As cores das sombras

Foto: Fundação de Serralves

Partiu para a luz da eternidade, a artista madeirense Lourdes Castro, aos 91 anos. 

No ano passado tinha sido agraciada com o grau de Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada pelo Presidente da República e também condecorada com a Medalha de Mérito Cultural pelo Ministério da Cultura português. A Igreja católica em Portugal, reconhecendo na sua obra uma “poética da espiritualidade cristã”, atribui-lhe, em 2015, o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes. 

Em 2011, o padre Tolentino Mendonça escreveu que “a Lourdes ensina a ver o natural e a natureza como nunca o vimos”, e recordou uma das suas expressões no dia em que a conheceu, junto à praia dos Reis Magos: “As mais belas imagens são as que a natureza nos dá”. 

Depois de uma infância passada na Casa da Praia Formosa e dos estudos no Colégio Alemão do Funchal, Lourdes Castro saiu da ilha para estudar na Escola Superior de Belas Artes em Lisboa. Desiludida com o ensino conservador português, partiu para Paris em 1957, depois de uma breve passagem por Munique.

Um ano depois lança o primeiro número da revista KWY, juntamente com os principais protagonistas do seu tempo. O título da revista era formado por três letras que não constavam no alfabeto português. Ao longo de cinco anos publicou 12 números. Carinhosamente, considerava a revista como “uma cartinha para os amigos”. Para os especialistas, foi um dos projetos mais relevantes na internacionalização da arte portuguesa do seu tempo. Em 1966 começou, em Paris, as primeiras experiências com o teatro de sombras.

Durante o verão de 1972, elaborou na Madeira o “Grande Herbário de Sombras”, com 100 espécies botânicas, num hino à criação e à bela vegetação da Madeira. 

Da sua obra destacam-se também os objetos, a serigrafia, as sombras projetadas e os contornos, as sombras em plexiglas, sombras deitadas e os livros. “Fiz sair as sombras, dei-lhes cores, uma vida independente”, disse. 

“Uma sombra tem para mim mais significado do que simplesmente o objeto descrito. É uma maneira de contemplar as coisas e as pessoas à minha volta”, partilhou. 

Depois de 25 anos em Paris, regressou à Madeira em 1983 e residiu durante 5 anos na Quinta do Monte, na mesma casa onde viveu e faleceu o Beato Carlos da Áustria.