Presidente da Legião de Maria: “Senti que a Igreja precisava de mim”

Fátima Baeta fala desta Associação Internacional de Fiéis que está a celebrar o centenário de fundação 

Foto: Jornal da Madeira

Este ano, a Legião de Maria está a comemorar 100 anos da sua fundação. Foi em 1921, na Irlanda, que um grupo dirigido por Frank Duff deu início a esta Associação Internacional de Fiéis. 

Fátima Baeta, presidente do “comitium” do Funchal, apresenta ao Jornal da Madeira os 19 grupos da Legião de Maria presentes na Madeira e a ação dos seus 688 membros na Diocese do Funchal. 

O “comitium” do Funchal é constituído pelo diretor espiritual, o cónego Vítor Gomes; a presidente, Fátima Baeta; a vice-presidente, Fernanda Henriques; a secretária, Rita Freitas e a Tesoureira, Patrícia Pestana.

A Legião de Maria celebrou 100 anos de fundação. Como surgiu este movimento da Igreja?

Fátima Baeta – O nascer da Legião Maria foi uma reunião. O nosso fundador Frank Duff, reuniu no dia 7 de setembro de 1921, véspera de Nossa Senhora da Natividade, um grupo de senhoras, com a presença de um sacerdote, e resolveram rezar para se inspirarem nalguma coisa que pudessem fazer na Igreja, numa ação evangelizadora. Enquanto preparavam a reunião, uma senhora colocou duas velas numa mesa, duas jarras com flores e uma imagem com Nossa Senhora Conceição – atualmente no altar de Nossa Senhora colocamos uma imagem de Nossa Senhora das Graças –, pediram a proteção do Espírito Santo para essa reunião e espontaneamente se ajoelharam para rezar o terço. Começou assim.

“Os membros deste movimento praticam o apostolado direto através do contacto pessoal, especialmente das pessoas mais afastadas da Igreja. Todo o seu trabalho legionário é como que uma participação na missão de Maria, sendo realizado em união com Ela”.

Como é que a partir dessa reunião surgiu a Legião de Maria? 

Fátima Baeta – Todas as semanas, à mesma hora, faziam o compromisso de continuar a participar na reunião. Pensaram que título dar ao grupo. Inicialmente, escolheram a invocação de Nossa Senhora das Graças. Estipularam umas regras e depois partiram numa missão evangelizadora com duas vertentes: social e pastoral, tudo em prol da Glória de Deus. Ao mesmo tempo, contribuíam para a santificação pessoal e daqueles a quem eram enviados. 

A Legião de Maria foi avançando e hoje assenta em quatro pilares. A assistência pontual e assídua à reunião semanal; a reza diária da “catena”; a execução de um trabalho semanal, substancial e ativo, vendo um irmão em cada pessoa; e, finalmente, o último ponto, que é o segredo absoluto, no que se conhece durante a reunião e durante o trabalho. 

Todos os trabalhos são feitos dois a dois, recordando que o Senhor enviou os seus discípulos dois a dois. O colega de trabalho é também um apoio e uma chamada ao compromisso. Quando é marcado um trabalho com um irmão legionário, há um compromisso de estar presente na hora e no local combinados. Isto evita a realização de trabalhos conforme o que apetece no momento. 

Ser legionário é ser um soldado. O termo “legião” significa exército. Somos soldados do exército de Maria. Aquele exército que luta pelos bens espirituais. O nosso fundador, Frank Duff, adotou esta terminologia inspirando-se no exército romano. 

Trabalhamos na vertente pessoal, pastoral e social. 

Foto: Jornal da Madeira

Pode explicar melhor estas tipologias de trabalhos realizados pela Legião de Maria? 

Fátima Baeta – Os membros deste movimento praticam o apostolado direto através do contacto pessoal, especialmente das pessoas mais afastadas da Igreja. Todo o seu trabalho legionário é como que uma participação na missão de Maria, sendo realizado em união com Ela.

Há um momento da reunião onde se faz a distribuição dos trabalhos. O presidente do “praesidium” envia os irmãos para as atividades daquela semana. O trabalho legionário é semanal, e é realizado dois a dois. Temos uma vertente da acção e também a oração. Na ação entram as visitas e o apoio, principalmente às pessoas que estão afastadas da igreja, ou porque já se esqueceram ou porque não podem deslocar-se à igreja. Aqueles que estão a atravessar momentos difíceis, se conhecemos algum vizinho a passar por algum problema, ou uma família a passar por uma crise, ou está a ponto de se desmoronar, nós nos aproximamos e tentamos ajudar com a nossa presença. A nível da pastoral da saúde, também fazemos visitas aos hospitais, visitamos doentes no domicílio, algumas vezes acompanhamos também alguma pessoa mais debilitada à consulta, compramos os seus medicamentos e estamos atentos à toma dos medicamentos.

A pastoral socio-caritativa é mais aqueles que, não estando doentes, precisam de uma companhia ou de uma ajuda. Também visitamos os lares de terceira idade. A pastoral da evangelização é o trabalho dos nossos catequistas e o rezar do terço ao ar livre, para chamar as pessoas. Câmara de Lobos faz muito isso. A pastoral da Liturgia é levar a Sagrada Comunhão à casa dos doentes e aos lares. Também orientar o terço nas paróquias, semanalmente, durante o mês de maio. 

É uma riqueza pessoal e também para as pessoas. Nós, legionários, temos uma característica importante: conhecemos com mais pormenor o meio onde estamos, e temos acesso fácil às pessoas que necessitam de apoio. Mas é preciso esclarecer que a Legião de Maria só oferece a sua disponibilidade, não ajuda a nível material. No entanto, muitas vezes acontece encaminhar para outros grupos e serviços de caridade na paróquia as situações que acompanhamos. 

