Francisco Clode: “Hoje em dia, uma visita à Sé, é um perfeito deslumbramento”

Foto: Duarte Gomes

A Sé do Funchal possui o mais importante conjunto de tetos hispano-mouriscos, existente em Portugal. As obras de conservação e restauro, recentemente realizadas, fizeram emergir a beleza original destes tetos com mais de 500 anos, dando-lhes visibilidade nacional e internacional.

A obra foi financiada pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), complementada pelo Orçamento do Governo Regional através da Secretaria Regional do Turismo e Cultura.

O Jornal da Madeira entrevistou o diretor de Serviços de Património Cultural da Direção Regional da Cultura, Dr. Francisco Clode, sobre o restauro dos tetos da Sé e sobre o património religioso da Madeira. 

Qual a importância dos tetos da Sé que foram agora restaurados? 

Francisco Clode – A Sé, nos últimos 20 anos, tem tido a adição de trabalhos profundo de conservação e de restauro. Isso foi uma aposta que o Governo Regional tem vindo a fazer na convicção do papel estratégico que a Catedral da Diocese do Funchal tem no contexto do património cultural madeirense. 

E um dos aspetos que se tem vindo a clarificar, 20 anos depois, quando os trabalhos estão praticamente concluídos, é que de facto, a Igreja tem uma importância imensa a nível regional, naturalmente, mas que para além disso, tem, indiscutivelmente uma importância nacional e internacional.

Ao lado da Charola do Convento de Cristo em Tomar, e do Mosteiro dos Jerónimos, revela-se como o terceiro lado deste triângulo na afirmação plena da arte manuelina, a arte do tempo da expansão portuguesa. Portanto, relacionada com o reinado, do venturoso, Rei Manuel I. Não nos esqueçamos que o Funchal é uma espécie de guarda avançada da expansão portuguesa, e é na Madeira que se ensaiam muitos dos processos, administrativos, judiciais, económicos que depois se instalam noutros sítios. 

De facto, a Sé tem uma enorme importância. Depois do restauro dos telhados, que foi um trabalho importantíssimo, e depois do restauro do retábulo, surgiu agora a oportunidade de restaurar os tetos e onde se pode, pela primeira vez, em 500 anos, ver a maravilha que eles são e portanto, a Sé tem aquilo a que se pode chamar, o mais importante conjunto de tetos hispano-mouriscos que existem em Portugal. Não há nada, não sobreviveu nada no contexto nacional, que tenha a importância dos tetos da Sé. 

É um dado que todos devem ter em vista. A enorme importância nacional enquanto património nacional, que estes tetos têm. 

Nós temos mais tetos hispano-mouriscos na Madeira mas nenhum com a importância deste. De facto, foi muito importante que se tenha conseguido juntar forças e ter uma equipa internacional a restaurar os tetos. 

Hoje em dia, uma visita à Sé, é um perfeito deslumbramento para se perceber, a enorme envolvência e riqueza global de toda a construção.   

“a Sé tem aquilo a que se pode chamar, o mais importante conjunto de tetos hispano-mouriscos que existem em Portugal. Não há nada, não sobreviveu nada no contexto nacional, que tenha a importância dos tetos da Sé” 

Em que estado encontraram o teto?

Francisco Clode – O teto estava em relativo bom estado. A Sé tinha sofrido, como se pode imaginar, ao longo de 500 anos, infiltrações, havia pontualmente algumas tábuas em muito mau estado, algumas outras tinham sido substituídas, mas de uma maneira geral, o estado de conservação essencial do teto estava bem. Não havia um excesso de ataques de xilófagos.Para um teto de 500 anos, bastante bom. Até porque, o teto é de cedro. É uma madeira com uma grande capacidade de resistência. Muitas das vezes, onde apareceram xilófagos, foi onde houve restauros, com madeiras de má qualidade. 

