D. Nuno Brás: O mundo precisa de se deixar  ‘infectar’ pelo vírus da salvação que é Jesus ressuscitado 

Foto: Duarte Gomes

O bispo do Funchal defendeu na manhã desta quinta-feira, dia 30 de Dezembro, que “é importante que, no nosso agir pastoral — digo-o a toda a nossa Igreja do Funchal, muito concretamente —, tenhamos consciência de que cada um de nós é um frágil pecador”. Mas, ao mesmo tempo, lembrou, “que cada um de nós é um pecador que transporta consigo um tesouro, não apenas (nem principalmente!) para si, mas para o mundo inteiro: o tesouro que é Cristo”.

E, frisou D. Nuno Brás, “o mundo precisa de Cristo. Precisa de se deixar inundar, ‘infectar’ pelo vírus da salvação que é Jesus ressuscitado, presente e atuante na sua Igreja, nos cristãos”.

O prelado, que falava na igreja do Colégio, onde o clero, religiosos, religiosas, membros de Institutos Seculares, Sociedades de Vida Apostólica e leigos lhe apresentaram cumprimentos de Natal, disse ainda que, hoje, olhando para o vaso de barro de que nos falava o Apóstolo Paulo, “não raras vezes nos esquecemos (nós próprios e o mundo contemporâneo) do tesouro que ele transporta”.

Olhamos “para a fragilidade do vaso e esquecemos o tesouro”. Olhamos, “também nós, cristãos, para nós, e esquecemos que não nos anunciamos a nós mesmos, mas a Cristo, o Senhor”. E não raro, prosseguiu, “desvalorizamos (nós em primeiro lugar) a mensagem da salvação que é a pessoa de Cristo” e “reduzimo-la a uma lei, a uma moral ou a uma ideia (senão mesmo a uma ideologia), ao lado das demais”. Ou seja, “esquecemos a pessoa de Jesus, à conta de tomarmos consciência dos pecadores fracos que somos”.

Mas o prelado começou a sua intervenção por referir que este “encontro natalício da Igreja diocesana à volta do Bispo, neste tempo de Natal e de final de ano, é sempre uma oportunidade para uma retrospectiva ao ano que passou”.

“A tentação de fazer balanços, ao jeito de empresa comercial”, frisou, “é muito grande: o que fizemos de bom e o que não correu, decididamente, tão bem. A vida sacramental e litúrgica que mantivemos, apesar de todos os confinamentos; a peregrinação da relíquia de S. Tiago que nos deu uma maior consciência de sermos diocese; o “congresso das confrarias do Santíssimo”, celebrado apesar da pandemia e em programa reduzido… Ou a catequese de infância e adolescência já habitualmente com tanta falta de recursos, que se tornou ainda mais deficiente com a pandemia e a obrigação de permanecer em casa; os encontros de formação que deixámos de realizar; a falta das festas no Verão e as dificuldades económicas que este tempo trouxe a todas as comunidades; as divisões e a falta de relação e de entre ajuda entre paróquias e comunidades…”.

Ainda assim, “não queremos fazer um balanço de “deve” e “haver”, porque “a vida cristã não pode nunca ser avaliada com esses critérios”, isto é, “a vida cristã — quero dizer: a acção de Jesus ressuscitado no coração de cada ser humano — não se pode medir, pelo menos usando os critérios habituais das organizações humanas”.

A vida cristã, explicou, “é uma realidade pública e com expressão e influência pública, que não se mostra apenas em Missas e procissões, mas que se traduz em transformação — transformação (conversão) da estrutura do próprio ser humano (do seu modo de pensar, de agir, de ser, de viver) e das estruturas, das realidades sociais e políticas, aproximando-as, cada vez mais, da construção do Reino de Deus”.

De resto, tendo em conta que “a vida cristã é sempre maior, mais profunda, mais consciente que aquilo que nos é dado perceber com os olhos do corpo, “podemos (devemos?) dar-nos conta da adesão exterior (ou da sua falta) às iniciativas que tomamos, e perguntar-nos (também tendo em conta de que o todo do povo de Deus é, de verdade, “doutor na fé”) se as havemos ou não de manter; o que nos é possível mudar; o que devemos antes promover para que cada um e todos aqueles a quem o anúncio do Evangelho chegar se sintam mais próximos de Jesus e, assim, mais próximos também dos outros cristãos, membros que são do mesmo corpo”.

É por isso que “queremos este ano — a isso fomos aliás convidados pelo Santo Padre — tomar maior consciência da Igreja que somos: povo que caminha, alimentado pela Eucaristia, conduzido por Cristo pastor até aos prados verdejantes da vida divina”.

E se é verdade que “isso contrasta com o que cada um de nós é”, o certo é que “somos o vaso de barro que Deus escolheu para ser sua presença. E não podemos defraudar nem Deus, nem o mundo que dele espera a vida e que dele tanto necessita”.

“Creio que, de um modo concreto neste ano de 2022, em que passam os 100 anos da morte do Beato Carlos de Áustria, não podemos deixar de procurar conhecer melhor este santo que Deus colocou no caminho da nossa diocese, e que a enriquece com o seu testemunho e com a sua intercessão”, frisou.

