O presépio da avó

D.R.

Todos os anos, a avó Rita tinha o enorme gosto de fazer na sua casa um presépio em escadinha. Em cima da cómoda da sala colocou as três caixas, uma sobre a outra, formando os três degraus do presépio. Depois preparou a imagem do Menino Jesus de pé, com o vestidinho de bordado Madeira, e ajustou-a em cima da terceira caixa, onde já tinha feito um arco de flores de papel. De cada lado do Menino Jesus tinha o hábito de pôr uma jarrinha com “sapatinhos”, que lembrava muito a época natalícia. A envolver o presépio, armou o “sobre-céu”, cobrindo com “alegra-campo” a estrutura feita de arame e cana-vieira.

Foi buscar os vasos de searinhas, plantados no dia da primeira missa do parto e encaixou-os ao fundo do segundo degrau e, para dar um tom ainda mais verde ao presépio, espalhou as “cabrinhas” um pouco por todo o lado. Finalmente, dispôs a lamparina de azeite. 

Agora só faltam os “pastorinhos”, as pequenas imagens do presépio feitas em barro. Muitas das imagens eram dos seus pais. Todos os anos fazia questão de comprar alguma nova. Já tinha imagens que representavam a procissão da Festa do Corpo de Deus, uma banda filarmónica, e diversas profissões tradicionais. Também não faltavam as ovelhinhas. 

A cestinha das frutas do presépio também já estava preparada com pêros, tangerinas, nozes e castanhas. 

A avó Rita deixava para os netos a missão de colocar no presépio as pequenas imagens de barro e as frutas. Logo que os seus netos chegavam à sua casa, iam a correr para o presépio e punham mãos à obra. 

Depois, toda a família, à volta do Menino Jesus, acendia a luz da lamparina de azeite e cantavam: “Meia-noite dada/ meia-noite em pino/ cantavam os galos/ nascia o Menino”. Com as mãos dadas, rezaram a oração do Pai Nosso. E neste ano, como a avó sabia que andavam no ar conflitos e mágoas, acrescentou: “Não se esqueçam o que disse Jesus depois de ensinar o Pai-Nosso: Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará”. Depois de um sentido abraço de paz entre todos, provaram a “ginginha” e o bolo de mel.