Bispo do Funchal diz que tetos da Sé restaurados convidam-nos a manter os pés na terra, mas os olhos fitos no céu

Em estilo mudéjar, de influência islâmica, os tectos da Sé são únicos em Portugal e a sua recuperação custou cerca de 1,2 milhões de euros.

Foto: Duarte Gomes

A obra de conservação e restauro dos tetos da Sé do Funchal, que durante anos estiveram votados à ‘escuridão’, está concluída e representou um investimento de cerca de 1,2 milhões de euros.

A cerimónia de inauguração do restauro, que teve lugar ao fim da tarde de segunda-feira, dia 29 de novembro, contou com um concerto da Orquestra Clássica da Madeira e a presença dos representantes das principais autoridades regionais e de fiéis que não quiseram perder este momento em que se fez luz.

Na oportunidade, D. Nuno Brás frisou que “hoje maravilhamo-nos com esta catedral e em particular com o seu teto, é uma obra que nos foi legada há 500 anos e que resplandece diante dos nossos olhos, magnífica, como nunca ninguém teve oportunidade de a contemplar”.

D. Nuno Brás, que disse ainda que esta obra de arte “nos convida, quase nos obriga, a manter os pés na terra, mas a olhar para cima”, lembrou que a Sé é uma “casa de portas abertas e um centro da vida humana e cristã, lugar de chegada e de partida e missão, lugar onde Deus e o homem se encontram no Cristo de braços abertos que aqui habita”.

De resto, “nesta Sé tudo nos fala de Deus. Fala-nos do Deus connosco, do Deus que se fez carne ergueu a sua morada entre nós e deu à nossa vida um outro sentido, um outro brilho, um novo horizonte”. Mas, acrescentou,“fala-nos também de nós em Deus, da nossa vida humana transfigurada, divinizada”.

“O teto da Sé do Funchal convida-nos a erguer o olhar, porque a vida cristã só faz sentido com os pés na terra, mas com os olhos fitos no céu”, salientou D. Nuno, para logo acrescentar que “contemplando o teto desta catedral como o céu, como a vida com Deus é magnífica”.

“Ajudados pela música, pelos artistas contemporâneos recordamos todos aqueles que, de há 500 anos a esta parte contribuíram para este magnífico convite para Deus”, constatou ainda o prelado que fez questão de agradecer “a quantos com o seu financiamento da União Europeia, à paróquia e ao Cabido da Sé, passando pela indispensável e preciosa ajuda do Governo Regional, permitiram estas obras de renovação”.

“E a gratidão aos homens transforma-se em gratidão a Deus, que nos dá sabedoria para, por meio da realidade material, finita, dizer a infinita beleza divina que nos atrai, nos inspira e nos convida a ir sempre mais alto”, concluiu.

GR promete continuar a investir

Já o presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, realçou que a requalificação do património monumental da região “está mais uma vez consagrada” nesta obra.

“Eu tive ocasião de visitar duas vezes este trabalho de restauro, uma das vezes com o Presidente da República, mas nunca pensei entrar na Sé do Funchal e ter esta sensação de beleza, de trabalho majestoso e que glorifica de facto a nossa terra, a nossa cidade”, declarou.

Além disso, Miguel Albuquerque fez questão de garantir que “o Governo Regional vai continuar a investir no património edificado da nossa terra”.

Do investimento de 1,2 milhões de euros, 174.184 euros foram investidos pelo executivo madeirense e os restantes 987.043 euros provêem de fundos europeus.

O Governo da Madeira salienta, numa nota de imprensa, que “uma das principais características construtivas e decorativas da Sé do Funchal reside na raridade dos tetos da nave central, naves laterais e transeptos, em estilo mudéjar de influência islâmica, únicos em Portugal”.

O executivo de Miguel Albuquerque explica também que na intervenção de conservação e restauro, que se iniciou em novembro de 2019, “foram adotados conceitos de intervenção mínima, para preservação da integridade formal e autenticidade do bem cultural, respeito integral pelos materiais e técnicas originais e utilização de materiais compatíveis com os que compõem o original”.

A Sé Catedral do Funchal, classificada como Monumento Nacional desde 1910, constitui o principal templo religioso da diocese.

A construção do edifício, ordenada por D. Manuel I, teve início em 1493 e foi concluída em 1514, apesar de já se celebrarem missas no templo antes dessa data.

Duas notas finais, a primeira para a intervenção do Dr. Francisco Clode, diretor do Serviço do Património Cultural, que classificou este como “um dia de júbilo” e que traçou a história deste monumento, que faz parte de uma nova centralidade criada por D. Manuel, o “rei urbanista”.

A segunda, para a estreia de uma peça do madeirense Pedro Macedo Camacho intitulada “From The Dark”, concebida de propósito para esta ocasião e brilhantemente interpretada pela Orquestra Clássica da Madeira”.