Cardeal Tolentino Mendonça diz que a família é um “laboratório de vida”

O cardeal madeirense referiu que a sociedade actual vive três crises graves em relação à família: uma crise de investimento, um crise generativa e uma crise da integração geracional. 

Foto: Duarte Gomes

O cardeal D. Tolentino Mendonça presidiu este domingo, dia 26 de dezembro, à solenidade da Sagrada Família na Sé do Funchal, a convite do cónego Marcos Gonçalves.

Um convite que agradeceu logo no inicio da celebração, sublinhando ter sido “uma grande alegria poder dizer que sim, por si e por esta comunidade e, na sua pessoa, saudar a amada comunidade da Sé, os sacerdotes, os diáconos e as confrarias que estão aqui presentes e que dão alma a esta celebração”.

As saudações foram ainda extensivas ao presidente da Assembleia Legislativa às demais autoridades presentes, mas também “a cada um e a cada uma de vós neste domingo da Sagrada família, que nos mostra como, de facto, o presépio é um coletivo, é uma história coletiva”, que com o nascimento do Menino, para quem convergem todas as atenções no dia Natal tem, como num filme, outras personagens, nomeadamente Maria e José e que sem eles “não entendemos a fundo o que o presépio nos dá a ver.

Na sua homilia, o bibliotecário e arquivista do Vaticano falou da importância da família como “escola de vida”, lugar onde” descobrimos, em concreto, o que a vida significa”. Hoje, porém, “a nossa sociedade vive três crises, em relação à família, que no fundo são três grandes desafios”.

A primeira, explicou o cardeal, “é uma crise de investimento”. De acordo com D. Tolentino “as nossas sociedades precisam investir mais na família e olhar a família como um parceiro, como um parceiro normal. Não ter medo de dirigir-se às famílias”.

Depois de frisar que “hoje nós vivemos um modelo de sociedade muito individualista”, em que “parece que só existe o indivíduo”, o bibliotecário e arquivista do Vaticano disse que tal modelo é “uma ilusão”, pois “cada indivíduo é uma família”. 

“Quando abrimos um bocadinho o plano, o olhar, aquela pessoa está enquadrada num determinado contexto e esse contexto é o contexto familiar”, frisou, para logo acrescentar que “certamente com a pandemia, com a crise multiforme, que atravessa todas as nossas sociedades, a família também está mais pobre, está mais frágil, está mais vulnerável”.

É por isso, prosseguiu, “necessário pensar a reconstrução”, no “momento histórico que virá depois desta pandemia” em que será “importante investir na família, privilegiar a família, ir ao encontro das jovens famílias para que a dimensão generativa seja, de facto, vivida em família como a alegria maior”.

Inverno demográfico que só se agrava

A segunda crise apontada pelo cardeal madeirense é “a crise generativa”. De acordo com D. Tolentino nós vivemos, em Portugal também, “um inverno demográfico”. E o que é mais dramático, frisou, é que as jovens famílias, que podem ter filhos, que gostavam de ter filhos não os podem ter”.  

Referindo-se a uma grande reportagem que leu recentemente sobre os jovens casais portugueses, recordou que os mesmos diziam que “tinham esse projeto de ter filhos adiado, adiado sem dia, porque nós não temos condições. Os trabalhos são precários as casas são pequenas, não temos acesso a elas, não temos estabilidade, as relações são frágeis”. Por isso, o sonho é adiado, lembrou o cardeal, para logo frisar, que “estas palavras são um grito, são um SOS a toda a nossa sociedade, porque esta é uma questão de todos”. E assim sendo, “a sociedade não pode ser indiferente”. Assim sendo, temos de “pensar juntos o que isto significa e ir ao encontro das jovens famílias, para que a dimensão generativa seja, de facto vivida em família, como a alegria maior”.

De resto, constatou, “a nossa sociedade não pode viver num inverno demográfico que só se agrava e não podemos enxotar para um dia, sem data, este problema”, porque estas são “questões que nós precisamos enfrentar”.

