Não deixar Deus à porta

D.R.

“Aconfessionalismo. Neutralidade. – Velhos mitos que tentam sempre remoçar. Tens-te dado ao trabalho de meditar no absurdo que é deixar de ser católico ao entrar na Universidade ou na Associação profissional, ou na sábia Assembleia, ou no Parlamento, como quem deixa o chapéu à porta?” (Caminho, ponto 353)

Numa aula de Ciências da Natureza, devia ter dez ou onze anos, escutava uma explicação sobre a origem da vida na Terra. Coloquei a mão no ar e perguntei:

– “Mas então e a história da Bíblia?”

A professora pensou, abriu a porta da sala devagar e disse:

– “A história da Bíblia fica lá fora”. Fechou a porta e continuou a aula.

Não fiquei satisfeita e questionei na altura o pároco da minha terra, e julgo que a minha catequista da altura também. Li também o que encontrei sobre o assunto e cheguei à conclusão que não havia incompatibilidade nenhuma. Ainda assim, este episódio reflete como vivi mais de vinte anos da minha vida. Não é que não soubessem na escola, na Faculdade e no trabalho que eu tinha fé. Eu afirmava-o, sem pudor, muitas vezes. Eu é que não sabia que a minha fé estava – ou deveria estar – intimamente ligada à forma como trabalhava, estudava ou me relacionava como os meus colegas, professores e restante comunidade.

Assim, quando conheci a Obra no terceiro ano da Faculdade, era-me completamente alheia a ideia de o trabalho poder ser oração, poder ser santificado e santificar. Que o meu trabalho interessa a Deus. Eu tinha até o impulso de oferecer orações, incómodos ou algum sofrimento, por exemplo, por alguma intenção, mas nunca me tinha ocorrido que podia oferecer uma hora de estudo, uma tarefa, uma hora de trabalho. A maneira como trabalhava, estudava ou organizava as tarefas que tinha em mãos parecia-me até então completamente desligada da minha vida interior. Até então, era como se o tempo em que em que estudava ou trabalhava “competissem” com o tempo que eu queria dar a Deus, frequentar os sacramentos ou rezar. Quase me parecia, nalgumas ocasiões, que o ideal seria suprimir os primeiros para, então, poder amar a Deus. 

É verdade que também na Faculdade não me inibia de me afirmar católica ou de procurar defender a verdade quando ouvia algo contrário à fé. Lia bastante e procurava aprofundar a minha fé. Contudo, faltava união – a fé parecia uma coisa que eu queria “arrastar” para o campus universitário, mas que não impregnava as minhas ações nem o meu dia-a-dia. Eu tinha fé – mas, na verdade, deixava-a à porta do meu estudo, do meu trabalho e das minhas relações de amizade, embora a defendesse com palavras, aguerridamente até.

Eu sempre gostei de estudar, mas nunca me organizei – estudava por impulso ou necessidade, consoante o ânimo. Estudava o que me apetecia, quando me apetecia e adiava indefinidamente o que não gostava – ainda que fosse urgente. Nas aulas, tirava apontamentos caóticos, não me esforçava por compreender até ao fim, se o conteúdo era difícil. Estudava para passar se a cadeira não me interessava e fazia a despachar os trabalhos de laboratório que não eram do meu agrado. Com os colegas, facilmente era antipática e brusca, sobretudo se fossem bastante diferentes de mim. Apontava neles o que parecia errado sem o mínimo de caridade ou de esforço para tentar compreender o que lhes ia na alma e no coração. Julgava-me superior em muitos aspetos e oferecia conselhos e opiniões abundantemente, sem ninguém solicitar. Além disto, achava imensamente charmoso chegar atrasada (ainda hoje tenho muita dificuldade em chegar a horas, mas percebo que é falta de caridade deixar os outros à espera e uma falta de respeito pelo tempo de cada um. Naquela altura, eu apenas valorizava o meu tempo…).

Alguns anos se passaram já desde aquele tempo. Só posso agradecer a Deus o bem que fez na minha vida através da Obra. Com a formação que fui recebendo – retiros, palestras, recoleções, direção espiritual – e com a ajuda de tantas pessoas boas, que tanta paciência tiveram para me escutar e esclarecer – lentamente fui vendo que a forma desleixada e preguiçosa como trabalhava e estudava me afastava de Deus, dos outros e da minha própria felicidade. Atualmente, seja no trabalho doméstico, seja no trabalho profissional, não quero que Deus fique à porta – seja da cozinha, da sala de reuniões, da apresentação que preparo para um cliente, do café que tomo com uma colega ou daquela tarefa difícil em casa que vai exigir um grande esforço. Quero fazer isso tudo com Deus, com Ele e por Amor a Ele e aos outros.

Tanto em casa como na empresa, procuro oferecer a Deus o que tenho em mãos antes de começar. Às vezes, por alguém ou por uma intenção concreta. Procuro manter um Crucifixo ou uma imagem por perto – para olhar muitas vezes, sobretudo, nas alturas em que me apetece fugir ao trabalho ou não terminar as coisas com cuidado. Peço ajuda ao Espírito Santo muitas vezes durante as tarefas, especialmente quando são precisas ideias e soluções. Também aprendi que santificar o trabalho não é entregar um trabalho perfeito, mas fazer o melhor que podemos no tempo que temos. Às vezes, temos de entregar o trabalho como está, acabado, é certo, mas não com a perfeição que gostaríamos – simplesmente, é altura de passar a outra tarefa. Muitas vezes é apenas o meu orgulho a querer entregar uma coisa espetacular, que ninguém exigiu, e que roubaria tempo a outras essenciais, como a oração ou o cuidado da família. E muitas vezes, teremos mesmo de interromper tudo o que estamos a fazer – ainda que o tempo escasseie – para escutar o marido, um filho ou uma colega de trabalho que precisa de ajuda ou, simplesmente, de desabafar connosco. Por fim, manter o bom humor e fazer rir os que nos rodeiam, sobretudo quando há dificuldades, é, muitas vezes, a melhor ajuda que podemos dar no momento. 

Há dias em que o cansaço ou o sono teimam em levar a melhor, mas acredito verdadeiramente que Deus conta com o nosso trabalho – no lar e fora dele – para aproximar muitas almas do seu Amor e que, trabalhando bem, literalmente podemos mudar o mundo.

Dália Rafael
Consultora de SAP-SF