O bispo do Funchal presidiu ao fim da noite de sexta-feira, dia 24 de Dezembro, à ‘Missa do Galo’, na Sé do Funchal. Uma Eucaristia em que D. Nuno Brás exortou os fiéis de toda a diocese a que se deixem “envolver pela glória do Menino que nasce”, a que se deixem “contagiar pela beleza do Presépio” e que “quais anjos portadores da Boa Notícia, contagiemos tantos outros com essa beleza”.
Na homilia, centrada na glória do Senhor que cercou os pastores, o prelado começou por explicar que “a ‘glória divina’ é a expressão que a Sagrada Escritura usa para falar do modo como Deus nos aparece, a nós seres humanos”.
De acordo com D. Nuno Brás, “quando Deus se faz presente, quando Deus se mostra, se revela, se deixa encontrar por um ser humano, manifesta a Sua glória, envolve nela o homem, e transforma radicalmente a sua vida”. E a glória de Deus, prosseguiu, “traz consigo a surpresa, a beleza que atrai, o convite a reconhecer o próprio Deus e a nos deixarmos envolver por Ele, permitindo que Ele nos conduza e nos leve mais longe”.
É sempre uma surpresa, assegurou o prelado, “quando Deus vem ao nosso encontro. Na nossa história concreta, naqueles momentos em que, inesperadamente, quase tocamos Deus, tantas vezes contrastando com uma derrota ou um tempo de sofrimento”.
E “Deus é beleza que vemos, que escutamos ou que sentimos, à qual não somos capazes de resistir, de tal modo ela nos atrai e nos convida a ir mais longe, a ultrapassar as nossas capacidades e as realidades pobres, materiais em que ela vem até nós e se manifesta”.
É uma beleza “que não fala apenas à inteligência, mas se dirige ao nosso coração”, frisou o prelado, para logo acrescentar que é um beleza que “nos convida a reconhecer a presença divina, ali diante de nós ou mesmo em nós, e se propõe conduzir-nos por caminhos e para caminhos nunca antes suspeitados”.
“Tudo isso terão experimentado aqueles pobres pastores, naquela fria noite de Belém, quando o anjo do Senhor se aproximou e os acordou para lhes proclamar o Evangelho, e se viram envolvidos pela glória de Deus”, lembrou o bispo diocesano.
Eles viveram, na primeira pessoa, “o dia, o acontecimento esperado e desejado pelos profetas, pelos reis e pelos simples crentes do povo judeu, ao longo dos séculos”
“Não nos espanta que os crentes tenham depois dado largas à imaginação, e acrescentassem no Presépio toda a multidão que, seguindo os pastores, caminhou para encontrar Jesus Menino” nem tão pouco, prosseguiu o prelado “o anúncio que logo fizeram e que rapidamente se divulgou por todos os povoado”. De resto, “é assim quando a glória de Deus nos toca e nos envolve!”
E se alguns pastores ficaram desiludidos com aquele lugar onde o Menino nasceu: um pobre estábulo de animais, frio e sem qualquer tipo de conforto, a verdade é que “no meio de toda esta pobreza e por meio dela, a glória divina tudo envolvia. A glória divina surgia daquele Menino; manifestava-se na pobreza do Presépio. Não apesar dela, mas nela”.
“Nesta noite santa, somos, também nós, envolvidos pela glória divina, que ultrapassa tempos e lugares para chegar a cada um de nós”, sublinhou D. Nuno que apelou a que “sejamos, também nós, na nossa pobreza, nas nossas incapacidades e fraquezas, anunciadores da glória de Deus que nos envolve”.
“Também para nós Deus cumpriu a sua promessa: “Nasceu-nos um Salvador!”. É aquele Menino, que hoje nos continua a sorrir, a convidar, a transformar. Deixemo-nos envolver pela sua glória. Deixemo-nos contagiar pela beleza do Presépio. E, quais anjos portadores da Boa Notícia, contagiemos tantos outros com essa beleza”. Para isso, frisou, “não precisamos de muitos meios ou de muita sabedoria: só necessitamos da nossa vida e de um coração disponível para acolher a Palavra feita carne”.
A concluir a sua reflexão, o prelado lembrou que “o Menino nasceu: nasceu para ti, para o teu coração que, por muito pobre e frio que seja, será sempre bem mais acolhedor que a gruta de Belém. Irrompe, também tu, em gritos de alegria, e contagia todos os demais: um Menino nasceu para nós, um Salvador nos é oferecido.
No início desta Missa do Galo, concelebrada pelo vigário geral da diocese e pelo pároco da Sé, entre outros Sacerdotes, o bispo do Funchal disse “que o nosso pensamento vai, certamente, para Belém de Judá”. Mas vai também, fez questão de dizer, “para os tantos outros presépios espalhados pelo mundo, onde verdadeiramente o Senhor nasce. Aqui nesta Catedral, mas em tantas casas onde doentes com o Covid não podem partilhar connosco a alegria desta celebração, ou de tantos sozinhos que não têm ninguém que lhes faca companhia, também aí em tantos outros lugares o menino nasce”.
Especialmente por causa desses, o prelado agradeceu no final à RTP-Madeira e ao Posto Emissor do Funchal, que transmitiram esta celebração em direto. A todos os que estavam na Sé e aos que por estes dois meios de comunicação assistiram à celebração, animada liturgicamente pelo coro Solidéu, o prelado desejou “a todos e a cada um santo e Feliz Natal”.