A Legião de Maria vive do voluntariado e dos donativos dos seus membros, através de uma coleta semanal. Não aceita outro tipo de ofertas. 

“Nós, legionários, temos uma característica importante: conhecemos com mais pormenor o meio onde estamos, e temos acesso fácil às pessoas que necessitam de apoio”.

Quem são os irmãos Legionários de Maria?

Fátima Baeta – A Legião de Maria é um movimento católico internacional de leigos que procura colaborar na missão evangelizadora da Igreja. É um movimento evangelizador.

Dentro das características da Legião de Maria, fazemos a distinção entre os membros ativos e os membros auxiliares. Os membros ativos são aqueles que fazem a reunião todas as semanas e também o trabalho semanal. Na retaguarda, temos os membros auxiliares. São aqueles que, através da sua oração diária, rezam para que os membros ativos possam produzir os frutos desejados.

Qual a situação da Legião de Maria na Madeira? 

Fátima Baeta – Na Diocese do Funchal, está implantada em três Arciprestados: Funchal. Câmara de Lobos e Ribeira Brava. Do “comitium” do Funchal fazem parte 2 “curiae”: “Nossa Senhora da Paz” em Câmara de Lobos, com 7 “praesidia, e “Imaculada Conceicão” na Ribeira Brava, também com 7 “praesidia”.  

No total são 19 “praesidia”, com 176 membros ativos e 512 membros auxiliares.

A primeira “curia”, chamada “Imaculado Coração de Maria”, na Ilha da Madeira, foi fundada em 1965. Posteriormente, esta “curia” foi elevada a “comitium”, a 15 de janeiro de 1971, e seu diretor espiritual foi o reverendo Pe. Manuel Martins. 

Qual o contributo da Legião de Maria para o crescimento da vida cristã dos seus membros? 

Fátima Baeta – Eu vou falar só por mim. Antes de eu ser legionária, eu era aquela cristã que ia à Missa como rotina. Quando entrei na Legião de Maria, estava a atravessar um momento muito difícil da minha vida. A Legião de Maria foi como uma tábua para me erguer espiritualmente e me dedicar mais à vida espiritual. Senti que a Igreja precisava de mim. Eu era necessária. No ambiente em que me encontrava, pelo facto de pertencer à Legião de Maria, comecei a ser vista com outros olhos. Eu já não era só a Fátima. Tanto os membros da Igreja, como os de fora, os que estão mais afastados, aproximavam-se de mim de forma diferente. Pediam-me mais alguma informação sobre algum aspeto da vida da fé, ou algum conselho. Pertencer à Legião de Maria fez-me sentir útil. Também no grupo, aprendemos a falar menos e a ouvir mais. Sabemos que há pessoas que precisam de ser ouvidas. Aprendi a guardar o segredo. Ouvimos coisas que são muito pessoais. Temos que perceber que as pessoas depositam em nós grande parte da sua vida. Acho que não devo trair a pessoa que me escolheu para falar dos seus problemas. 

Na sua opinião, qual é a missão da Legião de Maria numa paróquia? 

Fátima Baeta – É a sua disponibilidade. A Legião de Maria é mais alguém que o pároco tem ao seu dispor para o que for necessário. 

“A Legião de Maria foi como uma tábua para me erguer espiritualmente e me dedicar mais à vida espiritual. Senti que a Igreja precisava de mim. Eu era necessária”.

Como são estruturados os encontros mensais?

Fátima Baeta – No “praesidium” fazemos as orações iniciais, a reza do terço, uma leitura espiritual, a chamada para as faltas e presenças, o relatório da tesouraria e depois a apresentação dos trabalhos realizados, que ficam em ata. Lemos a oração da “catena” e é feita uma alocução, normalmente pela presidente ou pelo sacerdote quando está presente. A seguir temos o estudo do manual. Para além do trabalho semanal, também levamos uma parte do manual para estudarmos em casa. 

Todos os anos, por altura do dia 25 de março, fazemos a festa da “Acies”, que é a solenidade principal da Legião de Maria, que é quando nós fazemos, durante a Missa, junto do estandarte de Nossa Senhora, a nossa consagração a Nossa Senhora. Dizemos: “Eu sou toda vossa, ó minha Rainha e minha Mãe, tudo o que tenho a vós pertence”. 

Uma vez por ano, nas proximidades do dia 8 de dezembro, fazemos uma reunião geral de membros ativos. Fazemos as orações da Legião e depois um pequeno convívio. Com os membros auxiliares, para não ficarem no esquecimento e sentirem que são úteis, temos a obrigação de fazermos duas reuniões por ano. 

Depois temos o congresso. Já o realizamos duas vezes na Madeira, na igreja da Nazaré. Nele participam todos os membros ativos e auxiliares e os diretores espirituais. 

Se uma paróquia quiser ter um grupo da Legião de Maria o que deve fazer? 

Fátima Baeta – Nós temos todo o gosto em ir às paróquias que quiserem, fazer uma reunião de formação e explicar o que é o movimento. Quando o grupo é formado, também fazemos um acompanhamento, pelo menos, durante 8 semanas. 

Faz parte do Legionário esse trabalho. Ser “extensionista”, fazer recrutamento tanto de membros ativos, como auxiliares, está sempre nas funções de qualquer membro ativo, não é preciso ser oficial (presidente, vice-presidente, secretária e tesoureira).