O trabalho essencial que foi feito, foi não evasivo, isto é, foi um trabalho de limpeza. Tornamos possível que se visse o teto como ele foi feito. Houve sobretudo, um trabalho, em 1500 m2, quase a cotonete. Pode imaginar que é um trabalho de um cuidado imenso, quase insano. Era uma equipa grande. Foi sobretudo um trabalho de limpeza para tirar as camadas e camadas que existiam de pó, de fumo de velas, de 500 anos de pessoas a circular dentro da Sé. Nós sabemos que isso são fatores de degradação. O que a Sé tinha era uma camada grande de sujidade sobre o teto e que se impedia que se visse as cores originais. E agora, depois deste aturado trabalho de restauro, isso foi possível revelar. 

No fundo não tivemos a preocupação de reconstituir pormenores desaparecidos. Hoje em dia, as técnicas de conservação e de restauro, têm sobretudo uma visão de parar, estancar, o processo de degradação, e fazer sobreviver durante mais anos o teto, para que as próximas gerações, o possam desfrutar de como nós também tivemos a oportunidade de o desfrutar agora, sem com isso, acrescentar nada, à verdade que eles transportam. Nós não vamos agora inventar, o que não existe, nós vamos manter o que existe. É essa ideia da não invasão daquilo que é o estado de conservação das peças, e no caso, do teto. Não fundo, foi isso que foi feito. Foi um trabalho muito cuidadoso, às vezes um trabalho penoso, porque é um trabalho feito em andaime, numa posição corporal muito complicada, com uma temperatura, por vezes, superior a 40 graus. Foi um trabalho dificílimo de fazer, mas cujo resultado hoje é desfrutado por todos nós. 

A pandemia atrasou os trabalhos?

Francisco Clode – A pandemia fez atrasar a dada altura a obra, porque as pessoas não podiam sequer viajar, isso teve alguma consequência, felizmente não tão grave como era suposto, porque a  dada altura, conseguiu-se retomar o ritmo e foi possível acabar em tempo útil a obra. Claro que há sempre agora novas coisas que queremos fazer. Agora descobriu-se que toda a arcaria que separa as naves centrais das naves laterais, são pintadas a ouro. Já se conseguiu levantar o repinte do arco triunfal e da capela do Santíssimo, mas falta o resto agora. Como vê, conservação e restauro é uma coisa sem fim. 

O que é muito importante fazer sobre estes grandes projetos é que eles não acabem em si próprios. Que eles sejam um exemplo e uma âncora para a conservação e restauro de outras coisas, que possam em rede, criar circuitos de visita, de divulgação turística, científica. O que nós precisamos é de entender que a conservação e o restauro do património cultural é uma mais valia extraordinária da diversidade da oferta turística. Nós não devemos achar que o património cultural deve existir por causa dos turistas, não é isso. Mas não nos podemos esquecer que o turismo é um aspeto fundamental da nossa economia e daí que se nós conseguirmos criar lógicas integradas de visita, horários de abertura, compatíveis, se conseguirmos, por que não, criar uma rede de pagamento objetivo das visitas. Eu sou a favor que as visitas devem ser pagas. Por toda a Europa as visitas são pagas. Faz todo o sentido, se fosse criado um roteiro, imagine de visita aos tetos hispano-mouriscos do Funchal, esses circuitos podiam ser pagos e ser criadores de emprego, porque não? 

Acho que ainda há muita coisa na área do património e na cultura, que podem ser pensados até em termos de rentabilização económica dessas circunstâncias. Isso está muito por fazer, ainda. 

A conservação e o restauro, são trabalhos muito morosos e muito vagarosos, e com custos muito grandes. E mais, as pessoas estão hoje em dia muito sensibilizadas a dar. 

“A Diocese do Funchal é uma diocese riquíssima e talvez das mais importantes a nível nacional em termos do seu património”. 

Considera que há uma maior sensibilidade para a questão do património na Madeira e no Mundo?