A terminar a sua intervenção, agradeceu “a vós e a Deus o testemunho que de todos quotidianamente recebo” e pediu, “em nome do Senhor: deixai que a glória de Deus se continue a manifestar, qual luz que tudo ilumina — vida que se comunica, caridade que atrai”.

Sentir-se, viver e promover a comunhão

Mas, obedecendo a um programa previamente estipulado, em que não faltaram os cânticos alusivos à quadra, o primeiro a usar da palavra nesta apresentação de cumprimentos foi o vigário geral da diocese.

Depois de recordar que este é o “terceiro Natal, celebrado e vivido nesta tão querida Diocese do Funchal”, o Cónego Fiel de Sousa lembrou que, “apesar de todas as contingências desta pandemia”, não caímos “no desânimo e na apatia”. Antes pelo contrário. “Foi um ano cheio de grandes eventos eclesiais e culturais na nossa diocese”.

Na pessoa do bispo diocesano, o cónego fiel saudou depois, “todos os diáconos e sacerdotes diocesanos, sobretudo os doentes ou jubilados” e os seminaristas da diocese que compuseram o coro, irmãos leigos e os irmãos e irmãs de especial consagração.

“Quando me refiro à pessoa do senhor bispo, quero manifestar a nossa comunhão com aquele que o Senhor colocou à frente para conduzir este santo povo de Deus na nossa Diocese do Funchal”, explicou o vigário geral, para logo acrescentar que “viver numa Igreja sinodal quer dizer sentir-se em comunhão, viver em comunhão e promover a comunhão”.

Após recorrer à expressão popular ‘quem não se sente, não é filho de boa gente’, o cónego Fiel afirmou que “nós somos filhos de boa gente, porque fomos gerados no batismo em Cristo”.

Por outro lado, lembrou, “sentir-se em comunhão nesta Igreja à qual pertencemos, que quando algum irmão falha a atitude mais correta não é a demarcar-se com a agravante de estigmatizar a sua pessoa, não é também não se regozijar quando um irmão acerta, não nos congratularmos por isso mesmo fazendo das suas vitórias as nossas vitórias”.

Na verdade, prosseguiu, “viver em comunhão é, com certeza, levantar as nossas mãos para pedirmos perdão pelos pecados dos nossos irmãos, mas sobretudo estendê-las àqueles que caíram, para que se possam levantar e adquirir a dignidade perdida”. De resto, “não concordar com o pecado não é abandonar o pecador”.

“Viver em comunhão é sentir a alegria com o trabalho e os sucessos dos outros, porque todos trabalhamos, não para nós próprios, mas para a Igreja da qual todos fazemos parte”, explicou ainda o vigário geral, para logo acrescentar que “não se pode promover a comunhão se nos sentirmos excluídos desta Igreja, se estamos fora desta comunhão ou se não vivemos em atitude permanente de conversão”, sendo a conversão “a melhor síntese para expressar toda a caminhada sinodal”.

Nestes tempos, defendeu ainda o cónego Fiel, “mais do que rezar pela conversão dos pecadores, temos de rezar pela nossa própria conversão” além de que “reconhecer-se pecador é sentir-se unido a esta igreja constituída por homens pecadores é unir-se à Igreja que rejubila por todas as vitórias dos seus filhos, por mais pequenas que sejam”.

Perante os constantes desafios, interrogações e mudanças vertiginosas que correm no nosso mundo, “só unidos e trabalhando em equipa é possível dar resposta à altura das inquietações” e neste contexto “a Igreja tem de ser perita, o que não quer dizer totalmente perfeita, como muitos afirmam, pensam ou revogam”. E de resto, “a Igreja tem de ser sempre perita na comunhão e na unidade, correspondendo ao mandado do Senhor”.

Citando um artigo do bispo diocesano, publicado precisamente no Jornal da Madeira neste Natal, em que este afirmava que ‘o menino incomoda’, o cónego Fiel diz que com essa expressão o prelado “outra coisa não queria dizer senão que o que mais incomoda ao mundo indiferente a Cristo é a nossa unidade e comunhão, na conversão, na humildade e na unidade, na comunhão fraterna esta Igreja que tem garantia de vida eterna chegará a um aeroporto seguro, já nestes tempos modernos vamos todos no mesmo avião e com a graça divina ultrapassaremos todas as vicissitudes, todas as turbulências que por vezes surgem na Igreja e nas nossas comunidades”.

O vigário geral concluiu afirmando que, “com a ajuda do bom piloto Jesus e do nosso co-piloto, que é o nosso bispo, que o senhor colocou à frente desta Diocese do Funchal, mais facilmente venceremos todas as dificuldades” e desejando a D. Nuno “um ano cheio de bênçãos de Deus”, reiterando que este pode “contar connosco em ordem à comunhão eclesial, promovendo uma comunhão efetiva entre nós e com todos os filhos desta Igreja”.

Consagrados não querem ficar à margem

Seguiu-se a saudação do Pe. Fernando Soares da Congregação da Missão (Padres Vicentinos) por parte da CIRP.

