Acaba de ser eleito prior da Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores, também conhecidos por Dominicanos. Ao Jornal da Madeira não esconde a surpresa pela sua eleição, afirmando que pretende desempenhar a sua missão “com humildade e em obediência” confiando-se “à misericórdia de Deus e dos irmãos”. Natural da Venezuela, mas a viver no Porto Moniz desde os 10 anos, Frei José Manuel Correia Fernandes recorda a primeira vez que lhe perguntaram se não gostaria de ser padre e o que se seguiu a essa questão, frisando que “nunca conseguiremos imaginar até onde um sim a Deus nos pode levar”.
Jornal da Madeira – A primeira pergunta é obviamente como se sente depois desta eleição?
Frei José Manuel–A notícia deixou-me quase sem palavras. Mesmo consciente que poderia ser chamado, sempre considerei que outros irmãos estariam em primeiro lugar como escolha para esta missão. Por isso é com humildade e em obediência que aceito este trabalho em prol da Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). Confio-me à misericórdia de Deus e dos irmãos.
Jornal da Madeira – Que projetos se dispõe a concretizar, sabendo que vivemos tempos conturbados que colocam novos desafios à Igreja.
Frei José Manuel–O Capítulo Provincial tem como missão escolher um irmão para ser Prior Provincial nos quatro anos seguintes. Mas também tem como trabalho avaliar o apostolado realizado e pensar respostas para os desafios que se colocam às nossas comunidades. Neste momento temos comunidades em Lisboa, Porto e Fátima, mas também em vários lugares de Angola, onde a nossa presença este ano de 2022 completa 40 anos. Temos ainda que considerar os irmãos desta província que estão em outros países como, por exemplo, a Bélgica, a Costa do Marfim e o Quénia. O Provincial tem como principal projeto agregar todas estas realidades de forma que o carisma dominicano seja vivido em plenitude dentro da Igreja local e em comunhão com esta. Daqui se depreende que uma das principais metas é estar com os irmãos, escutá-los e animá-los nesta missão que é de todos.
“uma das principais metas é estar com os irmãos, escutá-los e animá-los nesta missão que é de todos”
Jornal da Madeira -Mais a título pessoal, gostava de saber porque razão escolheu um jovem do Porto Moniz os Dominicanos, para seguir este caminho dedicado a Deus. Havia contacto com os Dominicanos, como ou quem o levou até eles? Como tem sido este percurso?
Frei José Manuel–Os caminhos de Deus são insondáveis… E nunca conseguiremos imaginar até onde um sim a Deus nos pode levar. Quando olhamos para trás com serenidade percebemos como Deus traçou o caminho sem coagir a nossa liberdade e o nosso entendimento e os momentos de dúvida e de tensão iluminam-se na nossa vida.

Nasci na Venezuela, filho de pais madeirense, naturais do Porto Moniz, com uma educação católica considerada normal para a época. Com 10 anos passei a residir permanentemente no Porto Moniz e frequentei a catequese para o crisma (que recebi quando tinha 11 anos). No final de 1981 recordo passar uns dias em casa de um primo da minha mãe, o Cónego António Rosa Câmara, à época pároco de São Pedro e de São José (no Funchal). Ao cumprimenta-lo fez-me uma pergunta que ficou gravada no meu coração: “Não gostavas de ser padre?”. Com 11 anos era incapaz de responder… mas a verdade é que Deus conduziu a história, uma história com luzes e com sombras até chegar a Lisboa. E é em Lisboa, enquanto seminarista do Seminário de Cristo Rei dos Olivais que tive contato pastoral com a paróquia de São Domingos de Benfica, nesse momento entregue aos cuidados do Padre Carlos dos Santos, dominicano. Durante quatro anos afeiçoei-me àquela comunidade paroquial. A figura do Padre Carlos marcou-me indelevelmente. E não foi difícil passar da admiração ao desejo de conhecer mais e melhor a vida de São Domingos de Gusmão. Foi no dia 8 de agosto (dia em que a Igreja celebra São Domingos) de 1995 que comuniquei ao então bispo do Funchal, D. Teodoro de Faria, a minha intenção de entrar em contato com os dominicanos. A minha família, nomeadamente a minha mãe, não entendeu bem inicialmente esta mudança, mas com o tempo perceberam a vontade de Deus. Nos finais de setembro desse ano consegui falar com o Provincial, o frei Mateus Cardoso Peres, sobre o meu propósito. No dia 7 de outubro (dia de Nossa Senhora do Rosário), telefonou a informar-me que podia entrar no Convento. Comecei o postulantado no Convento de São Domingos de Lisboa que durou praticamente um ano. De 1996 a 1997 fiz o noviciado no Convento de São Tomás de Aquino em Sevilha. A 5 de outubro de 1997, na paróquia de São Domingos de Benfica, fiz a minha profissão simples. Passados três anos, no mesmo dia e no mesmo lugar, fiz a minha profissão solene. Em 2001 fui para o Convento de Cristo Rei no Porto onde vivi dez anos. A ordenação sacerdotal aconteceu no dia 1 de dezembro de 2002 no Mosteiro dos Jerónimos pelas mãos do Senhor Cardeal Patriarca D. José da Cruz Policarpo. Em setembro de 2011 fui nomeado pároco de São Domingos de Benfica. Nunca poderia imaginar que algum dia viria ser o pároco da comunidade que me despertou para esta vocação dominicana.
“O espírito fraterno que se vive nas comunidades religiosas é o terreno onde a semente da vocação cresce. Sem essa fraternidade dificilmente os mais novos se sentirão atraídos a entregar e a gastar a sua vida. Sem a fraternidade as comunidades são estéreis”
Jornal da Madeira – Que conselhos daria a um jovem ou uma jovem que queira optar pela vida religiosa, mas continua receoso(a) de dar esse passo?
Frei José Manuel–O tema das vocações é fulcral para a vida da Igreja. Devemos olhar com carinho e acolher com discernimento os jovens (ou menos jovens) que batem à nossa porta. É importante não esquecer a palavra de Jesus: “Vinde e vede” (Jo 1,39). É missão de todos convidar e animar os que se interrogam sobre a sua vocação. Ajudá-los a superar os seus medos e receios e a confiar em Jesus. Por vezes uma palavra, uma imagem, um gesto de acolhimento, podem desbloquear um processo vocacional. Os jovens amam os desafios e se formos capazes de com eles os viver, fará toda a diferença.
O espírito fraterno que se vive nas comunidades religiosas é o terreno onde a semente da vocação cresce. Sem essa fraternidade dificilmente os mais novos se sentirão atraídos a entregar e a gastar a sua vida. Sem a fraternidade as comunidades são estéreis.



