Francisco Clode – Eu acho que sim, porque as pessoas percebem que hoje em dia, uma parte importante da sua identidade enquanto povo está no seu património cultural, está na sua herança cultural. A partir do momento em que o mundo, está cada vez mais igual, a identidade passa muito pelo que é o seu património cultural, porque nós hoje em dia temos acesso à informação de uma maneira como isso nunca foi possível na civilização mas ao mesmo tempo que isso é muito bom porque permite o conhecimento, o alargar horizontes, é por outro lado muito uniformizado. É por isso que aqui entra o património e a identidade cultural como um fator da diversidade do mundo e da identidade múltipla que nós todos temos. E depois é preciso pensar que Portugal está na moda na Europa e portanto nunca foi conhecido como outros países, nem tem a riqueza, vamos ser objetivos, de outros países europeus, mas estamos cada vez mais a perceber a importância do património cultural português e a necessidade que há de preservá-lo, conservá-lo, reorganizar as coleções, apresentar as coleções de outra maneira, porque isso vai fazer a diferença em termos do turismo cultural, porque o turismo cultural é um turismo em crescimento, de gente com mais dinheiro, com mais capacidade de compra. 

“a conservação e o restauro do património cultural é uma mais valia extraordinária da diversidade da oferta turística”

Como vê o património religioso da Madeira? 

Francisco Clode – A Diocese do Funchal é uma diocese riquíssima e talvez das mais importantes a nível nacional em termos do seu património. Um dos aspetos que eu acho que era importantíssimo acontecer, era a criação de corpus publicados, a publicação de volumes, cientificamente preparados, sobre alguns dos aspetos fundamentais desse património. Por um lado, a arquitetura, um volume sobre escultura, outro sobre pintura, um sobre ourivesaria e outro sobre azulejaria. São os grandes temas do património, artístico religioso. Isso seria importante por todas as razões. É uma mais valia em termos de qualquer estudo que se venha a fazer, que exista um corpus inicial onde se possa ir encontrar o essencial desse património. Todos sabemos que o património é muito rico mas não há sítio nenhum, onde hoje em dia se possa, em termos de livros, ou mesmo plataforma, onde se possa encontrar informação disponível. Isto tem custos, mas uma equipa e a junção de vontades podia transformar isto numa realidade. Eu por exemplo, sou da opinião, que o Museu de Arte Sacra do Funchal, devia ser a guarda avançada dum processo de inventário exaustivo do património da diocese. Portanto, no Museu de Arte Sacra devia ser a sede para a publicação deste corpus fundamental.

Acabamos de celebrar o Natal, qual o significado do Natal para si?

Francisco Clode – Para mim o Natal, é o Natal da minha infância. Gosto muito do Natal. Gosto muito das tradições do Natal, mas quando você me pergunta o que é o Natal, eu penso sempre nos natais da minha infância. Nós só nos apercebemos da importância e a magia que esses natais da infância têm só quando as perdemos. Só quando deixamos de ter as pessoas, deixamos de ter todo o mundo mágico que rodeia uma criança, é que nos apercebemos da magia do Natal e da falta que ele nos faz. 

Uma das coisas que gosto são os cheiros do Natal, e um dos cheiros do Natal da minha vida e da minha infância, que eu ainda hoje adoro, é o cheiro a limpa metais. Lembra-me esse esforço enorme que era pôr as casas bonitas, pôs as coisas arranjadas. 

Nós éramos uma família muito grande, e a noite de Natal era sobretudo festejada no dia 25 à noite. E portanto, o Natal da minha infância era um Natal mágicos, cheio de primos, cheio de família, dos avós e tudo isso. 

Isso já não existe e é natural que assim seja, mas ficou essa melancolia. Nós temos que agradecer. Ao contrário de ter uma visão apenas nostálgica e triste sobre isso, penso que se deve agradecer a oportunidade que tivemos. É esse o lado que eu acho que é mais bonito, em relação às pessoas que já não estão cá e às coisas que já não são o que eram, pensar assim: “que sorte que eu tive de ter sido possível”. 

O Natal também é outra coisa, que as pessoas esquecem muitas vezes, que é ouvir os outros, de dar atenção aos outros, de conviver. Não é o convívio pelo convívio, é trazer à nossa casa as pessoas que nos dizem e esse gesto de trazer e receber, é um gesto para escutar os outros. Não é só para mostrar a minha lapinha. È um pretexto do convívio, de dar atenção aos outros, ter tempo para ouvir os outros.