Por ser um “recém-chegado a esta Diocese” e de não ser o presidente da CIRP – o cargo é ocupado pelo Frei Nélio Mendonça – o sacerdote confessou que foi “com temor e tremor” que aceitou fazer esta apresentação de cumprimentos de Natal e Ano Novo ao Sr. Bispo.

Por isso mesmo, começou por agradecer “o acolhimento e confiança que me tem dispensado, assim como, toda a atenção, apoio e zelo apostólico manifestados aos meus confrades da comunidade, assim como, a todos os Religiosos, Consagrados e Missionários(as) que servem o Evangelho e esta «porção do Povo de Deus»: a multissecular Diocese do Funchal, constituindo mais de quarenta comunidades, espalhadas pela ilha”.

A primeira presença de padres da Congregação da Missão no arquipélago da Madeira, recordou, ocorreu em meados do séc. XVIII. De então para cá, explicou, “a presença dos padres Vicentinos nesta Diocese sempre se pautou por uma disponibilidade criativa ao serviço da Missão que gostaríamos de conseguir manter”.

Depois de afirmar que “o nosso mundo está doente” e de explicar que não se referia apenas à pandemia, “mas ao estado da nossa civilização que este fenómeno global apenas acelerou e tornou mais claro”, o Pe. Fernando Soares referiu que a “rapidez e a profundidade das mudanças são tantas que leva muitos e bons pensadores a falar de uma ‘mudança de época’”.

Neste contexto, sublinhou o sacerdote, “a identidade do cristianismo torna-se a questão mais concreta e premente com que nos confrontamos”.

“Como o Sr. Bispo nos recorda na introdução ao Programa pastoral 2021-2022: «pertencemos à Igreja não por causa de uma coincidência de opiniões, nem porque é mais fácil ou mais rápido para a nossa vida, e muito menos por tradição herdada, mas porque cada um de nós é, pelo batismo, membro do Corpo de Cristo»”.

Com efeito, “a comunhão na Igreja, desiderato deste caminho sinodal que já iniciámos e que queremos participar, não é, de facto, uniformidade, mas dom do Espírito que passa também através da variedade dos carismas e dos estados de vida”.

“E a história da participação da vida consagrada nesta Diocese e o carácter evangélico do seu testemunho provam – como se isso fosse necessário – com toda a evidência, que os consagrados nunca foram colocados, nem quiseram colocar-se como uma realidade isolada e marginal da vida da Igreja diocesana”, constatou.

Apesar de estarem “conscientes das ‘dificuldades vocacionais’ que as nossas instituições passam, reiteramos todo o empenho e dedicação na peregrinação de uma Igreja que caminha sinodalmente”.

Por isso, “damos graças a Deus pelas Ordens e Institutos religiosos dedicados à contemplação ou às obras de apostolado, pelas Sociedades de Vida Apostólica e por todos os outros grupos de consagrados(as) que vivem e servem esta Diocese”.

Depois de recordar algumas das atividades realizadas ao longo deste ano o Pe. Fernando Soares elencou algumas a realizar em 2022, nomeadamente, “a semana e a celebração dos consagrados, em fevereiro; algum encontro ou ação de formação, presencialmente; a celebração dos 600 anos da presença dos Franciscanos na ilha da Madeira, com a presença do D. José Rodríguez Carballo, secretário da Congregação Vaticana para os Institutos de vida consagrada e sociedades de vida apostólica, nos dias 2 e 3 de julho”.

Concluiu a sua intervenção “pedindo ao Senhor – que faz da Vida uma história de salvação – que continue a dar ao Sr. D. Nuno – e a todos os presentes – a saúde e ânimo necessários para poderem realizar com êxito a Missão que lhe foi confiada”.

Olhar com o coração para o nosso semelhante

Já por parte dos leigos coube a Duarte Pacheco, presidente da Cáritas, usar da palavra. E fê-lo para agradecer “a constante presença” do bispo diocesano “no nosso dia a dia” e desejar “um ano cheio de graças para si e na sua pessoa a todo o Clero e toda a nossa diocese”.

Depois de lembrar que “o Natal é, e sempre será, uma época rodeada de magia e de intensidade de sentimentos, à qual ninguém fica indiferente”, o presidente da Cáritas frisou que”mais uma vez, devido à pandemia que assola o mundo, o Natal está a ser vivido de forma diferente, acentuando algumas dicotomias”.

“Se para uns é uma época de esperança e de ainda mais união e espírito de partilha, para outros está a ser vivida com amargura, tristeza e preocupação”, frisou Duarte Pacheco, para logo acrescentar que “as dificuldades económicas, a incerteza, a solidão, o cansaço e o desgaste psicológico que as restrições desta crise sanitária têm provocado, poderão ensombrar o sentido de esperança de um futuro melhor”.

Ainda assim, prosseguiu, “é urgente acreditar que o Deus Menino nos dará a força e a tranquilidade para enfrentarmos o ano novo que em breve vai começar”.

Após desejar que “os nossos sentimentos de coragem, superação e justiça estejam presentes em todos os dias de 2022” terminou desejando que “Jesus nos reensine a olhar com o coração para o nosso semelhante”.