se não resolvermos este enigma, o caminho da evangelização ficará empantanado na armadilha do saudosismo do passado ou na fantasia acrítica de uma razão mais que anestesiada”.

“Deveríamos ser capazes de lançar uma pedra no charco: o charco da indiferença, que, muitas vezes, domina o contexto cultural sobre esta problemática” e o contexto do óbvio que “evidencia quanta ignorância domina, de forma muitas vezes soberana, sobre os conteúdos religiosos”.

“Por mais paradoxal que possa parecer, o homem de hoje é um homem só. Por isso mesmo, é preciso trazer Deus de novo para o centro”, defendeu, para logo sublinhar que “se quisermos sair da patologia que corrompe a vida e voltar a encontrar o lugar central, é preciso ter a capacidade de restabelecer a responsabilidade pela transmissão da fé que envolve as gerações”.

Para isso, explicou, há que encarar o mistério aqui entendido como algo que é revelado e dado a conhecer, como o caminho da evangelização. De resto “acolher o mistério com seriedade equivale a entrar num caminho árduo, mas nem por isso menos necessário”.

Por outro lado, é preciso entender que “o conteúdo do mistério requer silêncio” e que não é, de todo, “uma contradição introduzir o valor do silêncio quando se fala da evangelização que requer o anúncio e a comunicação”. Aliás, “também o silêncio é uma forma de linguagem; ou melhor, é a melhor expressão da linguagem. O silêncio não é a ausência de palavras, mas a capacidade de dar sentido às palavras.

Num período em que somos “atropelados pelas palavras, pelos talk shows, pelos ruídos permanentes que encontramos por toda a parte”, é necessário encontrar novos percursos no caminho da evangelização sendo necessário “descobrir o valor do silêncio” ou seja “propor a via do silêncio como condição necessária para escutar e, depois, anunciar”.

Presença essencial no mundo

Após sublinhar que os católicos são hoje “chamados a refletir sobre a sua capacidade de poder criar um processo de transmissão dos valores e dos conteúdos que formam a identidade dos nossos povos, para que estes se radiquem de modo a permitir um significativo sentido de pertença a uma realidade nova ainda que antiga”, o arcebispo frisou que não só os católicos não vão recuar nesta assunção de responsabilidades, como não aceitam “ser marginalizados, porque estão “convencidos de que a nossa presença no mundo é essencial”.

“Sem a presença significativa dos católicos, o mundo seria mais pobre e menos atraente. Não queremos que isso aconteça; por isso, pedimos para ser escutados e postos à prova para verificar uma vez mais a riqueza do nosso contributo para o genuíno progresso do pensamento e da sociedade”, defendeu o presidente do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, que concluiu a sua intervenção frisando que “a esperança que trazemos tem algo de extraordinariamente grande, porque permite encarar o presente, mesmo com as suas dificuldades, com um olhar cheio de esperança e de serenidade”. É, acrescentou, “a esperança que não desilude porque contém a força de uma promessa de vida que supera todos os limites e procura fixar o olhar no único necessário: um Deus que ama e que partilhou a nossa existência humana”.

Concluída a conferência, seguiu-se um período em que a assembleia pôde colocar questões ao arcebispo italiano. Um momento que começou tímido, mas que depois acabou de forma séria, mas bem-humorada, com D. Rino a responder às perguntas em italiano e D. Nuno a fazer a tradução.

Hoje há novo encontro marcado para as 19:30 horas, sendo de esperar de novo uma igreja cheia, desta vez para ouvir D. Rino Fisichella falar da participação dos leigos na vida eclesial.