Leia na íntegra a homilia de D. Nuno Brás:
MISSA DO GALO
Sé do Funchal, 24 de dezembro de 2021
“E a glória do Senhor cercou-os com a sua luz” (Lc 2,9)
“A glória do Senhor cercou-os com a sua luz!” (Lc 2,9). Deste modo se refere S. Lucas à forma como os pastores foram surpreendidos na Noite de Natal. Estavam nos campos e vigiavam os rebanhos naquela que parecia ser uma noite igual a tantas outras. Eis senão quando, o Anjo do Senhor se fez presente, e a glória de Deus os envolveu com a sua luz. Não se tratava, simplesmente, de transmitir uma informação, ainda que importante. Tratava-se de envolver na luz, na glória divina, aqueles pobres pastores.
A “glória divina” é a expressão que a Sagrada Escritura usa para falar do modo como Deus nos aparece, a nós seres humanos.
O Salmo 19, por exemplo, começa deste modo: “Os céus narram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Sl 19/18,1), para nos mostrar como toda a natureza nos fala do Criador e proclama a sua bondade. Já no Novo Testamento, S. Paulo, ao narrar a sua vocação na Estrada de Damasco, afirma: “Ao meio-dia, vi no caminho uma luz do céu, que excedia o esplendor do sol, cuja claridade me envolveu e aos que iam comigo” (Act 26,13).
Quando Deus se faz presente, quando Deus se mostra, se revela, se deixa encontrar por um ser humano, manifesta a Sua glória, envolve nela o homem, e transforma radicalmente a sua vida. Com efeito, a glória de Deus traz consigo a surpresa, a beleza que atrai, o convite a reconhecer o próprio Deus e a nos deixarmos envolver por Ele, permitindo que Ele nos conduza e nos leve mais longe.
É sempre uma surpresa quando Deus vem ao nosso encontro. Na nossa história concreta, naqueles momentos em que, inesperadamente, quase tocamos Deus, tantas vezes contrastando com uma derrota ou um tempo de sofrimento.
E Deus mostra-se com a sua beleza. É atraente. Deus é beleza que vemos, que escutamos ou que sentimos, à qual não somos capazes de resistir, de tal modo ela nos atrai e nos convida a ir mais longe, a ultrapassar as nossas capacidades e as realidades pobres, materiais em que ela vem até nós e se manifesta. É uma beleza que nos envolve. Que empenha todos os nossos sentidos. Que não fala apenas à inteligência, mas se dirige ao nosso coração. Que nos convida a reconhecer a presença divina, ali diante de nós ou mesmo em nós, e se propõe conduzir-nos por caminhos e para caminhos nunca antes suspeitados.
Tudo isso terão experimentado aqueles pobres pastores, naquela fria noite de Belém, quando o anjo do Senhor se aproximou e os acordou para lhes proclamar o Evangelho, e se viram envolvidos pela glória de Deus. O dia, o acontecimento esperado e desejado pelos profetas, pelos reis e pelos simples crentes do povo judeu, ao longo dos séculos, durante toda a sua história; o dia visto ao longe por Abraão; o momento de salvação prometido a Adão desde o início, eis que eles, pobres pastores de Belém, o estavam a viver em primeira pessoa.
Não nos espanta que os crentes tenham depois dado largas à imaginação, e acrescentassem no Presépio toda a multidão que, seguindo os pastores, caminhou para encontrar Jesus Menino. E, ainda, todos os presentes que os pastores levaram para a gruta, ou a alegria indescritível que viveram. E, também, o anúncio que logo fizeram e que rapidamente se divulgou por todos os povoados; as músicas, as danças, os cantares, o entusiasmo alegre. É assim quando a glória de Deus nos toca e nos envolve!
Conduzidos pela glória de Deus, sabemos que os pastores chegaram ao Presépio. Alguns talvez tenham sentido uma desilusão. Afinal, aquele lugar era inesperado: uma família abandonada, sem lugar na hospedaria; um pobre estábulo de animais, com cheiro pouco agradável; um menino deitado na manjedoura e envolto em panos; a pobreza dos sem-abrigo. Frio e sem qualquer tipo de conforto… E, no entanto, no meio de toda esta pobreza e por meio dela, a glória divina tudo envolvia. A glória divina surgia daquele Menino; manifestava-se na pobreza do Presépio. Não apesar dela, mas nela.
Nesta noite santa, somos, também nós, envolvidos pela glória divina, que ultrapassa tempos e lugares para chegar a cada um de nós. Sejamos, também nós, na nossa pobreza, nas nossas incapacidades e fraquezas, anunciadores da glória de Deus que nos envolve.
Também para nós Deus cumpriu a sua promessa: “Nasceu-nos um Salvador!”. É aquele Menino, que hoje nos continua a sorrir, a convidar, a transformar. Deixemo-nos envolver pela sua glória. Deixemo-nos contagiar pela beleza do Presépio. E, quais anjos portadores da Boa Notícia, contagiemos tantos outros com essa beleza. Não precisamos de muitos meios ou de muita sabedoria: só necessitamos da nossa vida e de um coração disponível para acolher a Palavra feita carne.
O Menino nasceu: nasceu para ti, para o teu coração que, por muito pobre e frio que seja, será sempre bem mais acolhedor que a gruta de Belém. Irrompe, também tu, em gritos de alegria, e contagia todos os demais: um Menino nasceu para nós, um Salvador nos é oferecido!