Um velho, numa sociedade é um tesouro

“Uma terceira crise é a da integração intergeracional nas famílias”, disse o cardeal, que lembrou as palavras do Papa na sua mensagem do Dia Mundial da Paz, que vamos celebrar no início de janeiro, quando este diz que “não há paz sem diálogo e sem convivência intergeracional”. Hoje, “é muito revalorizado, injustamente revalorizado, o papel dos avós, porque sem os avós as famílias não conseguem fazer todas as coisas e o avô tem um papel fundamental”.

De resto, “os avós e os idosos são importantes, não só porque têm um papel de ajuda concreta, eles são importantes em si, pelos que significam, por aquilo que são, pelo grande tesouro que são”.

A propósito sublinhou que “a sociedade europeia, que é uma sociedade de abundância mesmo com as dificuldades que vivemos, não se pode esquecer que é uma sociedade do bem-estar e uma sociedade que é privilegiada, quando nós comparamos com o que se passa no resto do mundo”. E no entanto, “a verdade é que a Europa ainda não descobriu o valor da pessoa idosa, e muitas vezes a pessoa vai para a reforma e perde todo o seu valor. É como se deixasse de ser útil, como se aquilo que soubesse que tivesse para transmitir, já não houvesse ouvidos para escutar”.

Esta forma de agir “é uma perda”, constatou o cardeal madeirense, para logo acrescentar que “um velho, numa sociedade, é um tesouro de humanidade e de humanização, não é um peso”.

E mesmo quando as pessoas estão doentes, e aqui D. Tolentino recuou no tempo para falar das suas memórias, afirmando que “uma das recordações mais belas da minha vida é caminhar, no corredor do hospital de mão dada com o meu pai. Ele já mal podia andar e eu dava-lhe a mão e caminhávamos ali para trás e para a frente. E as coisas que eu aprendi só lhe dando a mão”. 

Transpondo esta realidade para a de outros filhos, D. Tolentino referiu que “quando nós damos a mão aos nossos pais aprendemos tanto do ministério da vida”. Já se “nós recusarmos a doença, metermos para o lado o sofrimento, se metermos os idosos em parques de estacionamento, se os afastarmos da família, nós ficamos analfabetos de humanidade. Podemos ser muito fortes, a vida é toda mais simples, mas também é mais pobre”.

Neste contexto, D. Tolentino lembrou à assembleia que enchia a Sé, que “a família é um laboratório de vida, é uma escola de humanidade e é a primeira escola de vida cristã”. 

Daí o apelo, a terminar a sua reflexão para que “nos possamos abeirar do presépio, do de Jesus e do nosso próprio presépio, porque cada um de nós nasceu num presépio e tem um presépio invisível no seu coração, e perceber este valor inigualável da família e todos juntos podermos convergir para afirmar a alegria, o amor incondicional a beleza e a necessidade de colar no centro da construção social todas as famílias”.

No final da celebração, animada liturgicamente pelo coro Solidéu, o cónego Marcos Gonçalves agradeceu a presença do cardeal madeirense na catedral, pedindo-lhe que levasse “um abraço ao Santo Padre, da Diocese, do bispo D. Nuno Brás e dos madeirenses”. 

Depois de ter recebido uma salva de palmas, D. Tolentino Mendonça agradeceu à assembleia, a quem recordou que há 56 anos, neste mesmo dia, recebeu o sacramento do batismo, e, também neste dia, há 32 anos, foi ordenado diácono na Catedral, revelando que tem sempre no seu coração “esta amada Diocese”, e o orgulho que tem em ser “um filho” desta Região. 

Já na sacristia e para além dos muitos cumprimentos que recebeu, o cardeal Tolentino Mendonça foi ainda presenteado com o mais recente livro da autoria do coronel capelão, padre António Simões, intitulado “Recordar o passado é viver o presente”. O exemplar incluía uma dedicatória, com referências às páginas onde o nome de D. Tolentino é mencionado bem como o desejo do sacerdote madeirense de que “um dia o cardeal Tolentino Mendonça seja escolhido para Sumo Pontífice da Igreja católica e a Ilha da Madeira tenha a honra de dar à Igreja um “Papa”, para dignificar cada vez mais a história desta ilha, Pérola do Atlântico”.