Diácono José Patrício: “Quero entregar-me sem reservas”

Novo diácono foi ordenado neste sábado na Sé do Funchal

D.R.

O diácono José Patrício Pestana de Sousa, 32 anos, natural da paróquia do Piquinho, Caramanchão, Machico, foi ordenado diácono na manhã deste sábado, dia 18 de dezembro na Sé do Funchal numa cerimónia presidida por D. Nuno Brás.   

O Jornal da Madeira recolheu o seu testemunho sobre o seu percurso de discernimento vocacional e o significado do ministério diaconal.

Como surgiu a sua vocação ao sacerdócio? Como foi a entrada no seminário?

Diácono Patrício – A minha vocação nasceu desde muito cedo e no seio da minha família. Nasci numa família praticante e de origens muito humildes, no alto de Machico no Sítio do Marco. Lembro-me do exemplo da minha avó já muito idosa com os seus 91 anos e da sua fidelidade à missa e a rezar todos os dias o terço. Nasce também do exemplo dos meus párocos, o padre José Afonso que com a sua juventude congregava a comunidade… já posteriormente o exemplo do meu atual pároco o Pe. Ramos que com a sua simplicidade e fidelidade ao ministério sempre me interpelaram. Outro dos sinais, eram as minhas brincadeiras, desde muito cedo, celebrando missas com bolacha maria e copos de água… realizava procissões e engalanava a casa com flores e velas para parecer uma igreja, bem como as casulas eram feitas com buracos nas cortinas para poder parecer o mais realista possível. Até construí uma minicidade no jardim com estradas e edifícios, sem faltar a igreja para poder fazer os arraiais com direito a tudo.

A minha entrada no seminário deu-se um pouco tarde, por causa da minha vergonha e medo em seguir o Senhor. Queria fazer as minhas brincadeiras e nada mais. Gostava de ser professor e de dar aulas de História ou Educação Moral… por isso também os compromissos que assumi depois na paróquia, como catequista e acólito, preenchiam de certo modo, esta limitação pessoal. Só em 2011 consegui conhecer o seminário e fui convidado para frequentar o pré- seminário e ao fim desse ano fui convidado a entrar e ir para o Seminário de Caparide, no Estoril. 

Essa primeira experiência não correu bem por causa das minhas ligações familiares, das ligações na paróquia e à nossa terra. Foi difícil deixar os ambientes onde cresci e por isso, passado uma semana e meia desisti do seminário. Passei um período complicado a nível de saúde. Foi um tempo duro de viver, foi colocar em causa o amor de Deus e o Seu chamamento, as minhas capacidades para largar tudo e de o seguir… enfim, foi um tempo para ir tentando crescer e pedir ao Senhor a força e a esperança necessárias. 

Foi no ano de 2014 que voltei a pedir uma oportunidade para realizar este caminho no seminário, e nesse ano voltei a entrar e a acreditar que o Senhor era insistente comigo e não tinha desistido de mim. Entrei de novo para o Seminário de Caparide e a partir daí foi trilhar um caminho duro e ao mesmo tempo apaixonante de constante descoberta de mim mesmo e de Deus e da Sua vontade para a minha vida. 

“Outro dos sinais, eram as minhas brincadeiras, desde muito cedo, celebrando missas com bolacha maria e copos de água… realizava procissões e engalanava a casa com flores e velas para parecer uma igreja”

Pode falar-nos do seu percurso vocacional? O que mais contribuiu para o seu discernimento vocacional? 

Diácono Patrício – O meu percurso vocacional desenvolveu-se muito mais no ambiente comunitário e de vida em seminário. Claro que sem esquecer as iniciativas e compromissos que fui assumindo na minha Paróquia do Piquinho, como catequista e acólito que me permitiu estar mais de perto na realidade paroquial, que tanto gosto.  Já no seminário fui ajudado pelos padres das equipas formadoras e pelo meu diretor espiritual, a conhecer Deus e a procurar responder em cada dia a este chamamento. Claro que não é fácil esbarrar nas nossas limitações, na história de vida que trazemos, na ignorância espiritual, mas é no saber entregar isso em cada dia ao Senhor, que percebemos quem somos e o que Ele quer de nós. 

O que mais contribui para o meu discernimento vocacional foi o ambiente de seminário e toda a vivência comunitária que se vive. Realmente percebemos que somos escolhidos para seguir mais de perto e de forma especial o Mestre. É perceber que não estou só, que a vocação não é algo só meu, mas que muitos outros também são chamados e enviados. O conhecer exemplos de pessoas dedicadas no serviço da igreja, o participar em missões e conhecer várias paróquias, a vivência da fé em vários ambientes, o meu amor e dedicação pela minha paróquia de origem… tudo isto foram contributos para desejar ser padre. Para querer ser como alguns padres que conheço, para querer entregar a vida em serviço da igreja e do povo de Deus, para viver no meio do povo como pastor e ser presença de Jesus para os outros. No fundo, viver esta paixão por servir como pastor numa comunidade e com ela caminhar e ajudar a caminhar.

Para si o que significa ser ordenado diácono?

Diácono Patrício – Num primeiro momento é a confirmação do chamamento que Deus me fez já desde muito novo e para o qual realizei um caminho apaixonante de descoberta durante estes quase oito anos.  Por outro lado, é um compromisso sério que implica a minha vida, a minha pessoa e para o qual quero entregar-me sem reservas. É querer ser mais de Jesus, é fazer da vida um dom para os outros e numa igreja concreta que é a Diocese do Funchal, na qual integrarei um presbitério que me acolherá e onde servirei com amor e entrega total. 

A Ordenação diaconal “É querer ser mais de Jesus, é fazer da vida um dom para os outros e numa igreja concreta que é a Diocese do Funchal”

Na Diocese do Funchal estamos a celebrar as Missas do Parto. Quais os elementos que lhe chamam mais a atenção destas celebrações?

Diácono Patrício – É uma bela tradição religiosa da nossa terra que procura olhar para Maria como aquela que nos traz o Salvador. É claro que chama mais à atenção a alegria e a reunião das pessoas em torno da Eucaristia preenchida dos cânticos tão tradicionais e populares que variam consoante as paróquias. Mas é uma alegria vibrante que gera esta expectativa da preparação do nascimento de Jesus, sobretudo aquela alegria final com o cântico à Virgem do Parto e com tantos sinais festivos, como o tocar dos sinos.

A par desta realidade, destacava o ambiente festivo vivido depois da novena, a reunião, os cantares, a partilha de iguarias e toda esta alegria do convívio. Infelizmente esta alegria está mais contida agora por causa da pandemia, mas alerta-nos também para esta oportunidade de ir ao essencial.  

Que mensagem de Natal gostaria de deixar aos leitores do Jornal da Madeira?

Diácono Patrício – Gostaria de deixar uma mensagem aos nossos leitores, no sentido de que se preparem realmente para o nascimento de Jesus. Não se importem apenas com as limpezas das casas, com o fazer do presépio e as prendas para os familiares, com as festas e reuniões familiares; mas que, preparem no seu interior e na sua vida, esta vinda de Jesus. Tudo faz parte desta festa, mas a festa não seria a mesma coisa se a razão de ser da festa não fosse o nascimento de Jesus. Preparemos o nosso coração para esta alegria que depois deve ser anunciada por nós nos ambientes em que estamos. Santo e Feliz Natal!